BBC navigation

Jornalista lembra drama de colega palestino que perdeu bebê em bombardeio em Gaza

Atualizado em  26 de novembro, 2012 - 12:07 (Brasília) 14:07 GMT

Jehad segura nos braços o filho de onze meses de idade (Foto: AP)

A morte de civis no conflito entre palestinos e israelenses é algo trágico, principalmente quando entre as vítimas estão crianças. O correspondente da BBC em Gaza, Jon Donnison, testemunhou esta tragédia de perto e conta os detalhes desta história. O texto a seguir contém descrições chocantes:

"Meu amigo e colega Jehad Mashrawi é geralmente o último a deixar o nosso escritório em Gaza. Trabalhador dedicado, de fala mansa, ele, frequentemente, ficava até mais tarde, teclando em um dos laptops da redação.

Ele tem a cabeça fria - se mantém imperturbável, enquanto outros como eu estão agitados a sua volta. Ele é um editor de imagens, integrante de nossa equipe local do serviço árabe da BBC que faz o escritório daqui funcionar.

Mas na quarta-feira, no meio do expediente - apenas cerca de uma hora após terem começado os recentes confrontos em Gaza, com a morte do líder militar do Hamas Ahmed al-Jabari, por Israel, Jehad saiu da ilha de edição gritando.

Ele voou pelas escadas, com as mãos na cabeça e no rosto uma expressão de angústia.

Acabara de receber um telefonema de um amigo que disse que o Exército israelense havia bombardeado a sua casa e que Omar, seu bebê de 11 meses, havia sido morto.

Omar era um daqueles bebês que poderiam ser modelos fotográficos.

De pé sobre o que sobrou de sua casa após o ataque, Jehad me mostrou uma foto em seu telefone celular.

Era de um pequeno menino, com um sorriso de menino levado, forte, de rosto redondo, vestido em um macaquinho de jeans, em um carrinho de bebê, com olhos escuros e uma franja de cabelo castanho na testa.

'Ele só sabia sorrir', disse-me Jehad, enquanto nós dois tentávamos conter as lágrimas.

'Ele só sabia dizer duas palavras, baba (papai em árabe) e mama', continuou o pai.

Também no celular de Jehad outra foto: um pequeno cadáver horrível. O rosto risonho de Omar havia sido queimado e o seu cabelo parecia ter derretido, fundindo-se ao seu couro cabeludo.

'Ele sabia apenas sorrir', diz Jehad sobre filho (Foto: Arquivo pessoal)

A sogra de Jehad também foi morta no ataque.

'Ainda não encontramos a cabeça dela', diz ele.

E o seu irmão morreu nesta segunda-feira, em decorrência das muitas queimaduras, após ficar uma semana no hospital.

Jehad tem um outro filho, Ali, de quatro anos de idade, que sofreu ferimentos leves. Ele pergunta constantemente por seu irmão menor.

Os onze membros da família Mashrawi viviam em um uma pequena casa de tijolos no distrito de Sabra, na cidade de Gaza. Cinco pessoas dormiam em um quarto.

As camas agora só servem para ser usadas como lenha e os armários estavam cheios de trapos de roupas de crianças.

Nas estantes da cozinha, havia fileiras de jarras de plástico que foram derretidas, estavam cheias de ervas e temperos palestinos. As suas formas distorcidas pareciam uma imagem refletida em espelho convexo.

E, no hall de entrada, um buraco com pouco mais de meio metro no teto frágil de metal, por onde o míssil entrou.

Apesar das evidências apontarem para um ataque aéreo israelense, alguns blogs sugeriram que poderia ter sido resultado de um disparo acidental de um foguete do Hamas.

Mas, segundo fontes militares israelenses, naquele momento, logo após o início da ofensiva de Israel, muitos morteiros foram disparados de Gaza, mas poucos foguetes.

O poder de fogo de um morteiro não causaria o incêndio que parece ter engolido a casa de Jehad.

Outros blogs sugeriram que o estrago causado na casa de Jehad não tinha as características da destruição causada pelos poderosos ataques israelenses, mas a BBC visitou outros locais bombardeados nesta semana, onde Israel reconheceu ter realizado os chamados "ataques cirúrgicos", e eles apresentavam um estrago muito semelhante.

Como na casa de Jehad, houve poucos danos estruturais, mas as vítimas sofreram extensas queimaduras fatais. É mais provável que Omar tenha morrido em um dos mais de 20 bombardeios em Gaza que os militares israelense disseram ter feito no início da onda de ataques.

Quarto da casa de Jehad ficou completamente destruído, após o ataque (Foto: Arquivo pessoal)

Omar não era um terrorista.

Claro que toda a morte de civis, em ambos os lados, é trágica. A ONU disse, após uma investigação preliminar, que 103 das 158 pessoas mortas eram civis.

Destas, 30 eram crianças - doze com menos de 10 anos de idade. Mais de mil pessoas foram feridas.

O porta-voz do governo israelense, Mark Regev, disse que cada morte ou ferimento de um não-combatente era uma tragédia, fruto de uma "falha operacional".

Em Israel, também houve mortes: quatro civis e dois soldados. Muitas pessoas também foram feridas, mas o fato do serviço de ambulância ter registrado atendimentos a pessoas sofrendo de ansiedade e ferimentos leves é uma indicação da natureza assimétrica, desequilibrada, deste conflito.

Omar, O bebê de Jehad, foi provavelmente a primeira criança a morrer nesta mais recente onda de violência.

Entre os últimos, está um menino de seis anos de idade, Abdul Rahman Naeem, que foi morto por um ataque israelense algumas horas antes do cessar-fogo ter sido anunciado.

O pai de Abdul Rahman, doutor Majdi, é um dos principais médicos especialistas no hospital Shifa, na cidade de Gaza.

Ele ficou sabendo da morte do filho quando tinha ido atender a um paciente e descobriu que se tratava do seu próprio filho.

Aparentemente, o médico Majdi não via Abdul Rahman havia dias. Ele estava muito ocupado cuidando dos feridos.

Antes de sair da casa de Jehad e deixá-lo próximo a uma fogueira de um acampamento onde se juntou a outras vítimas dos ataques, eu perguntei, talvez estupidamente, se ele estava com raiva após a morte de Omar.

"Muita, muita raiva", ele disse, com a sua mandíbula tensionada, enquanto olhava as fotos em seu celular.

Isto, vindo de um homem que eu nem me lembro de um dia ter levantado a voz por estar irritado.

Meus sentimentos, após uma semana, onde tive pouco tempo para pensar, estão com Jehad e sua família.

Surpreendentemente e sem ser preciso, ele me disse que seus sentimentos também estavam comigo e com a equipe da BBC.

'Eu sinto muito, Jon, por ter saído e não poder ficar lá para te ajudar com o trabalho", disse ele, antes de nos abraçarmos e nos despedirmos."

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.