BBC navigation

'Olimpíada de selvagens' tentou comprovar superioridade de brancos

Atualizado em  17 de julho, 2012 - 08:12 (Brasília) 11:12 GMT

Olimpíadas antropológicas

  • Um mouro compete no arremesso de dardos.
    No lançamento de dardos, um atleta 'mouro' é observado de perto por estudiosos brancos. A competição não tinha objetivos esportivos e era, na verdade, um estudo científico (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA 84 Foundation).
  • Um turco participa da competição de arremesso de dardo.
    Um atleta turco se prepara para o lançamento de dardos. O evento reunia pessoas de diferentes culturas e tentou comprovar a supremacia do mundo civilizado (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA 84 Foundation).
  • Pessoas com pouca aptidão física estavam entre os participantes dos jogos
    Um homem da Patagônia participa do arremesso de dardos. Os jogos reuniam pessoas sem nenhum preparo físico ou experiência esportiva (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA 84 Foundation).
  • O cabo de guerra foi uma modalidade olímpica até 1920.
    O cabo e guerra, até 1920, foi uma modalidade olímpica e, aqui, aparece sendo praticado por indígenas. (Fotos: Mark Bennitt and Frank Parker Stockbridge, eds. History of the Louisiana Purchase Exposition. Cedidas pela professora Susan Brownell).
  • Foto da competição de arco e flexa.
    O regulamento das competições era explicado em inglês e muitos participantes acabavam desqualificados por não entender e, consequentemente, desobedecer as regras. Na foto, a competição de arco e flecha (Fotos: Mark Bennitt and Frank Parker Stockbridge, eds. History of the Louisiana Purchase Exposition. Cedidas pela professora Susan Brownell).
  • A legenda original desta foto é 'um negrinho atirando com arco e flecha', que expõe o ponto de vista racista dos organizadores (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA84 Foundation).
  • Na foto, um ainu participa da competição de arco e flexa.
    Na foto, um indígena ainu participa da competição de arco e flecha. Os ainus são um grupo étnico que vive na Rússia e no Japão (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA84 Foundation).
  • Muitos participantes se assustavam com o tiro de largada ou queimavam a saída e eram desclassificados.
    Nas provas de corrida, muitos se assustavam com o tiro de largada ou queimavam a saída e eram desclassificados (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA84 Foundation).
  • Pigmeus se preparam para competir.
    Pigmeus se preparam para competir. Os organizadores queriam derrubar a crença de que os ditos 'selvagens' tinham habilidades naturais e grande resistência (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA84 Foundation).
  • Na foto, J.E. Sullivan, organizador dos jogos antropológicos.
    O organizador dos jogos J.E. Sullivan comparou os resultados dos atletas profissionais das olimpíadas com o desempenho dos jogos antropológicos para provar a supremacia dos países 'civilizados'. A experiência virou sinônimo de ciência de má qualidade (Foto: Almanaque Spalding, ed. James Edward Sullivan, 1905. Cedidas pela LA84 Foundation).

Os espectadores de um evento esportivo nunca tinham visto atletas tão indisciplinados.

Na prova dos 100m rasos, em vez de largar ao estalar da pistola, uns competidores se antecipavam e eram desqualificados; outros se assustavam e não saíam do canto.

Ao se aproximar da linha de chegada, em vez de romper triunfalmente a fita com o peito, muitos hesitavam ou passavam por baixo dela.

Para um observador daqueles Jogos, ficara claro que muitos estavam ali apenas "por diversão" e não levavam a competição "a sério".

Estes não eram Jogos Olímpicos quaisquer, mas sim um "experimento científico", com nativos da Ásia, África e diversas partes das Américas, realizado em meados de agosto de 1904, duas semanas antes da abertura oficial das competições para valer em St Louis, em Missouri.

Os organizadores se orgulhavam ao se referir às chamadas Jornadas Antropológicas como "o primeiro encontro atlético do mundo no qual os selvagens são os único participantes".

O observador em questão não era imparcial: tratava-se do chefe do departamento esportivo do comitê organizador olímpico local, James Edward Sullivan, que queria através do experimento ressaltar as proezas do "homem civilizado" e contrariar a ideia de que os povos nativos são "atletas naturais".

"Por muitos anos fomos levados a crer, por aqueles que deveriam saber, por artigos na imprensa e por livros, que o selvagem médio tinha pés velozes, membros fortes, precisão com o arco e a flecha e conhecimento em jogar pedras", inconformava-se Sullivan no seu relatório oficial publicado no ano seguinte.

"Ouvimos maravilhas dos corredores indígenas, da resistência dos negros do sul da África, e das habilidades naturais dos selvagens em questões atléticas", prosseguia. "Mas os eventos em St Louis provam o contrário destas histórias."

Experimento fracassado

Como nos Jogos Olímpicos anteriores, de 1900, os de St Louis se realizavam paralelamente à edição daquele ano da Feira Mundial.

Para os experimentos, Sullivan trabalhou em parceria com o diretor de Antropologia da Feira, William John McGee.

