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Última actualização: 20 Fevereiro, 2006 - Publicado em 20:00 GMT
 
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O despertar de São Tomé e Príncipe
 

 
 
Menina santomense
A cidade de São Tomé é, certamente, uma das capitais mais sossegadas de África – senão mesmo do mundo.

Às 8 horas da manhã está absolutamente silenciosa. Há umas poucas pessoas na rua, um punhado de ciclistas a caminho do trabalho e algumas mulheres ao sol, à espera de vender os seus ananases e bananas.

Entre a tranquilidade e o indesmentível charme desta pequena nação arquipelágica, a maioria dos cerca de 169 mil habitantes de São Tomé e Príncipe está desempregada e vive em completa pobreza.

Muitos dependem da agricultura e da pesca de subsistência para sobreviver.

Mas a sorte deste país poderá, em breve, mudar graças à explosão do petróleo.

São Tomé e Príncipe e a Nigéria assinaram, há alguns anos, um acordo para explorar a sua área marítima conjunta no Golfo da Guiné.

Cautela

O Presidente Fradique de Menezes disse-me que está confiante de que o seu país vai mudar de rumo, passando de uma economia tradicionalmente baseada na exploração de cacau para outra baseada na produção de crude.

Presidente Fradique de Menezes
Presidente Fradique de Menezes diz que o seu país vai mudar de rumo

Mas disse-me também que era demasiado cedo para se saber se as reservas de petróleo no offshore eram tão vastas quantas as de recursos piscatórios.

“Claro que é lógico que estas ilhas tenham também petróleo porque estamos no meio de lugares onde há petróleo: Angola a Sul, a Nigéria a Norte, o Gabão, os Camarões, até o Congo-Brazzaville tem petróleo, e a nossa vizinha, a Guiné-Equatorial.

“Por isso, é lógico que tenhamos algum. Quanto a quantidades, isso é uma outra questão”.

O primeiro poço terá ainda que ser perfurado e a primeira gota de petróleo descoberta, mas já há no ar alegações de corrupção e de irregularidades na atribuição dos blocos na Zona de Desenvolvimento Conjunto.

Ciclo de corrupção

São Tomé e Príncipe é a última nação a juntar-se ao grupo de países produtores de petróleo no Golfo da Guiné.

Praça de taxis em São Tomé

Está determinado em não seguir a mesma rota de alguns dos seus vizinhos, onde a corrupção e a má gestão dos recursos do petróleo serão responsáveis pela falta de desenvolvimento.

“Quando olhamos para todos os países produtores de petróleo à volta de São Tomé e Príncipe não conseguimos perceber como é que produzem tanto petróleo, têm tanta riqueza, e vivem em tamanha pobreza” – diz Afonso Varela, o director jurídico da Agência Nacional de Petróleo de São Tomé.

“Acho que São Tomé está a tentar fazer algo diferente, para partilhar essa riqueza por entre o nosso povo e para edificar algo que beneficie toda a gente”.

Conversa fiada

Apesar de todo o optimismo no ar, as pessoas no mercado central da capital santomense, com as suas bancas abarrotadas com vegetais e frutos tropicais, não parecem acreditar que o petróleo resolverá todos os seus problemas.

“Sim, ouvi dizer que temos petróleo e que este país pode ter um bom desenvolvimento. Mas não acredito nisso” – disse-me uma senhora que fazia compras.

“O que tenho visto é os ricos cada vez mais ricos e os que não têm dinheiro continuam pobres”.

Um homem, também a fazer compras, diz que não vai ficar à espera de promessas vãs.

“Há muitos anos que as pessoas falam do petróleo mas ainda não vimos nada. É por isso que não acredito. Só acredito em mim próprio”..

Saí do mercado central. O sol forte do meio-dia espalhava, pelo ar, um ambiente letárgico. Apanhei um dos táxis amarelos – a única forma de transporte público no país – de uma praça de táxis à espera de clientes e foi encontrar-me com o advogado Fábio Santos.

Esperanças no ar

No “Café & Companhia”, onde os intelectuais e homens de negócios se juntam para um café e uma fatia de bolo, ele disse-me que estava agora mais optimista, depois de ter regressado recentemente de Portugal, onde viveu e estudou durante 10 anos.

Plataforma petrolífera

“Muitas coisas estão piores em São Tomé. Mas vejo uma nova perspectiva no sector privado, que fez muitas coisas pelo país. O Estado, o governo, não faz o que lhe compete fazer. O sector privado trabalha melhor” – diz Fábio Santos.

A promessa do petróleo terá ainda de se materializar neste minúsculo país e, por enquanto, as ruas mantêm-se calmas.

É difícil imaginar que uma explosão de petróleo está mesmo à esquina.

Também faltará saber das capacidades dos líderes santomenses para lidar com a sua nossa indústria de ouro negro.

“As pessoas que vivem nas áreas rurais são muito pobres. Espero que, um dia, as coisas mudem e que o nosso governo use o nosso petróleo para melhorar as vidas do nosso povo” – disse-me um jovem santomense.

 
 
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