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Futebol na Guiné-Bissau só por amor à camisola
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Com eleições presidenciais antecipadas perto do seu desfecho, na Guiné-Bissau os olhos estão todos virados para o palco político.
Mas se em condições normais política e futebol não se misturam, até aqui na Guiné-Bissau o que se passa fora das quatro linhas
se reflecte no que se passa dentro delas.
Com a campanha a decorrer na Guiné-Bissau o final do campeonato nacional de futebol acabou por ser interrompido, situação recorrente num país conturbado, mas que se quer diferente. Como é que é então fazer desporto, e dele fazer uma vida, na Guiné-Bissau? 'Jogar por jogar' Na Guiné-Bissau todos gostam de futebol. Mas como é que é ser futebolista? Em Mansoa jogou-se uma partida decisiva para o campeonato, com os da casa - os Balantas de Mansoa - a defender o título de campeões nacionais.
Em jeito de brincadeira, Papa Pinto Sambú lateral e médio direito dos Balantas de Mansoa, actuais campeões nacionais, diz que "os adeptos são muitos e criticam muito". Mas de forma mais séria, o jovem atleta diz que "ser um futebolista na Guiné é muito difícil porque não há nada para ganhar", diz. O jogador acrescenta que "é jogar só por jogar e esperar uma oportunidade para se transferir para um futebol profissional fora da Guiné". "O que nós temos que fazer é jogar muito bem aqui e mais nada. Esperar por um empresário que goste do meu futebol". Mas a falta de saída profissional não se deve à escassez de talentos, explica: "aqui não há escola de futebol. As pessoas nasecem com uma capacidade nata. Os miúdos aqui andam a jogar nas tabancas sem ter um professor de futebol". Dom natural Para o Major Baldé, presidente do Balantas de Mansoa "ao jogar num país de terceiro mundo, com carências enormes é difícil chegar às metas traçadas". Para ele o futebol na Guiné é uma "curiosidade".
"O clube não tem fundos, nem sócios". Se não fossem os dirigentes, acrescenta, seria impossível trabalhar. "Aqui não há nada a fazer - apenas a escola e futebol - e mais nada", diz o Major. Mas insiste, "toda a gente gosta de futebol" e talentos não faltam, diz. Falta de direcção O que é que está então a impedir o desenvolvimento do desporto e do futebol em particular na Guiné? Na opinião de Beto, uma das lendas do futebol guineense, e hoje dirigente nos Balantas de Mansoa, nos tempos em que ele jogava "havia mais seriedade, mais responsabilidade e os clubes também era mais organizados". Agora, muito sinceramente, o futebol na Guiné está carenciado porque não há dirigentes desportivos. O que nos está á faltar verdadeiramente é dirigismo", vaticinou aquele que foi o primeiro campeão nacional da Guiné. Beto exemplificou dizendo que na luta pelo título nacional, o seu clube, "a três ou quatro pontos de ser campeão nota-se que não há público!"
Para o antigo jogador, a razão pela qual os adeptos do futebol guineense, apesar de torcerem por uma equipa seguirem mais o futebol que se joga fora do país, "está relacionado com a fraqueza do futebol na Guiné-Bissau". Segundo Beto a Guiné tem "muitos" outros talentos como o guineense Yannick Djaló, hoje estrela do Sporting de Portugal, só que na Guiné, diz, estes talentos "não têm acompanhamento". Ainda assim, explica, já há "empresários franceses, portugueses e africanos estão a virar o rosto para a Guiné, porque realmente a Guiné é uma potencialidade." "Ninguém ensina ninguém aqui a jogar futebol. Vemos os miúdos nas ruas, de pé descalço, a fazer maravilhas com a bola. Não é ensinado. Aquilo não é ensinado, aquilo é dom!", diz Beto. Valores desperdiçados
Carlos Teixeira, ou Caíto, antigo futebolista, passou pelo futebol português, da Suiça e hoje, empresário dedica-se à sua paixão de sempre como director desportivo dos Balantas de Mansoa. "Temos jogadores com muita qualidade. O calcanhar de Aquiles do futebol da Guiné-Bissau é a organização. Em termos estruturais deixa muito, muito mesmo a desejar", diz. Mas se quase tudo falta, pouco é também preciso para dar uma reviravolta diz Carlos Teixeira. E dá um exemplo: Quando a Federação de Futebol, durante o campeonato, de um momento para o outro, se lembra de parar o campeonato sem avisar ninguém... - ele pára e arranca quando (a Federação) bem entender! - estamos mesmo na estaca zero".
