Primeira semana de treinos da seleção tem isolamento 'só para alguns' e polêmica sobre temperatura

1 junho 2014 Atualizado pela última vez 10:23 (Brasília) 13:23 GMT

A promessa era de isolamento completo. Mas serviu só para alguns. A seleção brasileira não ficou exatamente assim, afastada do mundo, durante a primeira semana de treinamentos para a Copa do Mundo, que começa no dia 12 de junho com o jogo contra a Croácia.

Ao contrário do que aconteceu em 2010, quando Dunga fechou as portas daquela seleção para todos os agentes externos, desta vez o Brasil tem ambiente mais descontraído e menos "militarizado".

O isolamento afasta o time da imprensa esportiva, como em 2010. As zonas mistas (espécie de corredores por onde jogadores passam e jornalistas, do outro lado de uma pequena barreira, podem abordá-los), que eram diárias nos Mundiais de 2002 e 2006 antes dos treinos, permanecem extintas e deram lugar a estéreis entrevistas coletivas.

O isolamento também afasta a seleção do torcedor e de eventuais problemas, como protestos ou manifestações indesejados - ao longo da semana, em Teresópolis, não houve nenhum tipo de ameaça nesse sentido. Antes dos treinos de sábado e domingo pela manhã, muita gente se aproximou do local de trabalho da CBF, mas acabou tendo frustrada a tentativa de contato com os jogadores nas barreiras policiais.

Contato com a mídia

Há, no entanto, exceções. Alguns treinos foram acompanhados de perto por torcedores que ganharam promoções de patrocinadores da CBF. Como a Granja Comary fica dentro de um condomínio da cidade, moradores puderam se aproximar dos alambrados, de onde conseguiam ver alguma coisa dos treinamentos - o número de moradores, ou pelo menos de acompanhantes destes, foi aumentando visivelmente ao longo da semana. Alguns jogadores, como o goleiro Júlio César e o zagueiro David Luiz, chegaram a "escapar" e ir de encontro a estes fãs para distribuir autógrafos e atenção.

Jogador Dante postou uma foto em seu instagram da visita do cantor Mumuzinho a seleção

Em relação ao trabalho jornalístico, as exceções foram mais pontuais. Se na quinta-feira o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, literalmente entrou no gramado e parou o treino da seleção, no sábado foi a vez do artista Mumuzinho, do programa Esquenta, também da Globo, entrar no hotel de concentração para "confraternizar" com os jogadores. Na segunda-feira, antes mesmo da chegada dos atletas a Teresópolis, o técnico Luiz Felipe Scolari, que já estava na Granja, participou ao vivo do programa Encontro com Fátima Bernardes, novamente da Globo.

A relação do técnico com a emissora, no entanto, tem altos e baixos. Insatisfeito com declarações feitas pelo jornalista Alberto Helena Jr no canal Sportv, que pertence à Globo, Scolari decidiu "retaliar" dando entrevistas exclusivas para a Band (TV aberta) e Fox Sports (fechada) ao longo da semana. O fato provocou irritação em pessoas importantes da maior TV do país. No entanto, o acesso privilegiado de programas da emissora a jogadores e à própria concentração gerou desconforto para o resto da mídia.

Programas humorísticos, como o CQC e o Pânico, da Band, foram vetados de fazerem perguntas nas entrevistas coletivas. No entanto, estão liberados para abordar os atletas ao final das coletivas e conseguiram algumas gravações antes que estes voltassem à concentração. "Podemos tentar chamar, a CBF não vai nos prejudicar nesse caso", contou o repórter Felipe Andreoli, do CQC.

"Nós não estamos organizando entrevistas, porque é muita gente e não queremos dar prioridade a nenhum meio. É difícil montar uma equação de equilíbrio. Se eu monto uma entrevista exclusiva, por exemplo, com a BBC, centenas de outras emissoras vão vir cobrar o mesmo espaço. No dia de folga dos jogadores, cada um pode tentar se acertar com eles e, assim, ninguém poderá nos acusar de estar dando algum tipo de privilégio", disse à BBC Brasil o diretor de comunicação da CBF, Rodrigo Paiva.

