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Tempos de guerra

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Rogério Simões | 2009-02-04, 10:37

francagreve.jpgPrimeiro foram as bolsas de valores, que em meados de 2007 começaram a registrar algumas quedas acentuadas. Alguns bancos viram-se em maus lençóis, como o britânico Northern Rock, que quebrou ainda naquele ano. Era a crise do crédito, que derrubaria também o gigante americano Bear Stearns. Outras megafalências vieram, especialmente no setor financeiro e de hipoteca dos Estados Unidos, até que o banco Lehman Brothers ruiu, em setembro de 2008. A crise agora englobava praticamente todos os aspectos do sistema financeiro. Com a falta geral de dinheiro, exportações e importações mundo afora encolheram, e taxas de crescimento despencaram. O problema passou a afetar a economia global.

A crise agora chegou às ruas. Trabalhadores, estudantes e aposentados vêm realizando protestos, enfrentando a polícia ou simplesmente cruzando os braços na França, Grécia, Grã-Bretanha, China. O regime comunista/capitalista chinês teme pelo futuro do país, em meio a uma crescente onda de manifestações em várias cidades, geralmente não registradas pela imprensa local. Na Europa, um ano atrás líderes nacionais falavam da necessidade de reformas para modernizar seus Estados. Hoje o medo é que tais mudanças não apenas sejam impensáveis, mas que protestos de desempregados e de trabalhadores temendo perder sua vaga causem verdadeiras convulsões sociais. Na França, uma greve geral mostrou ao presidente Nicolas Sarkozy que o país pode viver novos momentos de grave tensão nacional.

Os motivos da insatisfação crescente estão geralmente ligados ao drama de se acabar no olho na rua. Na Espanha, a crise econômica já elevou a taxa de desemprego nacional para além dos 14% da população economicamente ativa. Poderá chegar a 20%. Muitos culpam a globalização, esse fenômeno tão debatido nas últimas duas décadas que faz com que uma decisão política ou econômica na China tenha impacto na periferia da Cidade do México. Tanto capital financeiro como empregos têm pulado de um canto do mundo para outro com uma rapidez nunca antes vista, num processo que elevou a riqueza em praticamente o mundo todo, mas aumentou os riscos.

A situação mudou, e muitos agora rejeitam a idéia de um mundo globalizado, sem fronteiras, sem muito controle, sem proteção. Os trabalhadores de refinarias britânicas que cruzaram os braços nos últimos dias protestam contra a chegada de empregados de outros países europeus, que na sua visão têm tomado seus empregos no setor, invadido por empresas estrangeiras. Cobram do premiê Gordon Brown a promessa de "empregos britânicos para trabalhadores britânicos". O presidente Barack Obama prometeu, no pacote econômico que espera ver colocado em prática em breve, o incentivo para que consumidores americanos "comprem produtos americanos". Em entrevista exclusiva ao repórter Gary Duffy da BBC, publicada aqui na BBC Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a medida. A Comissão Européia também e já ameaça com retaliações. A China acusa os Estados Unidos de se render ao protecionismo, e Washington rebate dizendo que a China mantém sua moeda artificialmente desvalorizada para elevar suas exportações.

Primeiro o crédito se foi, os bancos quebraram, e o mundo ficou sem dinheiro. Depois milhões perderam seus empregos. Agora os trabalhadores vão às ruas, enquanto todos os países tentam vender, mas ninguém quer comprar. Alguns líderes políticos e organismos internacionais tentam colocar panos quentes, pedem calma e acenam a bandeira branca. Mas nas ruas e nas relações comerciais, muitos já se preparam para tempos de guerra.


ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 07:26 PM em 04 fev 2009, Marco Poli escreveu:

    Faz horas que venho dizendo exatamente isto e até aqui me pareceu estar pregando no deserto. Se os nativos dos países ricos aceitaram a mão de obra barata oriunda do 3º Mundo para ocupar os espaços "de calçada" porque já não queriam mais fazer o "serviço sujo", agora começam a olhar para os imigrantes como concorrentes. É óbvio que isso aconteceria na primeira grande crise.

    Temos que ver, ao mesmo tempo, que os moradores da perferia de qualquer grande metrópole dos países em desenvolvimento, não deixaram de consumir imediatamente produtos chineses, apenas por serem estes mais baratos que os similares locais. Esqueceram, ou não notaram que estavam importando manufaturados e exportando empregos. Daí só restou a migração.

    Importante, também, lembrar que a primeira linha de indústrias que ligou o botão da demissão, a dos bens duráveis, foi justamente aquela que mais faturou durante o ciclo virtuoso da primeira maré da economia globalizada. Aqui cabe a pergunta: se engordaram tanto suas receitas, por que ao primeiro sinal de recessão demitem sumariamente?

    Ouvi, recentemente, que na Horizontina dos tempos em que Gisele Bündchen ainda brincava de boneca, quando o mundo entrava em recessão, as famílias Schneider e Logemman empilhavam colheitadeiras pelas ruas da cidade, mas não demitiam. Quando o mercado voltava a comprar, lá estava o produto prontinho para ser enviado. A SLC, agora John Deere, foi a primeira indústria gaúcha a fechar um departamento e demitir 200 funcionários, ainda em 2008, em função do cancelamento de uma encomenda e agora mandou pra rua outros 540. Ao mesmo tempo, sua colega fabricante de carrocerias de Caxias do Sul, a Randon, estipulou com os funcionários um acordo para que não aconteça paralização na produção nem demissões. O ritmo diminui, bem como vencimentos, mas ambos seguem trabalhando até que a demanda ressurja.

    É isso ou guerra. Ou a população mundial entra em acordo, neste momento, ou vai acontecer um ajuste de contas de proporções impensáveis em outros tempos. Afinal vivemos em um planeta globalizado em ações e decisões. Sem falar que além de bombas e mísseis, hoje os atores da guerra contam com aviões e o fator cibernético, capaz de causar danos a qualquer cidadão, ou instituição, onde quer que esteja, não importando o tamanho da segurança contratada.

  • 2. às 07:55 PM em 04 fev 2009, Inácio Pereira escreveu:

    Isso é um efeito cascata, de um problema gerado, criam-se vários outros problemas em decorrência do primeiro. Situação difícil essa nossa atual.

  • 3. às 03:02 AM em 06 fev 2009, Roberson escreveu:

    Certo e no direito,simplês assim.Os trabalhadores precisam tomar atitudes contra esse tipo de ações executadas por empresas desdenhosas,prontas para aniquilar seus empregados que eram antes,sua fonte de renda altíssima e que hoje por serem tratados como "peças caras" podem ser descartadas pelos empresários quando algum acontecimento os prejudica e não os convém.Ora,convenhamos,não são em hipótese alguma os trabalhadores que geram despesas grandiosas,afinal,os salários são pífios,principalmente se referindo ao Brasil,mas sim,os impostos são os grandes vilões das empresas,valores altos em gastos de energia,matéria prima,tecnologia etc.Demitir funcionários é apenas uma desculpa em um período nebuloso que surgiu apenas por especuladores e má administrações em todo mundo.

    Não sejamos tolos a ponto de aceitar tais atitudes de empresas que anteriormente batiam recordes atráz de recordes de faturamentos e hoje descontam nos mais "fracos",a classe trabalhadora que erroneamente,foi a responsável pelos seus faturamentos astronômicos no passado.

    A crise é um fato,mas o mundo deve lutar pelos seus direitos e assumir seus deveres como cidadão.

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