Prisão considerada 'fábrica de talebãs' é foco de tensão EUA-Afeganistão

13 fevereiro 2014 Atualizado pela última vez 15:52 BRST 17:52 GMT

A liberação de 65 detentos da prisão de segurança máxima de Bagram, no Afeganistão, é o novo foco de tensão dos Estados Unidos com essa parte conturbada da Ásia Central.

Depois de dois anos de negociação, a repórter da BBC Yalda Hakim teve acesso à prisão nos arredores de Cabul, no dia da liberação dos presos.

Considerada uma 'fábrica de talebãs', a prisão guarda homens considerados altamente suspeitos de envolvimento em terrorismo.

Há tempos, Bagram também é considerada a versão afegã da prisão na base americana de Guantánamo, em Cuba. A comparação se dá pelo fato de muitos dos detentos não terem sido julgados.

Bagram foi construída e gerenciada pelos americanos mas foi entregue ao controle afegão em 2013. Até o momento, nenhum jornalista tinha tido acesso à prisão.

Visita a prisão de Bagram ocorreu apenas depois de dois anos de negociação (BBC)
Visita a prisão de Bagram ocorreu apenas depois de dois anos de negociação (BBC)

No dia em que a jornalista da BBC chegou a Bagram, o comitê responsável pelos prisioneiros, o Conselho de Revisão Afegão, anunciou que libertaria alguns dos detentos.

Segundo o comitê, por falta de provas estes homens não poderiam ser levados a julgamento.

A Isaf (Força Internacional de Assistência para Segurança, na sigla em inglês), a força internacional liderada pela Otan criticou a decisão afirmando que os detidos que seriam libertados eram terroristas perigosos que tinham "sangue nas mãos".

'Fábrica de talebãs'

Inicialmente, a repórter da BBC foi levada para dentro da prisão de Bagram em uma visita orquestrada, um evento de relações públicas liderado pelo General Farooq Barakzai, responsável pela administração.

A visita incluiu todos os setores, como a cozinha, a lavanderia, a enfermaria. Foi possível até ver prisioneiros, com as mãos e pés acorrentados, recebendo tratamento dentário.

Mas, ao examinar um pouco além das relações públicas, é possível ver um lado mais obscuro.

Cela após cela, homens detidos alegavam inocência, falando que eram agricultores presos em operações de buscas de militares americanos.

Hakim foi então levada a uma cela onde um grupo de cerca de 20 homens tinha sido reunido.

Um deles falou que estava preso há quatro anos e meio sem julgamento.

Hakim não conseguiu explicar quais eram as provas contra ele. O prisioneiro afirmou que, depois de capturado, ele foi torturado pelos americanos em um local conhecido como a "prisão negra". Não foi possível verificar a autenticidade deste relato.

Limbo jurídico

Visitantes viajam dias e ficam apenas 30 minutos com detentos (BBC)
Visitantes viajam dias e ficam apenas 30 minutos com detentos (BBC)

Durante os dois dias da visita a Bagram, a repórter encontrou familiares que visitavam os detidos.

Muitos tinham feito uma viagem longa do sul do país, passando dias dentro de um ônibus.

Eles tinham permissão para ficar apenas cerca de 30 minutos junto com os detidos, frequentemente separados por uma janela blindada.

Cada um dos membros da família levava cartazes numerados no pescoço. A reportagem da BBC nunca conseguiu descobrir o que os números indicavam.

Segundo Hakim, também é difícil comprovar se os homens detidos em Bagram são inocentes ou não.

Os americanos acusam as autoridades afegãs de ignorar as evidências forenses. Os afegãos rejeitam estas acusações e afirmam que os americanos não forneceram informações secretas necessárias para acusar estes prisioneiros.

A falta de confiança entre os dois países, que são apontados como aliados, fica clara nesta situação.

O presidente afegão, Hamid Karzai, afirmou em entrevista à BBC que Bagram é uma "fábrica de talebãs" onde pessoas inocentes são detidas de forma indiscriminada, misturadas com extremistas e doutrinadas.

E agora, quando alguns prisioneiros foram libertados, alguns deles inclusive voltando para as regiões mais problemáticas devido à presença do Talebã, a questão é se os temores dos americanos vão se concretizar.