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A volta do Estado

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Rogério Simões | 2009-09-02, 18:12

lulaoil.jpgO anúncio, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dos projetos para a exploração do chamado petróleo "pré-sal" pode ser visto como mais um capítulo de um fenômeno claramente perceptível no mundo de hoje: a volta do Estado. O governo Lula quer o Estado brasileiro, por meio da Petrobras, soberano na exploração dessa nova riqueza nacional, muito diferente do que defendia a estratégia tucana para o setor nos tempos de FHC.

Logicamente, o Estado nunca foi embora, especialmente no Brasil, onde seus tentáculos, tamanho e inoperância na solução de problemas do país são fontes de críticas desde a independência do país. Mas, diante dos erros, exageros e ilusões do neo-liberalismo, com as recentes consequências nefastas nos quatro cantos do planeta, o Estado recuperou boa parte de sua credibilidade como motor de desenvolvimento econômico e provedor de soluções para os desafios da humanidade.

Aqui na Europa, o debate continua em torno de que modelo de capitalismo prevalecerá nos próximos dez, 20 ou 30 anos. A versão mais liberal, anglo-saxã, que desde os anos 80 dava aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha uma sensação de vitória na batalha econômica mundial, perdeu força. O discurso de nações como França e Alemanha, a favor de uma maior regulamentação dos mercados financeiros e mais força do Estado na condução das economias nacionais, vem tomando a dianteira. No Japão, a derrota do antes invencíveis conservadores nas eleições palamentares indica uma guinada histórica, com o futuro premiê Yukio Hatoyama prometendo aumentar gastos do Estado nas áreas sociais. O campo vitorioso na política japonesa fala em se distanciar politicamente dos Estados Unidos e promete um Estado ativo na missão de tirar o país do atoleiro econômico, mesmo diante de uma dívida pública já estratosférica.

Aqui na Grã-Bretanha, o premiê trabalhista, Gordon Brown, corre sério risco de perder o emprego nas eleições do ano que vem. Não devido às suas históricas credenciais de centro-esquerda, mas por ter liderado o namoro do seu partido com o grande capital por mais de uma década e, com isso, ter sido responsabilizado pela grave crise econômica que assola o país. Os conservadores, que nos tempos de Margaret Thatcher ajudaram a estabelecer o capitalismo financeiro como modelo mais bem-sucedido no mundo, agora criticam abertamente a cultura dos bônus milionários para banqueiros. Também juram de pés juntos que vão fortalecer o sistema estatal de saúde britânico, caso vençam as eleições a serem marcadas para breve, como vêm indicando as pesquisas de opinião. Não ousam mais defender um Estado mínimo, discurso que lançaram nos anos 70 e 80. Falam apenas em Estado eficiente e austero.

Em outubro, no auge do processo de semi-estatização do setor bancário britânico, a super liberal revista The Economist analisou a crise do capitalismo, dizendo que torcia para que o mundo não abandonasse o que chamou de "liberdade econômica". O capitalismo havia errado, dizia o editorial, mas também continuava acertando. Mais recentemente, em julho, a revista disse que a crise não questionava apenas o futuro do capitalismo, mas a credibilidade das ciências econômicas. Em reportagem de capa, a publicação afirmou que tanto a macroeconomia como a economia financeira saem desacreditadas da crise e precisam de uma reinvenção. A publicação não abraçou a tese de que o mundo voltará a uma era do Estado forte, como sugeriu o presidente Lula em sua fala sobre o petróleo. A Economist apenas crê na necessidade de uma reinterpretação do capitalismo moderno.

Num futuro próximo devemos conhecer melhor a estrada em que estamos, pois é provável que o mundo já esteja a caminho do fim da crise. Um economista do FMI acaba de dizer que o órgão deve rever para cima sua estimativa de crescimento global para 2010, de 2,5% para quase 3%. O responsável pela recuperação? Para o horror de neo-liberais convictos, o salvador de pátrias mundo afora ainda será o dinheiro público. Segundo o The Wall Street Journal, o economista, Jörg Decressin, disse que em algum momento o setor privado terá de retomar a dianteira, mas sem arriscar quando. Até lá, o Estado segue mais forte e com mais credibilidade do que jamais teve nas últimas décadas. Resta saber se, para o bem ou para o mal, também o futuro ao Estado pertence.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 12:13 AM em 03 set 2009, Bernardo escreveu:

    Eu acredito que o estado não vá ganhar força, mas também não irá perder. Pode ser até que a década de 2010 seja uma década 'estatal' pós-crise de 2008-09, mas em 2020 volta o mesmo discurso de sempre contra o estado.

  • 2. às 04:09 AM em 03 set 2009, Paulo Couto Teixeira escreveu:

    Que seja bem-vindo, o investimento público, já vem tarde!
    Basta olhar a história econômica do Brasil para constatar que os períodos de maior crescimento coincidiram com a pujança do investimento público.
    O néo-liberalismo exacerbado teve a sua vez, entre 1989 e 2003, com resultados calamitosos em termos de crescimento econômico e emprego.
    Que venha o investimento autônomo, governamental, e nunca mais nos abandone. Que a exploração do pré-sal pelo Setor Público brasileiro seja o marco inicial da retomada de nosso desenvolvimento!

  • 3. às 10:38 PM em 03 set 2009, Marcelo Araújo escreveu:

    Claro que o estados devem intervir na atividade econômica, controlando seus meios de produção.Temos como exemplos os excepcionais desenvolvimentos que se obtiveram , quando o fizeram ,na URSS e seus satélites, Cuba e em outros , além de que ,no campo político,lançaram raízes profundas de verdadeira democracia e liberdade.Esperem para ver o que será a Venezuela dentro de pouco tempo, com o timão nas mãos capacitadas do mui amado Hugo Chavez.

  • 4. às 03:53 AM em 28 set 2009, Celso Paoliello Pimenta escreveu:

    O resultado das privatizações promovidas pela turma de FHC no Brasil dão bem o exemplo da tragédia que é tornar serviços públicos essenciais como veículos de lucros gananciosos e irresponsáveis.

    Uma das maiores urgências que temos hoje no país é a reestatização dos serviços públicos e a inclusão de uma cláusula pétrea na nossa Constituição proibindo sua privatização no futuro.

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