"O que para mim é interessante é que aqueles dois homens pensaram as Jornadas Antropológicas com seriedade", disse à BBC Brasil a professora de Antropologia da Universidade de Missouri em St Louis, Susan Brownell, editora do livro The 1904 Anthropology Days and Olympic Games: Sport, Race, and American Imperialism (em tradução livre, "As Jornadas de Antropologia de 1904 e os Jogos Olímpicos: Esporte, Raça e Imperialismo Americano).

"McGee pensou as Jornadas como um experimento sério de antropologia, enquanto Sullivan tratou o evento com seriedade do ponto de vista do esporte, das medições, dos recordes, etc."

Não é difícil entender por que a ideia não funcionou. Susan Brownell diz que Sullivan não se incomodava em "comparar maçãs e bananas", contrapondo os resultados de nativos sem treinamento com o de atletas bem preparados e selecionados para representar o melhor dos seus países.

"Os nativos tiveram duas etapas de competição, uma de tentativas e outra de finais, portanto não (tiveram) quase nada de experiência", disse a pesquisadora.

"As regras eram explicadas em inglês, que muitos não entendiam, eles não tinham nenhum treinamento, nunca tinham praticado os esportes, e o que foi ainda mais ridículo foi que muitos foram desqualificados depois de queimar largadas nas modalidades de atletismo", contou.

"Naturalmente, até passar por esse processo todo, o seu desempenho era muito pior do que a dos homens civilizados."

No seu papel de cientista, McGee, um geólogo, etnólogo e antropólogo autodidata, ainda tentou observar que os nativos talvez fossem capazes de obter resultados melhores nas provas, se lhes fosse permitido um pouco mais de prática.

Conta a antropóloga que McGee chegou a organizar uma nova bateria de Jogos, em setembro daquele ano, mas os registros do segundo evento nunca foram encontrados e ninguém sabe o que aconteceu.

Já Sullivan discordou que a "total falta de habilidade" dos nativos para a prática do esporte se devesse à falta de treino.

"O dr. McGee atribui esta total falta de habilidade atlética dos selvagens ao fato de que eles nunca foram instruídos ou educados. Ele crê que talvez se eles tivessem um pouco de treinamento profissional poderiam ser tão proficientes quanto muitos americanos", escreveu.

"Este autor discorda, já que as demonstrações dadas durante esses dias em particular não atestam por eles. O encontro prova conclusivamente que tem-se exagerado o homem selvagem do ponto de vista atlético."

Legado

Sullivan queria que as Jornadas Antropológicas fossem um experimento "dos mais bem sucedidos e interessantes", ao qual "homens da ciência" se referissem "por muitos anos".

"Acadêmicos e pesquisadores no futuro, por favor, omitam qualquer referência às habilidades atléticas naturais dos selvagens, a menos que possam consubstanciar suas supostas qualidades", escreveu.

Entretanto, como observa Susan Brownell, "nenhum dos antropólogos da época publicou nenhum estudo sobre o evento".

"No fim, eles devem ter se dado conta de que se tratava simplesmente de ciência de má qualidade - ou que não era ciência e ponto".

Mesmo assim, a pesquisadora avalia que aquela experiência deixou legados positivos e negativos.

Por um lado, as Jornadas foram uma espécie de "divisor de águas" na antropologia americana, empurrando de vez cientistas como Franz Boas – considerado o pai dos estudos no seu campo – para uma abordagem cultural das diferenças entre as pessoas, em oposição à teoria evolutiva de McGee.

Do ponto de vista esportivo, entretanto, Brownell lamenta que os "excessos" da experiência tenham levado as autoridades esportivas europeias a adotar o caminho oposto tão logo as Olimpíadas regressaram ao Velho Continente, nos Jogos Intercalados de Atenas em 1906.

Foi a primeira vez que os atletas desfilaram sob as bandeiras nacionais, ao som de um hino e representando um comitê olímpico de seu país.

"A noção de cultura foi empurrada para fora do tabuleiro", afirma a pesquisadora. "Havia toda essa diversidade cultural que foi rapidamente eliminada dos Jogos Olímpicos depois disso."

Não aos jogos étnicos

De lá para cá, o mundo raramente viu, por exemplo, partidas de futebol gaélico, esportes germânicos ou lacrosse – um esporte nativo americano – em competições olímpicas.

Como especialista em esportes chineses, Susan Brownell acompanhou a briga chinesa para incluir artes marciais nos Jogos de Pequim, sem sucesso.

"Hoje em dia é simplesmente impossível para um esporte identificado com tradições culturais ou grupos étnicos virar modalidade olímpica", diz.

Para as tentativas de comprovar a supremacia desta ou daquela raça através do esporte, os experimentos foram um balde d’água tão grande quanto o que o atleta negro americano Jesse Owens jogou sobre os planos de Adolf Hitler – que queria provar a supremacia ariana – ao levar quatro ouros nos Jogos de Verão de 1936 em Berlim.

"Esporte não é ciência", resume Susan Brownell. "E os seres humanos são demasiadamente complexos para reduzir o seu desempenho esportivo a um único gene."

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.