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Última actualização: 26 Outubro, 2007 - Publicado em 12:59 GMT
 
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Porque morrem as mulheres no parto?
 

 
 
mãe e filho
Dar à luz pode ser fatal para as mulheres em muitos países do mundo
Cerca de meio milhão de mulheres morre anualmente antes, durante ou pouco tempo depois de dar à luz - e a maioria destas mortes ocorrem em países em desenvolvimento.

Partidários argumentam que tais mortes são, não apenas possíveis de prevenir, mas têm também repercussões que vão além da família mais próxima da mulher e mesmo da sua comunidade.

"Nós sabemos exactamente o que é preciso ser feito para salvar as vidas das mulheres," diz a chefe do Fundo Populacional das Nações Unidas (FNUAP), Thoraya Obaid, à BBC.

Além do mais, desde 1990, o nível de mortalidade materna tem diminuído menos de um por cento por ano, o que está longe de ser suficiente para alcançar o objectivo internacional acordado de haver uma redução de 75% até ao ano de 2015.

Causas e riscos

As principais causas de morte durante a gravidez ou no parto passam por grandes perdas de sangue, tensão arterial alta, um aborto de risco, uma infecção mal tratada e uma obstrução durante o trabalho de parto - obstrução que ocorre quando a dilatação é pequena para possibilitar a passagem do bébé pelo canal vaginal.

As razões porque estas questões não foram resolvidas são, porém, mais políticas do que médicas.

As mulheres em África correm o risco mais alto durante o parto

"A primeira e mais importante razão é a questão social: o baixo estatuto da mulher. Os líderes não vêem as vidas e saúde das mulheres como uma prioridade política, investem antes noutros sectores", afirma Obaid.

As mulheres com maior risco de terem problemas são as mais marginalizadas e vulneráveis, que vivem em países com sistemas de saúde subdesenvolvidos ou em situações de conflito, acrescenta.

Metade das mortes maternas - à volta de 270 mil em 2005 - ocorrem na África Sub-Saariana, onde uma em duas mulheres carece do acesso a uma parteira.

"As três intervenções básicas são: um plano familiar que indique um assistente qualificado para estar presente durante o parto e, acesso a cuidados de obstetrícia caso existam complicações durante o nascimento da criança".

Enquanto muitos países tiveram poucos progresso, poucos alcançaram resultados de sucesso.

O Sri-Lanka, por exemplo, tem conseguido reduzir para metade as suas taxas de mortalidade materna em cada 12 anos e a África do Sul reduziu a sua taxa em 92% numa década, de acordo com a Acção Populacional Internacional (PAI) - uma organização não governamental.

Contudo, em muitos casos, a saúde reproductiva tem vindo a perder visibilidade, eclipsada por uma ameaça mais dramática e ainda mais complicada, a Sida.

"Existe competição na busca do dinheiro dos doadores e o aumento da Sida alcançou larga vantagem, " assegura Obaid.

"Apesar do facto do vírus da sida ser sexualmente transmissível, houve uma grande separação entre o HIV e a saúde reprodutiva," adianta e acrescenta que as abordagens tomam partido de uma questao ou da outra, em vez de olharem para ambas como questões interligadas.

Uma questão de fé

Outro grande obstáculo na luta pela redução dos níveis de mortalidade materna, tem sido o aumento da influência ideológica e da fé nas políticas de saúde, particularmente nos Estados Unidos da América.

Desde 2002, os Estados Unidos têm retirado verbas ao Fundo Populacional das Nações Unidas, acusando-o de promover o aborto ou a esterilização.

"As palavras 'sexual' e 'reprodutivo' são vistas por um dos nossos maiores doadores - os Estados Unidos da América - como um eufemismo para apoiar do aborto," alega Obaid.

Cerca de 70 000 mulheres morrem anualmente devido a abortos de risco

Ela afirma ainda que o FNUAP nem apoia, nem se opõe ao aborto, e minimiza o impacto da perda de fundos, dizendo que a pequena quebra tem sido mais que compensada pelo aumento de contributos vindos da Europa.

Mas outros alegam que a posição norte-americana tem apesar de tudo, sido bastante prejudicial.

"Isto é escandaloso," desabafa Amy Coen, o responsável da PAI.

"Penso que as políticas restritivas dos Estados Unidos da América têm sido uma das causas para que não exista tanto progresso quanto poderia existir nos países desenvolvidos."

Fora das preocupações

A Casa Branca alega que os fundos retirados ao FNUAP foram reencaminhados para o apoio de outros projectos de direitos de reprodução, dirigidos por organizações que se mantêm afastadas do aborto.

As Mulheres preocupadas com a América - uma das organizações que protestou contra a entrega de fundos norte-americanos ao FNUAP - afirma que o apoio de tal instituição seria uma violação da lei norte-americana.

"O nosso dinheiro não pode ir para organizações que defendem abortos coercivos e forçados," diz Wendy Wright, a presidente do Grupo, à BBC, estabelecendo uma ligação entre o FNUAP e a prática de abortos forçados na China.

 E salvar a vida das mulheres fortalece a familia, torna a sociedade mais saudável, a economia cresce mais depressa e os países tornam-se mais fortes. É uma estória de vitórias
 
Amy Cohen, Population Action International

Ela diz que o FNUAP providencia fundos para as agências de planeamento familiar do Governo Chinês, ainda que não esteja directamente envolvida na questão.

"Uma das razões porque não tem havido uma grande quebra nas mortes maternas é por se dar demasiada importância à questão do aborto, descurando o que realmente importa", acrescenta.

À volta de 70 mil mulheres morre anualmente em abortos de risco. Em África, morrem por ano trinta mil mulheres como resultado de abortos realizados sem condições de segurança.

Leis arcaicas e restritivas sobre o aborto levam à prática de mais de quatro milhões de abortos arriscados em África, todos os anos.

Mas, segundo Wright, tornar o aborto mais acessível não significa uma redução do número de mortes maternas nos países desenvolvidos.

"A pior coisa para os países, que não possuem cuidados de saúde básicos, seria permitir o aborto, uma vez que tais países também carecem de penincilina e água potável. Tornando-o legal não o tornará mais seguro", assegura Wright.

Por outro lado, de acordo com um relatório recente elaborado pela Acção Populacional Internacional (PAI), 18 dos 26 países com os níveis de risco da taxa de mortalidade materna mais elevada, têm também leis fortemente restritivas do aborto.

"A vida das mulheres está salva quando o aborto é legal," defende Coen.

"E salvar a vida das mulheres fortalece a familia, torna a sociedade mais saudável, a economia cresce mais depressa e os países tornam-se mais fortes. É uma estória de vitórias".

 
 
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