« Anterior | Principal | Próximo »

O mercado é o Estado?

Categorias dos posts:

Rogério Simões | 2008-10-08, 11:12

markets.jpgO governo britânico acaba de seguir os Estados Unidos e anunciar um pacote de ajuda ao sistema bancário do país. Os números são modestos em comparação aos US$ 700 bilhões aprovados pelo Congresso americano, mas os 50 bilhões de libras (US$ 88 bilhões) a serem gastos pela Grã-Bretanha mostram quão interligados estão Estado e mercado. Como dizem por aqui, esse não é um pacote para salvar os bancos, mas sim uma ação emergencial para salvar a economia. A discussão não é mais sobre manter a estabilidade ou entrar em recessão. As opções agora são uma recessão ou uma depressão.

A Islândia, com seus pouco mais de 300 mil habitantes, é o melhor exemplo de quão trágica a situação pode se tornar. Com uma economia que nos últimos 15 anos deu um salto impressionante, graças ao seu envolvimento com a onda fenomenal de crédito nos mercados no mundo todo, a pequena ilha gelada está à beira do precipício econômico. Avanços que deram aos islandeses uma das melhores qualidades de vida do mundo levaram a uma conta estratosférica que terá de ser paga. Europa e Estados Unidos querem evitar o mesmo destino.

O exemplo islandês reforça a idéia de como o Estado, nas nações que mais abraçaram o capitalismo neo-liberal, tornou-se intimamente conectado com o setor financeiro, com o mercado, com a iniciativa privada. Mas seria isso apenas uma relação de colaboração e interdependência? Ou estaríamos falando de uma verdadeira simbiose? Estaria o mercado hoje se tornando a base do Estado ou o próprio Estado? É o que sugere uma das teses mais discutidas em geo-política internacional nos últimos anos.

O americano Phillip Bobbitt, em sua impressionante obra A Guerra e a Paz na História Moderna (The Shield of Achilles - War, Peace and the Course of History), sugere que o Estado nacional, ou Estado-nação, nascido há cerca de 500 anos, está sendo substituído por uma nova entidade: o Estado-mercado. Basicamente, segundo Bobbitt, o Estado nacional tornou-se incapaz de prover a sociedade com aquilo que ela almeja e por isso está sendo passado para trás. No seu lugar, vem um Estado promotor da competição, do multiculturalismo, desprovido de valores morais rígidos. "No Estado-mercado, o Estado é responsável por maximizar as opções disponíveis aos indivíduos", diz Bobbitt. "No Estado-mercado, o mercado torna-se a arena econômica, substituindo a fábrica. No Estado-mercado, homens e mulheres são consumidores, não produtores." Para o autor, tal meritocracia sem bases morais consolidadas, estimulando uma competição extrema, seria o único modelo capaz de, diante dos avanços tecnológicos e das novas demandas da população, atender às expectativas da sociedade.

Esse seria um processo ainda em andamento. Mas Bobbitt, cujo livro foi publicado em 2002, já dizia: "Os Estados Unidos estão incrivelmente bem posicionados para se tornarem um Estado-mercado". Se tal simbiose já é um fato, nada mais natural que o Estado (seja nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha) faça de tudo para socorrer o mercado (bancos e aqueles que deles dependem). A morte de um levaria à falência do outro.

A tese de Bobbitt é muito mais complexa do que o descrito acima e envolve transformações políticas, culturias e sociais, além das econômicas. Mas pode-se dizer que o Brasil ainda está longe dessa realidade, e é questionável se precisaria abraçá-la algum dia. O presidente Lula, por exemplo, disse recentemente que a era da engenharia havia voltado, depois de décadas de domínio da economia. Ele quis dizer: mais obras de infra-estrutura e menos ciranda financeira. Se Estados Unidos e Grã-Bretanha já são Estados-mercado, eles enfrentam sua primeira crise de extrema gravidade, que testa a resistência desse novo modelo. Ou a resistência de outros modelos que ainda não se adaptaram à suposta nova ordem. Enquanto isso, o presidente do Banco Mundial já defende que o G7 incorpore as grandes economias emergentes, como o Brasil, o que sugere uma democratização do poder econômico inédita na história mundial. O Estado-mercado de Bobbit é um caminho, mas pode não ser o único.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 04:51 PM em 08 out 2008, Alessandro - Sao Paulo escreveu:

    O mercado não é o Estado e o estado não é o mercado, mas ambos dependem um do outro porque existem as questões regulatórias. A economia de hoje (pelo menos no mundo capitalista globalizado) está atrelada ao sistema financeiro. De uma forma ou de outra qualquer reestruturação pelo setor bancário. O papel do Estado é garantir que as partes funcionem, mesmo se tiver de intervir como ocorre hoje nos diversos países. Sem crédito a economia não anda. Espero que esta crise seja sanada o mais rápido possível, não em detrimento dos investidores ou dos ricos (esses pagaram um preço alto pela especulação), mas em detrimento de outras classes e países em desenvolvimento que podem ser afetados por isto.

