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O mundo emergente

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Rogério Simões | 2008-11-18, 16:58

g20.jpgO primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, gosta de lembrar que a atual crise econômica de proporções gigantescas é uma crise global. Sim, ele está certo. Mas é bom entender o que isso significa. Brown sugere que a crise seja de todos, causada por todos, e por isso precisa do esforço conjunto do mundo todo. Sobre a necessidade de esforço conjunto, ele está corretíssimo, mas a crise não foi causada por todos. É global porque agora atinge todo o globo, mas ela nasceu das falhas do modelo capitalista excessivamente liberal adotado pelo mundo anglo-saxão, ou seja, Estados Unidos e Grã-Bretanha. De qualquer forma, Brown acerta ao defender uma ação global para o problema, e aí entra em jogo o mundo emergente, o mundo novo, que pode vir a salvar o mundo velho.

Na reunião do G20 em Washington, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial líderes das 20 maiores economias do planeta, e não apenas mais das sete, reuniram-se para discutir saídas para um beco no qual poucos conseguem ver alguma. Estavam lá não apenas os Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), mas nações como México, Indonésia, África do Sul e Arábia Saudita, que atenderam ao chamado dos países desenvolvidos. Vários analistas disseram que as nações mais ricas sabem que precisam ajudar as mais pobres a se proteger dos efeitos da crise para que elas possam manter seu nível de crescimento e, com isso, ajudar as nações mais ricas. Mas o interessante é saber o que acontecerá depois. Passada a tormenta, os emergentes certamente vão querer a sua parte, não apenas em dinheiro, mas em poder.

A Primeira Guerra Mundial, lembrada dias atrás, 90 anos depois de seu encerramento, foi responsável por grande parte dos avanços sociais na Europa. Voto feminino, direitos dos trabalhadores, tudo apareceu depois da guerra. Por quê? Simplesmente porque o conflito foi o primeiro da história que envolveu toda a sociedade. A Primeira Guerra, diferentemente das anteriores, não se limitou a campos de batalha, ela envolveu nações inteiras numa ação coletiva fenomenal. Trabalhadores, mulheres, empresários, a população participava diretamente do esforço de guerra. Quando o conflito acabou, eles pensaram "agora queremos a nossa parte", e a luta por direitos, conquistados anos mais tarde, começou.

O mesmo deve acontecer com as nações emergentes. Se China, Brasil, Índia e outros forem decisivos na recuperação econômica mundial, apesar de também sofrerem os efeitos da crise, quando o problema for vencido certamente exigirão seus direitos. Donos de mais da metade do crescimento econômico global, os emergentes deverão ter ainda mais mais voz e mais poder após a atual crise. Como os trabalhadores e as mulheres na Europa dos anos de 1910 e 20, os países em desenvolvimento ganharão em direitos e influência.

Dias atrás, eu vi no cinema um documentário sobre a economia americana, chamado I.O.U.S.A.. Concluído meses atrás, antes da quebra do Lehman Brothers e do conseqüente "crash" de 2008, o filme exibe com uma clareza admirável o problema da dívida pública nos Estados Unidos. Mostra como a dívida disparou no governo de George W. Bush e vinha, nas últimas duas décadas, se espalhando pela sociedade. O filme argumenta que a China, por ter se tornado o grande financiador da dívida americana, pode um dia acabar dominando economicamente os Estados Unidos. Não apenas superando, mas dominando. Um credor estrangeiro batendo na porta de Wall Street e comprando o país. Claro que isso está longe de acontecer, mas não se trata mais de ficção científica, ou econômica. O mundo emergente está aí e não deve submergir tão cedo.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 09:29 PM em 18 nov 2008, paula escreveu:

    Eu espero que o mundo vá ficando cada vez mais democrático. A evolução da humanidade depende das atitudes empregadas em momentos críticos como esse que vivemos e está mais do que comprovado de que ela vem da cooperação de todos os povos do nosso planeta e jamais pela dominação de um ou de outro.

  • 2. às 06:10 AM em 19 nov 2008, Helinaldo escreveu:

    É pertinente a afirmação que os países em desenvolvimento irão reclamar por mais poder e influência nas decisões globais. Vejo o atual G22 (G20 incluindo a Espanha e Holanda) ainda como uma concha de retalhos mal feita com muitos furos, alguns enormes! O embrião de uma transformação para um mundo multipolar. Não temos ideia ao certo de quanto tempo será gasto. Acontecerá indubitavelmente!