"A instabilidade contribuíu muito também para o enfraquecimento do nosso desporto", explicou. Carlos Teixeira tem ainda algo a lamentar e diz ficar até "arrepiado" ao ver "os valores que se vão desperdiçando pela Guiné fora". "Eu até me atrevo a dizer que há muito melhor do que o Cristiano Ronaldo. Temos o nosso irmão, Portugal, que está aqui a três, quatro horas de distância, e caso tivessemos uma estrutura montada uma organização forte e uma base sólida, facilmente esses jogadores poderiam chegar ao mais alto nível", afirma. Apesar dos obstáculos, o dirigente está optimista: "penso que isto há-de mudar!". Liderar pelo exemplo Carlos Teixeira diz que no que lhes cabe, o Balantas de Mansoa quer liderar dando o exemplo... "Queremos organizar, queremos ser o exemplo", e explica dizendo que de forma "inédita" no futebol do país, o seu clube implantou este ano um esquema segundo o qual "todos os jogadores têm um alojamento e alimentação pagos pelo clube, têm prémios de jogo, ordenado ao fim do mês e um contrato registado".
Isto, diz "é para tentar demonstrar como é que o futebol é organizado, porque talvez muita gente não perceba o porquê de estarmos em primeiro lugar!", adianta o director desportivo. Apesar de uma derrota em casa frente ao Sporting de Bissau na penúltima jornada, os Balantas de Mansoa acabaram mesmo por revalidar o título, mas a incógnita sobre o futuro do futebol e do desporto permanece. Promessas No Ministério da Juventude e Desportos, o novo director geral dos Desportos, Fidelis Forbs reconhece que há problemas mas promete que o executivo está a preparar a mudança. "No nosso sistema desportivo, estamos um pouco desorganizados", admitiu o responsável. "Mas a DGD está empenhada em implementar uma nova reforma no sector desportivo num grande projecto que nós temos e que denominamos de Estados Gerais do Desporto", disse Forbs.
Neste fórum, diz Fidelis Forbs, "iremos debruçar-nos sobre todos os problemas no desporto nacional. Nós entendemos que não é possível desenvolver o desporto sem a legislação desportiva". Segundo o responsável pelos desportos da Guiné está a ser desenvolvida uma Lei de Bases do Sistema Desportivo e uam Lei do Mecenato para atraír mais investimento para o desporto. "Estes instrumentos jurídicos são muito importantes para o desenvolvimento do sector desportivo", afirma. Mas será que o sonho da alta competição vai continuar a fugir aos guineenses? Fidelis Forbs explica que para que a Guiné-Bissau possa fazer parte dos rankings mundiais, seja qual for a modalidade, é preciso que o país "tome parte das actividades das federações internacionais onde as federações nacionais estão afiliadas".
A aposta da DGD, segundo aquele governante, vai ser nas pequenas categorias - como academias e escolas - ao mesmo tempo que vão ser seleccionadas certas modalidades "como prioridade" nas competições internacionais. Fidelis Forbs diz que vai ser estabelecida uma meta de médio-longo prazo, e que num ciclo de 12 anos - equivalente a três ciclos olímpicos - se "possa representar o país condignamente". "Precisamos de organização e projectos credíveis", sumariza Forbs. Em Mansoa, o director desportivo dos Balantas, Carlos Teixeira permanece cauteloso depois das muitas promessas do passado. Para ele é preciso esperar para ver. No seu entender "a gente do desporto - dirigentes, ministros, directores-gerais, jogadores e adeptos - todos têm um papel determinante para ajudar à estabilidade" da Guiné-Bissau. Pelo menos nas tabancas e nas ruas de Bissau a bola de futebol vai, com toda a certeza, continuar a rolar. |
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