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Última actualização: 27 Julho, 2009 - Publicado às 20:01 GMT
 
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Futebol na Guiné-Bissau só por amor à camisola
 

 
 
Crianças aproveitam intervalo de jogo em Mansoa para tocar na bola

Com eleições presidenciais antecipadas perto do seu desfecho, na Guiné-Bissau os olhos estão todos virados para o palco político. Mas se em condições normais política e futebol não se misturam, até aqui na Guiné-Bissau o que se passa fora das quatro linhas se reflecte no que se passa dentro delas.

Com a campanha a decorrer na Guiné-Bissau o final do campeonato nacional de futebol acabou por ser interrompido, situação recorrente num país conturbado, mas que se quer diferente.

Como é que é então fazer desporto, e dele fazer uma vida, na Guiné-Bissau?

'Jogar por jogar'

Na Guiné-Bissau todos gostam de futebol. Mas como é que é ser futebolista?

Em Mansoa jogou-se uma partida decisiva para o campeonato, com os da casa - os Balantas de Mansoa - a defender o título de campeões nacionais.

Balantas de Mansoa recebem instruções
Todos sonham com o futebol profissional mas só alguns têm essa sorte

Em jeito de brincadeira, Papa Pinto Sambú lateral e médio direito dos Balantas de Mansoa, actuais campeões nacionais, diz que "os adeptos são muitos e criticam muito".

Mas de forma mais séria, o jovem atleta diz que "ser um futebolista na Guiné é muito difícil porque não há nada para ganhar", diz.

O jogador acrescenta que "é jogar só por jogar e esperar uma oportunidade para se transferir para um futebol profissional fora da Guiné".

"O que nós temos que fazer é jogar muito bem aqui e mais nada. Esperar por um empresário que goste do meu futebol".

Mas a falta de saída profissional não se deve à escassez de talentos, explica: "aqui não há escola de futebol. As pessoas nasecem com uma capacidade nata. Os miúdos aqui andam a jogar nas tabancas sem ter um professor de futebol".

Dom natural

Para o Major Baldé, presidente do Balantas de Mansoa "ao jogar num país de terceiro mundo, com carências enormes é difícil chegar às metas traçadas". Para ele o futebol na Guiné é uma "curiosidade".

Balantas de Mansoa em aquecimento
Empresários estrangeiros começam a virar o rosto para o futebol da Guiné

"O clube não tem fundos, nem sócios". Se não fossem os dirigentes, acrescenta, seria impossível trabalhar.

"Aqui não há nada a fazer - apenas a escola e futebol - e mais nada", diz o Major. Mas insiste, "toda a gente gosta de futebol" e talentos não faltam, diz.

Falta de direcção

O que é que está então a impedir o desenvolvimento do desporto e do futebol em particular na Guiné?

Na opinião de Beto, uma das lendas do futebol guineense, e hoje dirigente nos Balantas de Mansoa, nos tempos em que ele jogava "havia mais seriedade, mais responsabilidade e os clubes também era mais organizados".

Agora, muito sinceramente, o futebol na Guiné está carenciado porque não há dirigentes desportivos. O que nos está á faltar verdadeiramente é dirigismo", vaticinou aquele que foi o primeiro campeão nacional da Guiné.

Beto exemplificou dizendo que na luta pelo título nacional, o seu clube, "a três ou quatro pontos de ser campeão nota-se que não há público!"

Plantel dos Balantas de Mansoa
Falta de organização e problemas estruturais apontados como barreiras ao futebol na Guiné

Para o antigo jogador, a razão pela qual os adeptos do futebol guineense, apesar de torcerem por uma equipa seguirem mais o futebol que se joga fora do país, "está relacionado com a fraqueza do futebol na Guiné-Bissau".

Segundo Beto a Guiné tem "muitos" outros talentos como o guineense Yannick Djaló, hoje estrela do Sporting de Portugal, só que na Guiné, diz, estes talentos "não têm acompanhamento".

Ainda assim, explica, já há "empresários franceses, portugueses e africanos estão a virar o rosto para a Guiné, porque realmente a Guiné é uma potencialidade."

"Ninguém ensina ninguém aqui a jogar futebol. Vemos os miúdos nas ruas, de pé descalço, a fazer maravilhas com a bola. Não é ensinado. Aquilo não é ensinado, aquilo é dom!", diz Beto.

Valores desperdiçados

Balantas de Mansoa vs Sporting de Bissau
Há muito que os Balantas de Mansoa aguardam por um campo relvado

Carlos Teixeira, ou Caíto, antigo futebolista, passou pelo futebol português, da Suiça e hoje, empresário dedica-se à sua paixão de sempre como director desportivo dos Balantas de Mansoa.

"Temos jogadores com muita qualidade. O calcanhar de Aquiles do futebol da Guiné-Bissau é a organização. Em termos estruturais deixa muito, muito mesmo a desejar", diz.

