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Última actualização: 21 Setembro, 2007 - Publicado em 14:33 GMT
 
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Doenças mentais descuradas em África
 

 
 
Scan cerebral
Dois terços dos doentes ficam por tratar ou são-no inadequadamente
Cerca de um terço da população mundial sofre de algum tipo de doença mental, mas pelo menos dois terços destes doentes ou ficam por tratar ou são-no inadequadamente.

Estes os dados apresentados recentemente pela revista médica Lancet que ressalta também a magnitude deste problema no mundo em desenvolvimento, onde as doenças do foro psicológico são na sua maioria ignoradas ou marginalizadas.

Os autores do artigo publicado na Lancet dizem mesmo que 90 por cento dos doentes nos países com menos recursos não beneficiam de todo de nemhum tipo de acompanhamento ou tratamento, sendo por vezes mesmo estigmatizados e vítimas de abusos.

A fim de esclarecer melhor esta questão falámos com a Dra. Lídia Gouveia, directora da Secção de Saúde Mental do Ministério da Saúde Moçambicano que começou por apontar o que no se entender estará por detrás das falhas apontadas na revista Lancet.

Lidia Gouveia: No meu entender, e começaria por dizer que um dos pontos pelos quais este tipo de assistência provavelmente falha nos países em desenvolvimento, tem uma grande relação com os recursos humanos na área de saúde capacitados para lidar ou tratar com este tipo de doentes.

Depois temos de ter em conta que são muitas vezes patologias crónicas que muitas vezes requerem que as idas para o tratamento ambulatório tenham lugar de uma forma continuada, quando muitas vezes sabemos que as populações também vivem longe dos centros onde poderiam ter estes tratamentos dos hospitais ou dos centros de saúde onde poderiam beneficiar dessa assistência.

Doente psiquiátrico
Depressão pode ser eficaz no combate de outros problemas

Quer isto dizer que os cuidados de saude mental continuam a estar centralizados nas grandes urbes? A cobertura nacional a nível dos países é ainda muito pequena?

Lidia Gouveia: Não me posso arriscar a falar de todos os países, eu estou a olhar de uma forma geral. Mas a título de exemplo, posso falar de Moçambique, onde estamos a fazer uma tentativa grande de expansão destes cuidados de saúde até aos níveis primários.

Para isso, para além de contarmos com os técnicos da área de psiquiatria e saúde mental, tentamos fazer formações de outros técnicos de saúde para que possam dar resposta a este tipo de patologia e portanto podermos fazer com que estes cuidados estejam cada vez mais próximos da comunidade.

O especialistas nesta área enfrentam também outros problemas complexos. Os problemas de saúde mental continuam a ser encarados como um estigma social, por vezes até pelas próprias famílias?

Lidia Gouveia: Eu diria que existe um determinado estigma, mas mais do que esse estigma, o que eu julgo que muitas vezes acontece é que a doença mental em países em desenvolvimento, e num país como o nosso, por exemplo, ainda é muito relacionada com problemas tradicionais, com problemas tradicionais.

 Há muito misticismo à volta das perturbações mentais e comportamentais
 
Dra. Lídia Gouveia, directora do dept. de saúde mental do Min. Saúde de Moçambique

Então, muitas vezes o que acontece é que quando surge um problema desta natureza no seio das famílias, o primeiro local ao qual a familias acorrem para procurar assistência, normalmente, é junto aos praticantes de medicina tradicional, porque este problema possui uma conotação do ponto de vista tradicional muito forte.

Há muito misticismo à volta das perturbações mentais e comportamentais. Assim, acorrem muitas vezes a este tipo de assistência e depois mais tarde, algumas familias podem até acorrer aos nossos serviços.

Daí haver uma grande necessidade de nós próprios ter-mos de estabelecer um contacto bastante próximo com as associações, que nós aqui chamamos de Associações de Médicos Tradicionais, no sentido de fazermos alguma sensibilização e de modo a que eles saibam que dentro dos serviços de saúde temos assistência para este tipo de doenças.

Doente
Doenças mentais estigmatizadas pelas próprias famílias

Há também quem refira, e há alguns estudos que assim o indicam, que o tratamento da depressão pode ser muito eficaz no tratamento de outros problemas, nomeadamente aqueles relacionados com o alcoolismo e a toxicodependência, para nomear apenas alguns. É esta a experiência que tem tido como especialista na área?

Lidia Gouveia: Sim. Nós usamos também os anti-depressivos como complemento para este tipo de dependências, principalmente se olharmos para estas dependências como uma manifestação secundária de alguma depressão, a que chamaremos talvez de “depressão mascarada”, onde o que chama mais a atenção é o problema do alcoolismo e o problema da própria toxicodependência.

Para esta área e por nós acharmos que temos graves problemas, principalmente de alcoolismo, e de consumo de algumas substâncias ilícitas – onde temos em primeiro lugar a 'cannabis sativa', que nós aqui chamamos de 'soruma' – nós temos um serviço de vigilância epidemiológica, onde registamos o número de pacientes que procuram os nossos serviços ou chegam até eles, com este tipo de problemas.

As declarações da Dra. Lídia Gouveia, directora da Secção de Saúde Mental do Ministério da Saúde Moçambicano, foram transmitidas no nosso programa Ciência e Técnica.

 
 
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