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Atualizado às: 23 de janeiro, 2009 - 07h51 GMT (05h51 Brasília)
 
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Ecos da posse de Obama
 

 
 
Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Continua a repercutir a posse do agora, enfim, presidente Barack S. Obama, como pronunciou o locutor oficial da ocasião, mas Barack Hussein Obama, conforme emendou corretamente o juiz da Suprema Corte encarregado do juramento com a mão pousada na Bíblia que foi de Abraham Lincoln, o grande ausente da magnífica ocasião.

Todos os jornais britânicos de alguma categoria (não são poucos) deram ampla cobertura, para não falar de suplementos especiais. O discurso de posse está na íntegra em vários sites da internet. Seu conteúdo vem sendo esmiuçado com o rigor dedicado aos grandes discursos históricos. As primeiras 24 horas indicam que o homem pegou o bonde andando e já mandando bala (no bom sentido) em direção à baía de Guantánamo.

Há cínicos, neste mundo de Deus. Muitos cínicos. Sem eles, esta a dolorosa verdade, que seria de nós? Ouvi no metrô a caminho de casa, um inglês bem vestido e de bom aspecto comentando com o amigo, com uma cara de pau e voz debochada, a frase que reproduzo aqui buscando ser o mais fiel possível ao original:

"Presidente negro já não era sem tempo. Quero ver agora é presidente branco em Ruanda, Quênia, Nigéria e arredores. Aí é que a porca torce o rabo."

Confesso que estou mentindo quando cito esta última frase. O homenzinho (ele merece o diminutivo) jamais poderia dizer, em inglês, castiço ou vulgar, That´s where the sow twists her tail. Tal expressão inexiste aqui, mesmo nos meios mais canalhas. Busco apenas reforçar o cinismo vil que presenciei, ouvi, retive e, agora, passo adiante.

Pergunto então: há solução para a humanidade enquanto houver gente assim num mundo que, agora, inicia seu desbragado namoro com o presidente Obama? Só de digitar essas palavras, “presidente Obama”, sinto um frisson percorrer meu corpo cansado e bulir com minha mente cética.

Vamos em frente, que atrás vem gente, conforme o dito popular.

Mesmo entre os norte-americanos há aqueles que nós, da imprensa, gostamos de chamar de “eternos descontentes”. Esses chatos de galocha sempre dispostos a fazer uma crítica, por mais ínfima e desimportante que seja.

Na imprensa, que eu cato na Net, nada vi. Mas estão lá. Moitando. Como estão os de extrema-direita racista, os chamados “supremacistas brancos”, mal traduzindo, que não só linchou a auspiciosa ocasião, ainda que figurativamente (não tiveram tempo de se organizar e tramar, felizmente), mas fizeram ameaças concretas.

Nosso país irmão, os Estados Unidos, não têm mais vagas para mártires. Só se um desastre natural levar Obama (ele já merece nossa intimidade, como o nada saudoso Bush), algo assim como um raio o fulminar. É o caso do novo presidente nunca visitar o Brasil. Não por birra ou pouco caso, mas por cautela.

Porque Obama não deve visitar o Brasil

Peço perdão por tergiversar. É que foi amplamente noticiado aqui no Reino Unido o fato de que o Brasil, segundo relatório da ONU, conta com o dobro da média mundial de homicídios. Apesar de tudo, ao contrário dos americanos, não temos uma listinha de presidentes assassinados (a saber: quatro a tiros) ou que tenham sofrido tentativa de assassinato.

Nenhum presidente brasileiro foi assassinado. Nem a tiros nem a golpe de peixeira. Morreram todos da forma mais natural possível. Pois nós somos assim: naturais pela própria natureza. Sei que me estendo como se estivesse discursando uma posse qualquer minha, mas eu queria era explicar, com a devida clareza, os motivos porque sou contra uma chegada do novo presidente ao nosso país.

Tem mais. Lideramos o mundo em matéria de raios. Os números são de nosso próprio governo. Segundo eles, 75 pessoas morreram fulminados por raio em 2008. O Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, organização acima de qualquer suspeita, afirma que até agora o recorde estava com o ano de 2007, quando 47 morreram de raio. Importante é salientar o fato científico, também divulgado pelo instituto em questão, de que o Brasil recebe, sofre ou acolhe uma média de 50 milhões de raios por ano. Agora, em 2009, na Bahia, quatro já morreram de raio. Quatro. Mesmo número de presidentes americanos abatidos a bala.

Raios! É muito raio! Mesmo para um fenômeno que escapa ao controle do mais esclarecido dos governos.

Voltando à vaca fria: seria terrível se Obama, numa visita de cortesia a nosso país, fosse atingido, ou tivesse membro de sua comitiva atingida, por um desses 50 milhões de raios.

Concluindo

Resta apenas desejar boa sorte ao novo presidente norte-americano e que lhe seja leve o duro caminho que tem pela frente. Um caminho, esperamos todos, sem bandidos à espreita, no solo, ou raios, nos céus.

 
 
Arquivo - Ivan
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