"Hoje em dia aumentou muito, não é mais só televisão, rádio e jornal, temos as TVs a cabo, os sites. O universo ficou muito amplo e vai inviabilizando aquele contato que houve no passado entre o lado de cá e o lado de vocês. Cada vez mais a distância aumenta, as seleções e clubes se isolam mais para que tenham condições de trabalhar. A tecnologia avançou muito, hoje se capta um áudio a quilômetros de distância, você tem um detalhe de uma fala, uma expressão, então fica aquela guerra de se proteger um pouco para não gerar uma crise, uma especulação. Por outro lado, a imprensa precisa de informação. É um momento de encontrar um caminho de convivência que talvez ainda não seja agora, mas mais para frente se encaixe melhor entre todas as partes", acrescentou Paiva.

Estrutura

A CBF credenciou mais de 1600 profissionais para os treinamentos da seleção, que ficará durante toda a Copa na Granja Comary, voltando imediatamente após os jogos. As reformas que transformaram o alojamento de jogadores em hotel 5 estrelas e deram estrutura de trabalho para a comissão técnica também resultaram em ampliação da área de trabalho para jornalistas.

Foram montadas duas grandes tendas. Uma para a área de entrevistas coletivas, outra com pequenas salas/estúdios ocupadas por TVs, algumas mesas e cadeiras na área de trabalho e um grande lounge, onde patrocinadores da seleção oferecem serviços como os de barbearia, lavagem de roupas, telefonia e bebidas. Há também duas TVs conectadas a video games, no que se convencionou chamar de "área de lazer" para a imprensa.

As reformas na Granja Comary resultaram em ampliação da área de trabalho para jornalistas

Alguns jornalistas reclamaram do excesso de tamanho do lounge dos patrocinadores em detrimento da falta de mesas de trabalho - a luta pelo espaço chegou a gerar discussões entre profissionais. Também foi notada a ausência de água, de comida (mesmo que vendida) e os pouquíssimos banheiros.

"Está à altura da estrutura para os jogadores. Muita gente pensa que a seleção são 23 jogadores e uma comissão técnica, mas na verdade são 23 jogadores, uma comissão técnica e dois mil jornalistas! Você pode dar todo o conforto para jogadores e comissão, mas não é fácil achar um lugar nesse planeta para acomodar tantos jornalistas. Sabemos que sempre haverá quem encontre problema. Aqui está um pouco frio, como é Teresópolis, mas se você ouvir alguns falarem parece que a gente está se concentrando na Sibéria e logo vai nevar lá fora. Sempre tem problema!", disse Paiva.

Polêmica climática

De fato, a escolha de Teresópolis, uma cidade na região serrana no Rio, e as baixas temperaturas enfrentadas pela seleção foram motivos de críticas por parte de alguns especialistas. Nos três primeiros dias de concentração, a seleção conviveu com frio e chuva - Neymar chegou a treinar de gorro. A partir de quinta-feira e até domingo, no entanto, foram quatro dias de Sol pela manhã, com temperaturas na casa dos 20 graus. Os treinos da tarde de sábado e domingo foram cancelados pela comissão técnica. De fato, pela tarde é quando a neblina baixa, assim como a temperatura, que fica na casa dos 10 graus durante a noite.

Na primeira fase da Copa, o Brasil jogará em cidades de baixa umidade nesta época do ano (São Paulo e Brasília) e também em uma, Fortaleza, onde a temperatura deverá estar na casa dos 30 graus. "Nós não podemos desprezar a estrutura de trabalho que temos aqui na Granja Comary", justificou o preparador físico da seleção, Paulo Paixão. "Não estamos ignorando esse fator (das temperaturas baixas em Teresópolis), mas também não podemos valorizar demais. A estrutura aqui não pode ser desprezada em função de você ficar um dia, dois, três ou uma semana em outro local, mas onde seriam necessárias várias adaptações."

Nesta segunda-feira pela tarde, a seleção fará seu único treinamento totalmente aberto para o público, no estádio Serra Dourada, em Goiânia. No mesmo local, terça-feira, fará jogo amistoso contra o Panamá. O zagueiro e capitão Thiago Silva será poupado do jogo - a vaga de titular será ocupada por Dante. Os volantes Paulinho e Fernandinho também não viajarão para Goiás.