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A luta por energia

Rogério Simões | 2011-04-18, 17:02

nuclearblog.jpgO filme Guerra do Fogo, de 1981, dirigido pelo francês Jean-Jacque Annaud, conta uma história passada nos primórdios da humanidade. Neandertais e homo sapiens disputam território e recursos, em uma interação decidida pela capacidade do humano moderno de produzir e controlar o fogo. Tal habilidade viria a definir a conquista da Terra pela humanidade. Há mais de 100 mil anos o homem manipula a natureza para a fabricação de energia, essencial para protegê-lo do frio, cozinhar alimentos e garantir sua segurança em meio à escuridão.

A chegada da eletricidade à vida cotidiana revolucionou nossas sociedades e aumentou drasticamente nossa dependência de energia. Nossa segurança e visibilidade noturnas passaram a ser garantidas não mais pelo fogo, mas por fios de conexão e sistemas de distribuição de eletricidade, cuja geração passou a ser feita das mais diversas formas. Hoje sabemos que as mais tradicionais são nocivas ao meio ambiente. O relativo consenso que se formou em torno da principal causa do aquecimento global, a emissão de gás carbônico na atmosfera, transformou em vilã quase toda produção de energia, praticamente associando a vida em centros urbanos à inevitável destruição do nosso habitat natural. Até mesmo a operação hidrelétrica, não associada diretamente à emissão de carbono e considerada limpa a partir do início da produção energética, tem enorme impacto sobre comunidades e a natureza na sua fase de implantação. Produzir e consumir energia são atividades hoje tão perigosas ao planeta quanto essenciais à nossa vida moderna.

O assunto tornou-se mais complexo após o terremoto e tsunami no Japão, no mês passado. O acidente na usina nuclear de Fukushima foi de repercussões atômicas no debate sobre a validade e os riscos dessa matriz energética, considerada por muitos uma alternativa essencial no combate ao aquecimento global. Em comparação a qualquer outra produção de energia fóssil (carvão, petróleo, gás natural), ela é relativamente limpa, mas envolve o risco de vazamento de radiação e a inevitável produção de lixo radiativo. Isso já se sabia, mas o acidente de Fukushima deu novas cores à polêmica. Na Europa, a reação imediata foi o anúncio de novos testes de segurança nas instalações nucleares no continente. Apesar das promessas do governo alemão de rever a decisão de aumentar a vida útil de suas usinas, milhares de pessoas protestaram em Berlim contra a produção de energia nuclear no país. A preocupação dos alemães foi tanta que o apoio ao Partido Verde local disparou, dando à legenda uma histórica vitória nas eleições do Estado de Baden-Wurttemberg, uma derrota amarga para a chanceler Angela Merkel. Do ponto de vista de grande parte da Europa, a tragédia japonesa enfraqueceu o argumento em favor da energia nuclear.

Muitos, entretanto, não se cansam de repetir o que para outros é uma tese difícil de aceitar: o aquecimento global não poderá ser contido ou mesmo minimizado sem a ajuda da energia nuclear. Um dos que abraçaram essa linha de raciocínio foi o jornalista/ativista britânico, e conhecido defensor do meio ambiente, George Monbiot. Após o desastre de Fukushima, Monbiot decidiu aceitar a energia nuclear como uma alternativa menos ruim para salvar o planeta da destruição causada pelos combustíveis fósseis, após se convencer de que os danos à saúde causados pela radiação são menores do que se pensava. Sua posição, no entanto, está longe de ser unânime, tendo provocado a ira de ativistas como a australiana Helen Caldicott, que há décadas luta para expor o que considera perigos da radiação. No embate que os dois travam nas páginas do jornal The Guardian, Caldicott diz que Monbiot distorce evidências sobre os riscos da energia atômica, enquanto o jornalista argumenta que abandonar essa opção resultaria em um desastroso agravamento do aquecimento global.

A empresa que opera o complexo de Fukushima prometeu controlar o vazamento radioativo até o final do ano, dias depois de o acidente ter sido elevado ao mesmo nível de gravidade do de Chernobyl. Se essa previsão de confirmar, é bem possível que o grau de preocupação com acidentes nucleares volte ao mesmo padrão anterior ao devastador terremoto japonês. A conscientização sobre os riscos para a humanidade do aquecimento global (desertificação de enormes áreas, inundações etc) pode manter viva a opção da energia nuclear. Mas o medo de um inimigo invisível, cujos rastros de danos podem durar por décadas ou gerações, deve garantir uma significativa oposição à opção radiativa. O ser humano não quer voltar aos tempos em que calor e proteção eram obtidos apenas por meio de peles de animais e tochas, e espera-se que mais prioridade seja dada às fontes renováveis e de menor prejuízo à natureza e à saúde da população. Mas a luta da humanidade em busca de energia continuará, e grande parte da sua produção seguirá, por um bom tempo, causando danos à vida na Terra. Continuaremos pagando um preço alto pelas conquistas da vida moderna.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 07:11 PM em 18 abr 2011, fábio de oliveira ribeiro escreveu:

    Sinal dos tempos. Quando o petróleo acabar não haverá fogo (energia) para todos. Mas ficaremos todos derretendo sob um sol causticante. 30º C em Osasco, São Paulo, Brasil, em pleno outono. A terra da garôa virou um deserto do Saara pavimentado, em breve teremos que trocar nossos carros inúteis por camelos. Confesso, entretanto, que não pretendo usar turbante. Muito retrô para meu gosto. Uma tanga à lá Guerra do Fogo vai melhor.