  • 2. às 09:02 PM em 08 out 2008, Jose Porfiro escreveu:

    "O mercado não é o Estado e o estado não é o mercado, mas ambos dependem um do outro..." Como se fossem separados um do outro! O mercado não surge do nada (indpendente da moda regulação), é criado pelo Estado. O mercado não depende do Estado, nem o Estado depende do mercado.
    A tese do "Estado-mercado de Bobbit" serve mais para ajudar a compreender o relação Estado-mercado que para se pensar algo diferente dos últimos 50 anos. As mudanças que ocorreram não são suficientes para se pensar em algo completamente diferente.
    José Porfiro - https://jporfiro.blog.uol.com.br

  • 3. às 09:16 PM em 08 out 2008, Marcos Liboni escreveu:

    Em realidade os estados deveriam criar mecanismos de contenção aos mandos predatórios e psicopáticos de alguns segmentos do mercado. O abandono da supervisão (não sei se esta seria a melhor palavra) do mercado pelo estado deixou sem dúvida alguma o sistema à dinâmica de relações entre as diferentes forças que não tendem ao equilíbrio, mas ao desequilíbrio pela natureza predatória da maioria. Falo em desequilíbro porque com a força do poder da inevitável propensão do ser humano em fantasiar um estado de ser que não é necessariamente o seu, aliada à possibilidade da realização dos desejos, ensejados no poder de compra das pessoas (aí entra o endividamento) as fez reféns das suas postuladas nessidades. Advogar pos um sistema sem bases morais sólidas é adiquirir um "fast-track" para a piora das tensões nas relações entre mercados, governo e mercado e entre as pessoas, porque a natureza humana não se desenvolveu da forma, velocidade e profundidade necessárias a fazer um bom uso das possibilidades das tecnologias e dos mercados. Apelar por uma ampliação do mercado pode tornar tudo mais autofágico. Interessante é ver que não parece estar se discutindo a relação das pessoas e governos com o modo de consumo, mas sim "salvar o sistema" reestabelecendo a possibilidade das pessoas ficarem mais escravas das suas fantasias (objetadas no consumo).

  • 4. às 03:35 AM em 09 out 2008, Alecsandro Araujo de Souza escreveu:

    O Estado é parte integrante do mercado.

    Se aceitássemos tal fato, o Estado procuraria maximizar as suas ações e, com certeza, interferiria no mercado(nesse espaço)a fim de proteger as suas posições e ser o mais eficiente possível na alocação de seus recursos.

    Isso é o que fazemos em nosso dia-a-dia. Procuramos aumentar a receita, reduzir as despesas, gerar mais lucro, poupar as sobras e investir para melhorar o nosso bem-estare reduzir os nossos riscos. Seja como empresários ou como funcionários, coexitimos num mesmo espaço de trocas ou mercado.

    Dizer que o Estado é o mercado é retirar ou ignorar que o mesmo é formado por pessoas (com visões de mundo) que intervem e tomam decisões a fim de mudar uma situação indesejada por outra que satisfaça as necessidades das pessoas envolvidas. Mesmo que reduzimos a sua atividade de tal Estado em apenas regular. Isso é, ainda, tomar parte. Agir sobre um meio.

    Num momento de tensão como esse, vale uma antiga lição dos mercadores judeus na antiguidade. Quando for investir. Calule quanto irá precisar e adote a regra do 1/3, ou seja, invista 1/3 do valor que dispõem no negócio. Se der errado, você terá mais 1/3 para recomeçar. Se ainda der errado, você, ainda terá 1/3 para recomeçar a vida.

    No meu entendimento, os agentes que atuam nesses mercados financeiros, esqueçeram dessa regra básica do mundo dos negócios da dita economia real.

    Se o Estado tem alguma "responsabilidade" nisso (e acredito que tenha), foi o de não reduzir os riscos em administrar os recursos que alocamos no Estado e, do qual esperamos retornos futuros.

    Portanto, a discussão sobre se o Estado é o mercado ou nação fica sem sentido ou necessidade. Ambas estruturas, irão se encontrar nesse espaço de compra/venda chamado mercado para denfender os seus interesses. Somos parte e não o todo. O todo (mercado) engloba todos nós. Ele é o nosso meio ambiente. ele é aonde vivemos.

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.