  • 3. às 03:19 PM em 19 nov 2008, Alessandro Cavalcante escreveu:

    Os maiores culpados por esta crise foram os EUA e a Europa, cujo modelo capitalista se mostrou volátil a especulação. Enquanto o FMI e o Bird recomendavam receitas para o controle da inflação brasileira e outras medidas a especulação corria solta nos EUA, logo veio a falência de bancos, ironicamente bancos que opinavam sobre a politica economica brasileira. Esse mundo capitalista eu defino melhor como modelo consumista, o consumo total que levará a recursos naturais exauridos e esses efeitos serão sentidos num futuro próximo se algo não for feito.
    Os países em desenvolvimento tem o dever de criticar, buscar soluções e opinar sobre esta crise que de tabela acabou afetando esses mercados. A arrogância do G7 agora se traduz em desespero, se antes as economias em desenvolvimento eram ignoradas agora tenta-se inclui-las no contexto e talvez salvação da economia mundial.
    "Sem envolvimento não há comprometimento" e nexte contexto o mundo deve se comprometer a buscar uma solução plausivel para esta crise economica mundial.

  • 4. às 01:19 PM em 20 nov 2008, virginia escreveu:

    Todo sistema tem seu apogeu e sua queda. Assim como o Comunismo, agora o Capitalismo está em ruinas. Talvez porque tudo que é demais faz mal. Os países ricos exageraram na dose e estão provando seu próprio veneno. A luta pelo poder, a ganância desenfreada dos grandes sobre os pobres estão acabando com o mundo, tudo isso é transformado em lixo, guerras que barbarizam a humanidade e deixam países em ruína. Se agora os emergentes estão com a bola, é hora de tentar mudar a história do mundo, é hora de ditar uma nova forma de pensar e rever os conceitos, em busca da paz, do conforto e da felicidade que é o objetivo de qualquer sistema, seja o Comunismo, o Socialismo ou o Capitalismo. A forma que os EUA ditou até agora, não fez bem para o mundo e nem para eles. Tudo deve ter a medida certa.

  • 5. às 04:00 PM em 20 nov 2008, marcos escreveu:

    A crise financeira traz à humanidade uma oportunidade muito especal de agir de forma cooperativa e "fraterna" buscando a criação de novos paradigmas que orientem a economia de forma mais sustentável, e também de usar a sustentabilidade como orientação para construir novos paradigmas políticos, sociais, ambientais e espirituais. Uma ampla reforma em vários aspectos da realidade planetária é urgente há muito tempo, e agora que a crise chega de forma implacável aos bolsos das pessoas, empresas e nações, existe esta grande oportunidade de tomada de consciência para a possibilidade de grandes mudanças, que precisam da cooperação de todos, inclusive os tais "emergentes" e também os "anônimos".

    A eleição de Obama, movido a "sim, nós podemos", é um belíssimo, inspirador, óbvio e real exemplo de que nós podemos sim, desde que tenhamos a "coragem" de enchergar o quão profundas devem ser as mudanças para criar uma nova realidade onde a cooperação e a sustentabilidade (em todas as esferas e não apenas a econômica) sejam a pauta principal na agenda dos indivíduos, governos, empresas e países.

    Se conseguirmos juntar a verdade do "sim nós podemos" com outra grande verdade que afirma que "somos todos um", talvez possamos criar um novo mundo de forma harmoniosa, sem passar por um processo de ajuste excessivamente traumático. Mas....será que a oportunidade de transformação será aproveitada de forma plena? Ou será os líderes mundiais e formadores de opinião realizarão apenas mudanças superficiais, que apenas permitirão que o velho e insustentável paradigma da exacerbação da individualidade e interesses econômicos perdure mais alguns anos antes que o próximo (e provavelmente mais forte) choque aconteça?

    Muitos processos de aprendizado são assim, vamos "apanhando" da vida até aprender, sendo que a pancada sempre vai se tornando cada vez mais forte. Quanto precisaremos "apanhar" coletivamente antes de acordar?

  • 6. às 04:54 PM em 21 nov 2008, Sidney Odocio escreveu:

    Os fatos apenas mostram uma mudança no cenário mundial, com países deixando a liderança e outros tomando o comando. O que está ocorrendo é uma mudança no perfil econômico e político do mundo, deixando aquela postura dominadora e opressora para valorizar os países negociadores e estratégicos.

    A liderança dos EUA foi alcançada através de um perfil de guerras, conflitos, imposições, e opressões, o que está presente não apenas no pensamento dos seus líderes, mas também na cultura de sua população, ou seja, literalmente o povo norte-americano gosta de guerra. E no caso do Bush, ele só foi desaprovado pela população por não ter alcançado os objetivos, e todas as mentiras e atrocidades relacionadas com as invasões feitas por ele são vistas como justificativas de guerra. Vale ressaltar que a crise dos EUA, ao contrário das justificativas apresentadas, se deve em sua grande parte pelos volumosos investimentos em guerra, os quais ficaram sem retorno, e ocorreram em um momento em que outros países (emergentes) estavam se estruturando comercialmente e construindo parcerias econômicas relativamente sólidas, e assim, ocupando vários setores anteriormente dominados pelos EUA.