Mas se quase tudo falta, pouco é também preciso para dar uma reviravolta diz Carlos Teixeira. E dá um exemplo:

Quando a Federação de Futebol, durante o campeonato, de um momento para o outro, se lembra de parar o campeonato sem avisar ninguém... - ele pára e arranca quando (a Federação) bem entender! - estamos mesmo na estaca zero".

Os porquês do 1º lugar
Carlos Teixeira
 Todos os jogadores do Balantas de Mansoa têm um alojamento e alimentação pagos pelo clube, têm prémios de jogo, ordenado ao fim do mês e um contrato registado.
 
Carlos Teixeira, director desportivo dos Balantas de Mansoa

"A instabilidade contribuíu muito também para o enfraquecimento do nosso desporto", explicou.

Carlos Teixeira tem ainda algo a lamentar e diz ficar até "arrepiado" ao ver "os valores que se vão desperdiçando pela Guiné fora".

"Eu até me atrevo a dizer que há muito melhor do que o Cristiano Ronaldo. Temos o nosso irmão, Portugal, que está aqui a três, quatro horas de distância, e caso tivessemos uma estrutura montada uma organização forte e uma base sólida, facilmente esses jogadores poderiam chegar ao mais alto nível", afirma.

Apesar dos obstáculos, o dirigente está optimista: "penso que isto há-de mudar!".

Liderar pelo exemplo

Carlos Teixeira diz que no que lhes cabe, o Balantas de Mansoa quer liderar dando o exemplo...

"Queremos organizar, queremos ser o exemplo", e explica dizendo que de forma "inédita" no futebol do país, o seu clube implantou este ano um esquema segundo o qual "todos os jogadores têm um alojamento e alimentação pagos pelo clube, têm prémios de jogo, ordenado ao fim do mês e um contrato registado".

Assistente da partida Balantas de Mansoa vs Sporting de Bissau
Governo dá como prioridades a organização e nova legislação

Isto, diz "é para tentar demonstrar como é que o futebol é organizado, porque talvez muita gente não perceba o porquê de estarmos em primeiro lugar!", adianta o director desportivo.

Apesar de uma derrota em casa frente ao Sporting de Bissau na penúltima jornada, os Balantas de Mansoa acabaram mesmo por revalidar o título, mas a incógnita sobre o futuro do futebol e do desporto permanece.

Promessas

No Ministério da Juventude e Desportos, o novo director geral dos Desportos, Fidelis Forbs reconhece que há problemas mas promete que o executivo está a preparar a mudança.

"No nosso sistema desportivo, estamos um pouco desorganizados", admitiu o responsável. "Mas a DGD está empenhada em implementar uma nova reforma no sector desportivo num grande projecto que nós temos e que denominamos de Estados Gerais do Desporto", disse Forbs.

Legislação e organização
Fidelis Forbs
 Iremos debruçar-nos sobre todos os problemas no desporto nacional. Nós entendemos que não é possível desenvolver o desporto sem a legislação desportiva.
 
Fidelis Forbs, Director Geral dos Desportos da Guiné-Bissau

Neste fórum, diz Fidelis Forbs, "iremos debruçar-nos sobre todos os problemas no desporto nacional. Nós entendemos que não é possível desenvolver o desporto sem a legislação desportiva".

Segundo o responsável pelos desportos da Guiné está a ser desenvolvida uma Lei de Bases do Sistema Desportivo e uam Lei do Mecenato para atraír mais investimento para o desporto.

"Estes instrumentos jurídicos são muito importantes para o desenvolvimento do sector desportivo", afirma.

Mas será que o sonho da alta competição vai continuar a fugir aos guineenses?

Fidelis Forbs explica que para que a Guiné-Bissau possa fazer parte dos rankings mundiais, seja qual for a modalidade, é preciso que o país "tome parte das actividades das federações internacionais onde as federações nacionais estão afiliadas".

Público no estádio do Balantas de Mansoa
Clubes vivem sem quotas e às vezes sem público

A aposta da DGD, segundo aquele governante, vai ser nas pequenas categorias - como academias e escolas - ao mesmo tempo que vão ser seleccionadas certas modalidades "como prioridade" nas competições internacionais.

Fidelis Forbs diz que vai ser estabelecida uma meta de médio-longo prazo, e que num ciclo de 12 anos - equivalente a três ciclos olímpicos - se "possa representar o país condignamente".

"Precisamos de organização e projectos credíveis", sumariza Forbs.

Em Mansoa, o director desportivo dos Balantas, Carlos Teixeira permanece cauteloso depois das muitas promessas do passado. Para ele é preciso esperar para ver.

No seu entender "a gente do desporto - dirigentes, ministros, directores-gerais, jogadores e adeptos - todos têm um papel determinante para ajudar à estabilidade" da Guiné-Bissau.

Pelo menos nas tabancas e nas ruas de Bissau a bola de futebol vai, com toda a certeza, continuar a rolar.

 
 
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