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18 Maio, 2009 - Publicado às 18:38 GMT

José Vicente Lopes
BBC, no Tarrafal

Preservar memória do Tarrafal e outros tarrafais

Aberto em 1936 e encerrado em 1974, o antigo campo de concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, vai ser transformado num museu e centro internacional de investigação sobre a história do fascismo e do colonialismo em África.

Esta é a principal conclusão do simpósio internacional que teve lugar nas instalações desse antigo presídio, de 28 de Abril a 1 de Maio. Um evento para assinalar os 35 anos em que o Tarrafal abriu as suas portas para deixar passar para a liberdade os então presos políticos de Angola e Cabo Verde – os da Guiné tinham sido transferidos para o seu país desde 1969 e os portugueses deixaram o campo em 1954.

Por aquilo que representa, para o primeiro-ministro caboverdiano, José Maria Neves, o campo de concentração do Tarrafal é um símbolo: “Este campo é património de toda uma humanidade em luta contra o fascismo e todas as formas de totalitarismo”.

Nos seus cerca de 30 anos em que funcionou como prisão, o Tarrafal recebeu mais de 300 portugueses, mais de 200 africanos - angolanos, guineenses e cabo-verdianos.

Devido às péssimas condições de acolhimento, ao todo morreram no Tarrafal 33 portugueses, dois guineenses e um angolano. Por causa disso, durante o simpósio internacional, houve um momento de romaria, em homenagem a estas vítimas do Tarrafal.

Os outros Tarrafais

Mas o Tarrafal não é a única prisão política que Portugal construiu em África. E as outras prisões, nomeadamente, as de Angola, Moçambique e da Guiné-Bissau? O que é feito delas?

Só em Angola, por exemplo, são várias as prisões do género, sendo as mais famosas a cadeia de S.Paulo e a Casa de Reclusão, em Luanda, o campo de S.Nicolau, no Cunene, e Missondo, no Bié, só para falar em algumas.

Em Moçambique houve a prisão de Machava. E na Guiné a prisão da ilha das Galinhas, eternizada por José Carlos Schwartz na canção “Djiu di Galinha”.

Para a historiadora portuguesa Irene Pimentel, Tarrafal e os outros campos faziam parte de uma mesma estrutura repressiva, que visava travar os anseios de liberdade e independência dos povos africanos dominados por Portugal.

“O Tarrafal é um dos campos de concentração do regime [salazarista] teve duas fases: uma, portuguesa, em que serviu para encarcerar comunistas, anarquistas e revivalistas; e uma segunda em que funcionou como um campo colonial, para encarcerar nacionalistas de Angola, Guiné e Cabo Verde, aliás, a par de outros campos – Machava (Moçambique), S.Nicolau (Angola) e ilha das Galinhas (Guiné)”.

Preservar memória

O investigador Carlos Cardoso, da Guiné-Bissau, espera que o governo do seu país siga o exemplo de Cabo Verde “mas também de outras paragens” e venha “a transformar a prisão da ilha das Galinhas num monumento histórico e de preservação da nossa memória”.

No simpósio do Tarrafal a BBC conseguiu agrupar numa mesma conversa gente que esteve nessa prisão em Cabo Verde e em S.Nicolau, Angola, nomeadamente, o caboverdiano José Eduardo Tavares e o angolano Jaime Cohen.

“Estive em S.Nicolau I, em S.Nicolau II e S.Nicolau III, e no Cerco também”, recorda Tavares.

“No cerco toda gente passou por lá”, corrige Jaime Cohen.

“Estive no transporte de sal, nas salinas, era um trabalho duro”, diz de novo Tavares. “Eu era recruta”, diz Cohen.

Em S.Nicolau, segundo estas e outras testemunhas, estiveram ao mesmo tempo mais de quatro mil pessoas.

As condições de acolhimento eram péssimas, o sol escaldante, uma autêntica descida aos infernos. Morria-se e o corpo era simplesmente atirado para uma vala.

Presente também no simpósio do Tarrafal, a ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva, revelou à BBC que um vasto trabalho está a ser realizado no seu país em prol da memória anticolonial e que passa pela recuperação das antigas prisões políticas dessa antiga colónia portuguesa.

“Neste momento está a ser reabilitada a cadeia da Casa da Reclusão, em Luanda, que é a antecâmara do Tarrafal – os presos angolanos estiveram lá antes de serem mandados para Cabo Verde. O edifício está em muito mau estado de conservação, mas felizmente está agora em recuperação, para fins culturais – uma homenagem merecida a esses patriotas”.

Cruz e Silva acrescenta que existem também projectos do seu governo em relação às outras antigas prisões políticas, nomeadamente, as de S.Nicolau e do Missombo . “Passo a passo, nós vamos fazer esse trabalho de preservação da memória”.

A par deste trabalho patrimonial, e à semelhança do que está a ser feito por Cabo Verde, o Arquivo Histórico de Angola procedeu já à recolha de depoimentos de antigos presos para a sua publicação em livro.

“Esse livro vai chamar-se ‘Ecos da Clandestinidade em Angola’. O projecto tem vários volumes e acreditamos que o primeiro volume sairá ainda este ano”, revela a ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva.