20 Abril, 2009 - Publicado em 01:53 GMT
Aires Walter dos Santos
Enviado especial da BBC, em Joanesburgo
Entre as celebrações da vitória decisiva do ANC nas eleições do passado dia 22, há alguma inquietação entre os milhões de imigrantes, principalmente africanos mas não só, que escolheram a África do Sul como segunda pátria.
“A vida neste momento aqui na África do Sul não é fácil,” disse-me uma imigrante moçambicana, que trabalha, com duas compatriotas suas, no restaurante São Vicente.
O dono do restaurante é um imigrante português, que vive em Rosentenville, na parte sul de Joanesburgo. É em Rosentenville onde se concentra grande parte dos negócios dos imigrantes portugueses na capital económica da África do Sul.
Há bares, restaurantes, lojas, estúdios fotográficos, clubes desportivos, serralharias e oficinas.
Os empregados são maioritariamente moçambicanos, mas também angolanos e uns poucos sul-africanos.
A criminalidade, o trabalho precário, a xenofobia e o dinheiro poupado para mandar para a família são algumas das suas maiores preocupações.
A violência registada em 2008 contra os imigrantes assusta-os e força-os a tentar passar despercebidos.
“Quando houve a xenofobia, entre as pessoas mortas havia muitos moçambicanos. Mas como não há emprego na nossa terra [Moçambique], somos pobres, estamos aqui a trabalhar. Mas não somos bem recebidos,” retorquiu outra empregada de mesa.
“Estamos a trabalhar e a preparar as malas. Quando acabar o Mundial de 2010 vamos regressar a Moçambique, porque senão volta a acontecer o que aconteceu,” acrescentou.
“Aqui já não estamos seguros. Temos medo porque não sabemos o que vai acontecer depois de 2010. Agora [os sul-africanos] estão calmos porque querem o dinheiro do Mundial. Mas quando o Mundial acabar...” disse, receosa, a terceira empregada.
Má imagem dos angolanos
Mas, se os moçambicanos são geralmente populares por serem trabalhadores árduos, os angolanos são conhecidos pelo oposto.
Jorge Dias, o proprietário da “Mossango”, uma pequena empresa de importação e exportação, chegou a Joanesburgo um ano depois das primeiras eleições multiraciais, realizadas há 15 anos.
Disse-me que deixou Luanda porque havia poucas oportunidades e também para fugir do serviço militar obrigatório – numa altura em que a guerra civil angolana conheceu uma dramática intensificação.
“Vim de férias e acabei por ir ficando,” disse.
Jorge Dias diz que os seus compatriotas que imigram para a África do Sul transmitem “uma imagem péssima de Angola e dos angolanos".
“A maior parte do pessoal angolano que está cá não trabalha. Vive de ‘negócios’. É um pessoal muito vaidoso; não aceita fazer certos trabalhos. Não é como a malta moçambicana e cabo-verdiana. A maior parte do pessoal do meu tempo já regressou a Angola.”
Receio dos efeitos da recessão
Entre os imigrantes portugueses há muita inquietação com as eleições de quarta-feira.
Octávio da Silva estabeleceu-se no bairro de Rosentenville com a família há 33 anos, vindo directamente da ilha da Madeira.
Ele diz que a vida para os imigrantes portugueses não é fácil:
“Temos alguns problemas por causa da criminalidade na África do Sul e achamos que, depois das eleições, as coisas vão ficar piores porque, apesar de não estarmos ainda a sentir os efeitos da recessão, vamos senti-los muito. E com a criminalidade vai haver muita falta de trabalho neste país.”
Há muitas expectativas entre os imigrantes na África do Sul mas mais ainda entre os 48 milhões de sul-africanos - 23 milhões dos quais registados para as eleições de quarta-feira.
Contudo, há entre estes também um grande optimismo e a crença de que a nova África do Sul, agora com apenas 15 anos, aprenderá com os erros do passado para atingir a maioridade de forma exemplar.