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Nacionalismo olímpico

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Rogério Simões | 2008-08-08, 11:53

olimpiada.jpgCompetições esportivas entre países são momentos em que boa parte da lógica, do racionalismo e da objetividade da vida moderna dão lugar a um sentimento que já foi ideologia e movimento político: o nacionalismo.

Entre as toneladas de artigos publicados na imprensa internacional sobre os Jogos Olímpicos de Pequim, abertos nesta sexta-feira com uma cerimônia de encher os olhos, a preocupação no Ocidente com o recente avanço do nacionalismo chinês é clara. A revista The Economist, por exemplo, em reportagem na semana passada, disse que o regime comunista chinês está fortalecendo tanto o amor à pátria com a Olimpíada que há o risco de no futuro o país passar a enxergar inimigos em potencial no exterior.

O risco do uso do esporte para fins políticos, aliado à força do nacionalismo, ocorreu em vários momentos da história. Em 1980, a então União Soviética vendeu ao mundo a bela imagem de um ursinho choroso numa Olimpíada atingida pelo boicote dos Estados Unidos, que tiveram de amargar o boicote soviético aos seus Jogos quatro anos depois. Em 1978, a Argentina organizou uma Copa do Mundo que era vista pelo regime militar local como uma maneira de se fortalecer e esconder as denúncias de torturas e assassinatos.

Nos anos 90, quando começou a se falar em globalização, muitos achavam que o nacionalismo estava perdendo sentido. As identidades nacionais estariam se esvaziando em um mundo em que a internet, a TV a cabo e o transporte acessível aproximava povos e derrubava fronteiras. Mas aparentemente era uma morte declarada de forma prematura. Alguns estudiosos, como Anthony Smith, da London School of Economics, que escreveu vários livros sobre o tema, consideram o nacionalismo ainda muito vivo, e a Olimpíada é um momento único para medir sua força.

Muito se fala agora do impacto da Olimpíada de Pequim sobre a situação interna na China, com o governo aparentemente aumentando o controle sobre a segurança e a informação. Mas o nacionalismo associado às competições esportivas pode dar um novo elemento às relações externas de Pequim. A China está provando ter se tornado uma superpotência e, se terminar os Jogos à frente dos Estados Unidos no quadro de medalha, terá realizado uma união perfeita entre paixão nacional e potencial esportivo que encherá os chineses de orgulho.

A paixão nacional expressa por meio do esporte aparece em todo lugar e aqui na Grã-Bretanha consegue um verdadeiro milagre. A cada quatro anos, nos Jogos Olímpicos, os britânicos torcem por uma mesma equipe, a Grã-Bretanha, o que não acontece na Copa do Mundo. Nesse casos, Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte competem separadamente, o que certamente enfraquece a identidade nacional britânica.

Mas em 2012, com a Olimpíada sendo realizada em Londres, os britânicos querem que o seu nacionalismo esteja no máximo do seu potencial e por isso sonham em ter, disputando também a medalha de ouro do futebol, um time britânico. Mas os escoceses já jogaram água na cerveja quente dos ingleses: a Federação de Futebol da Escócia reafirmou dias atrás que nunca participará de uma selação única com os seus vizinhos do sul. Se mantiver a posição será uma ducha de água fria na identidade britânica, mas uma injeção de força no nacionalismo escocês.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 02:40 AM em 10 ago 2008, Wilson de Oliveira Neto escreveu:

    Não é de hoje que o esporte serve como projeção de poder no cenário internacional e como um meio de fortalecer a coesão de ideologias e regimes políticos. Além dos exemplos citados no texto, há também os casos dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, vencido pela Alemanha nacional-socialista, e o uso do Futebol pelo regime fascista italiano, como um elemento de identidade nacional.

  • 2. às 04:38 PM em 10 ago 2008, Alessandro Cavalcante escreveu:

    Rogério,
    Achei muito interessante a sua matéria e aproveito aqui para dizer que como todos nós sabemos a Russia entrou em guerra com a Geórgia e muitas pessoas estão sofrendo neste momento. A Russia (acredito eu) aproveitou-se dos jogos olimpicos de tabela e mandou suas tropas ao vizinho. Não sei realmente se tem haver mas fica aqui registrado, uma estranha coincidência.
    Sobre o nacionalismo chinês cedo ou tarde irá acontecer, eles já são uma potência militar e já eram a anos atras. Não vejo que os chineses irão enxergar inimigos onde não existam.
    Este papel serve aos EUA que atacou o Iraque sem provas, aliás não só aos EUA como Grã-Bretanha e outros países aliados também.
    O nacionalismo exarcebado surge quando um país manda suas tropas para a guerra, é só ver o caso dos EUA. É um povo ultra-nacionalista e vez ou outra estão metidos numa encrenca.
    Gostaria que essas olimpiadas servissem de paz para o mundo mas na era moderna nada bastará para conter lideres cruéis.
    Que a China seja nacionalista, coisa que ainda não temos no Brasil, e será que um dia teremos? Salvo suas exceções.
    A China deve ser o novo contrapeso no mundo.
    Abraços.

  • 3. às 11:45 PM em 11 ago 2008, Pedro Souza escreveu:

    Esse nacionalismo é semelhante aquele em que os policiais ingleses que mataram o brasileiro Jean Charles foram absolvidos pela justiça inglesa??
    Ou o mesmo que os ingleses que queriam bombardear o Rio na questão Christie?
    Ou ainda o mesmo nacionalismo que faz a Inglaterra manter seu domínio junto as ilhas Malvinas (colada na costa argentina)?
    Pois é, o que é bom para a terra de vossa alteza, não serve para os demais.
    Os chineses estão certos. Tem que amar o próprio pais, suas tradições e sua política. Assim como nós brasileiros devemos fazer o mesmo.
    Começo a repudiar qualquer matéria que tenha a ousadia de mudar a forma de pensar das pessoas.
    att

    Pedro Souza

  • 4. às 10:21 AM em 13 ago 2008, renata schneider escreveu:

    Concordo com o Alessandro e o Pedro. O ocidente gosta de colocar o oriente como o bicho papao. A China sofreu abusos, estrupos de varios paises "civilizados", e agora que a unidade nacional estah mais forte do que nunca vem com essa conversa de "medo" da China. O que o povo dos Estados Unidos fez quando Bush decidiu invadir o Iraque? Bateram palmas, pois eles se acham acima de tudo, superiores, donos da verdade e do destino. Este nacionalismo americano sim, eh perigoso. A China reencontrou sua identidade, roubada por anos de invasao. Sem falar na Gra Bretanha, que ainda estampa sua bandeira em muitas outras de outros paises.

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