  • 2. às 07:54 PM em 18 abr 2011, Nilvio Almeida escreveu:

    É isso ai Fábio de Oliveira...Ninguém coloca o ivento de Tesla(Nikolas) para funcionar, onde ele invertia as polaridades..rs Ou seja o condutor seria o solo e não mais o aterramento...rsrs Pesquise pela web sobre o experimento ou projeto Philadelfia..abraço e que Deus nos proteja..

  • 3. às 12:48 AM em 19 abr 2011, Rubens Miranda escreveu:

    É uma preocupação natural, a questão sobre a energia nuclear e a manutenção da segurança em torno desses reatores, que guardam o combustível nuclear, de vazamentos e outras questões. Contudo, até então, se não fosse pelo acidente natural que chacoalhou o fundo oceânico na costa japonesa, causando o maremoto ou tsunami, jamais teríamos ouvido falar em Fukushima ou que mesmo nessa localidade haveria uma usina nuclear, que tomou tão grande parte do assunto midiático dos últimos meses.

    Acidentes nucleares como o de Chernobyl, na atual Ucrânia, então parte da ex-URSS, em 26 de abril de 1986, bem como o incidente, pouco divulgado, ocorrido em Sarov, cidade militar e industrial russa, que se utilizam de materiais nucleares nas indústrias, assim como os ocorridos em Three Mile Island, Pensilvania, nos EUA, em março de 1989, e no Brasil, como o caso do césio-137, em Goiás, em setembro de 1987, só se tornaram importantes na medida em que os acidentes foram divulgados e amplamente noticiados. (...)

    Em Fukushima, Japão, o problema na usina foi o fato causado pelo tsunami que invadiu os reatores, causando problemas naturais e consequentes, pois o local era amplamente controlado, nos seus mínimos detalhes, certamente acompanhados pelos técnicos japoneses, cientistas e inspetores da AIEA. (...)

    A energia nuclear é uma energia segura e limpa. Acidentes como os de Chernobyl e Three Mile Island fogem um pouco do que ocorrera em Fukushima. Se não causados por falha humana direta, podem ter sido causados pela saturação de materiais que protegem o combustível nuclear, por stress mesmo desses materiais ou falhas estruturais nas edificações protetoras desses reatores, além da já conhecida oscilação e instabilidade dos mnérios como o urânio e o plutônio, principais fontes de radiatividade usadas no mundo.

    Ademais, em nenhuma situação devidamente controlada, como são essas usinas, nada é seguro, nada é previsível, tudo pode acontecer, pela natureza da operação e manuseio de minérios radioativos, e sua empregabilidade industrial e militar, e ainda, a própria falibidade humana. Na esteira dessas sequências de segurança e previsibilidade instável, podem ocorrer falhas humanas e circunstanciais que irão comprometer a segurança da usina nuclear.

    Mas, ainda assim, trata-se de energia necessária, menos poluente, e que merece nossa atenção, e que deve ser amplamente debatida com a sociedade. Os governos tem mania de esconder de seus nacionais, projetos que envolvam energia nuclear, daí gerando as naturais dúvidas e desconfianças. E o caso ocorrido em Fukushima, disparou na mídia e na opinião pública um temor infundado e um tanto fantasioso ao extremo, porque o problema se deu devido ao desastre natural ocorrido. (...)

    É preciso bom senso, paciência, e maiores informaçõe sobre o assunto, sem paixões ou ideologias na discussão sobre a energia nuclear. Ou então, chegará tempo em que discutiremos como será melhor empregado o fogo, aqui e ali, em um retorno aos tempos do vapor e do carvão para aquecer os homens. Ademais, energias alternativas deveriam ser repensadas, como a eólica, solar, de marés, enfim. No Brasil, enquanto estudos apontam o progressivo esgotamento das reservas de petróleo no Oriente Médio, no Brasil vivemos o ufanismo da exploração das camadas do pré-sal, em um retorno às causas da poluição mundial, que causam essa triste realidade de aquecimento global e destruição de áreas agrícolas, secas, desertificação, inundações etc. O homem não sabe o que quer. Certamente, os problemas em Fukushima se resolverão, e tudo passará de notícias passadas.

  • 4. às 08:03 PM em 01 mai 2011, francisco ruiz escreveu:

    Por favor, vejam este video e percebam a gravidade do problema!

    https://www.youtube.com/watch?v=5HLkD57pJhY

    Tentei mandar um extenso comentário que foi rejeitado e apagado sem explicação... por que?

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