    Agora o perfil de negociação mundial está mudando, onde a imposição e opressão bélica estão sendo desvalorizadas como elemento intimidador, tendendo para um perfil mais negociador e voltado para resultados produtivos e tecnológicos. E nesse contexto a evolução natural do mundo está seguindo para um ponto onde todas as diferenças e divergências entre países serão resolvidas através de negociações, conciliando objetivos comerciais e econômicos, mostrando que a fase do capitalismo opressor está acabando. Neste caso, as mesmas considerações impostas para os EUA são válidas para os outros países participantes do G7, que praticamente possuem o mesmo perfil.

    Com relação a entrada nos EUA do novo presidente, isso não representa quase nada, até mesmo porque, na verdade não é ele quem manda, e certamente está sendo usado como figura carismática e de novas perspectivas para sugerir um novo perfil do país, o que na verdade não acontecerá tão fácil assim. Essa é mais uma jogada estratégica e desesperada na busca de gerar ou recuperar interessados em negociar, que antes foram oprimidos ou desprezados, e agora se mostram indiferentes com a dificuldade dos EUA.

    Nesse cenário a China vem despontando como potência, altamente estruturada para produção em diversas áreas e investindo fortemente em pesquisa científica e tecnologia, sem contar com seu porte populacional, compreendendo quase 1/3 da população mundial, somente dentro da China. Observando que, a China já está dominando comercialmente os EUA, que está altamente dependente e com grandes dívidas. Da mesma forma a China está dominando vários setores do mercado mundial, acumulando crescimento recorde ano a ano, além de reservas internacionais na casa de trilhões. Os indicadores estão mostrando que a China possui o perfil de nova potência mundial, e nesse barco estão o Brasil e a Índia.

  • 7. às 02:56 AM em 22 nov 2008, Sidney Odocio escreveu:

    A crise internacional mostra que as diretrizes econômicas, comerciais, e diplomáticas estão mudando, abandonando os métodos de capitalismo dominador, agressivo e aproveitador, baseado nos resultados de guerra. Como um processo natural o mundo está evoluindo, como tudo na vida, da mesma forma que os métodos de conquista dos povos medievais foram aprimorados, mais uma fase de conceitos de liderança está sendo superada, e estão nascendo novos líderes com um novo perfil, o que é confirmado pela crise na Inglaterra, EUA, e agora no Japão.

    As novas potências mundiais apontam com um perfil voltado para o comércio, estruturando um volume estratégico e fundamentado em investimento tecnológico. Paralelamente esse novo perfil de liderança combina também preocupações ambientais e humanitárias, dando foco principalmente as questões diplomáticas, as quais trarão um bom resultado econômico quando bem administradas.

  • 8. às 04:06 PM em 23 nov 2008, Roseli Ribeiro escreveu:

    Sinto falta de uma reportagem que mostre como a grande e influente mídia britânica e americana, como The NYT, The Wall Street Journal, The Times, Financial Times abordavam a crise econômica, antes e depois do desastre total.
    Qual o papel social dessas mídias em alertar os seus leitores da crise econômica? Isso ocorreu? Esses grandes diários minimizavam as consequências dessa crise global?
    O que diziam suas páginas de opiniões? O que dizem agora?

  • 9. às 01:23 PM em 24 nov 2008, Rafael escreveu:

    Não acredito que as ditas "novas potencias" representam uma nova mentalidade diante do mundo, e sim um novo grupo que quer ocupar o lugar do grupo anterior, assim, a China, que já disseram representar o novo perfil de uma potencia mundial, esta carregada de miséria e desigualdade.

  • 10. às 06:59 PM em 09 fev 2009, Roberto Campos escreveu:

    Caro Rogério,
    Embora pouco factível, creio que seria de lavar a nossa alma, nossa digo de todos os países que são vampirizados pelos EUA (econômica, ambiental, financeiramente, dentre outros), se um dos Bric, a saber, a China, "comprasse" os EUA. Mas e dai? Talvez significasse somente ter que aprender mandarim e as coisas ficariam as mesmas. Mas com certeza alimentaria meu hedonismo ao ver os EUA serem chamados de República dos Hamburgueres assim como somos chamados de República das Bananas. Eles bem que precisam de uma dura lição que dure pela eternidade. E uma dieta de baixas calorias não faria mal algum. Como visionário eu vislumbro diminuição de diferenças polarizantes a longo prazo e a instalação de um governo mundial. E para isso, os EUA têm que afundar. Quem viver verá...

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