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Última actualização: 10 Agosto, 2007 - Publicado em 18:45 GMT
 
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João Manuel Varela foi a enterrar no Mindelo
 

 
 
João Varela
O cientista e escritor caboverdiano João Manuel Varela foi a enterrar, na passada quinta-feira, na sua ilha-natal de São Vicente.

Mais conhecido pelo seu heterónimo poético, João Vário, a notícia da morte de Varela era, de certo modo, há muito aguardada pelos familiares e amigos.

Há mais de três anos que ele padecia de uma grave enfermidade, que praticamente o imobilizara.

Ele próprio não se cansava de dizer que ainda tinha a fazer para dar por concluído o seu projecto literário.

Nesse projecto constava, inclusive, a escrita de uma epopeia dos povos africanos, algo que deveria situar-se, provavelmente, na linha de O Primeiro Livro de Notcha, em que ele conta, através da poesia, a odisseia do povo caboverdiano.

Por outras palavras, figura cimeira das letras caboverdianas, João Manuel Varela deixa uma vasta obra nos domínios da ciência e das letras.

 João Vário é único; ele é o exemplo geral e, ao mesmo tempo, relativo. Que Deus dê paz à sua alma e nos dê coragem
 
Onésimo Silveira

A sua série de poemas Exemplos – Exemplo geral, Exemplo relativo, Exemplo coevo - entre outros, é considerada pela crítica como o ponto mais alto atingido em Cabo Verde, e não só.

De tal forma que ao proceder ao seu elogio fúnebre, o também poeta e amigo de Varela desde a infância, Onésimo Silveira, não teve dúvidas.

"João Vário é único; ele é o exemplo geral e, ao mesmo tempo, relativo. Ele não podia suportar a mediocridade. Que Deus dê paz à sua alma e nos dê coragem. Adeus querido amigo, adeus meu grande poeta."

Na mesma esteira pronunciou-se um outro poeta e amigo de João Manuel Varela, Corsino Fortes, também ele uma referência poética em Cabo Verde. Para o autor de Pão & Fonema, Varela era um predestinado.

"Eu me lembro de ele ter afirmado uma vez que seria o orgulho da sua geração. E os que estão aqui sabem e atestam isso. Tu vais ser recebido pelos nativistas, pelos claridosos, porque tu és um dos construtores do humanismo caboverdiano. Boa viagem João Manuel Varela."

Mas quem era verdadeiramente João Manuel Varela?

 Era um homem de uma conversação extremamente interessante, inteligente e humorada. Considero-o uma grande perda para Cabo Verde
 
Germano Almeida

Natural de São Vicente, oriundo de uma família extremamente humilde, João Manuel Varela nasceu em Junho de 1937.

Para Onésimo Silveira, apesar dessa origem humilde, ele conseguiu agigantar-se em todos os sentidos da palavra.

"É um homem que, apesar da sua grandeza de espírito, da sua riqueza como pessoa, como artista e como criador, escondia-se atrás da profunda humildade e da grande simplicidade que marcou a sua família - e a ele marcou também."

Falei com várias outras personalidades que conheceram e privaram com João Manuel Varela. O escritor Germano Almeida é uma delas.

"João Vário, para mim, é dos grandes escritores caboverdianos, é um homem que vai, sem dúvida, honrar a literatura caboverdiana com a sua obra. Há muito que nos devíamos ter começado a preocupar com ele."

"Pessoalmente, conheci João Vário há 3 - 4 anos. Era um homem de uma conversação extremamente interessante, inteligente e humorada. Considero-o uma grande perda para Cabo Verde."

Integrante - com Germano Almeida e outros - do grupo Arco do Vasco, o pintor Tchalé Figueira diz que vai ter muitas saudades de João Manuel Varela.

"Um homem brilhante, um homem que muitos pensavam que era um intragável, uma pessoa que não comunicava, mas não; era um homem muito tímido. Há 3 anos, nas nossas tertúlias aqui no Mindelo, descobrimos uma pessoa cheia de humor, cheia de sabedoria e que nos deixa muitas saudades."

 Vamos ver que obras de João Manuel Varela estão esgotadas e vamos fazer tudo por tudo para reeditar essas obras
 
Manuel Veiga

Professor de literatura, amigo de infância também de João Manuel Varela, do conjunto da obra dessa figura marcante das letras caboverdianas, Moacyr Rodrigues destaca um livro em particular.

"Leio com prazer a obra Segundo Livro de Notcha. É um hino, é um texto épico. Enquanto poeta, ele foi considerado, por críticos portugueses, o maior poeta de língua portuguesa pós-Pessoa."

Como se costuma dizer, morre o homem, fica e a obra. Enquanto ministro da Cultura, Manuel Veiga revelou-me o que o governo pretende fazer com o legado literário de João Manuel Varela.

"Varela vai ser eternamente lembrado com os trabalhos que nos deixou nos diversos domínios da poesia, do ensaio, do romance. O que o governo vai fazer para perpetuar a memória dele, a melhor homenagem que lhe podemos prestar é tudo fazer para que a sua obra seja conhecida, discutida, estudada, dentro e fora do país.

"Vamos ver que obras de João Manuel Varela estão esgotadas e, num futuro muito próximo, vamos fazer tudo por tudo para reeditar essas obras e para levar a nova geração a conhecer essas obras. E também vamos estimular a descodificação da poesia de Varela, para que a mensagem possa passar."

 
 
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