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Atualizado às: 19 de dezembro, 2008 - 07h54 GMT (05h54 Brasília)
 
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Leituras e comilanças
 

 
 
Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Outro dia andei ponderando aqui uma série de tolices a respeito de leituras. Que ninguém lê nada, que livro não dá a camisa a ninguém, que isso tudo não passa de uma tremenda besteirada, que todo mundo mente quando se fala em livros lidos, e por aí afora.

Pois dois dias depois fiquei com a língua ardendo. Ou os dedos que digitam as teclas do computador em chamas. Um dizer popular desses que minhas parcas leituras vivem a me confundir. Ah, não. Me lembrei. É “ficar com as orelhas ardendo” quando alguém está ou andou falando mal da gente. Que o seja, pois. Estou com as orelhas ardendo. Foi, e sendo ainda mais baixamente popularesco, tiro e queda.

Blam! E eu caído no meio do salão. Mordendo a língua em brasa.

Neste ano que vai nos dando bye-bye, 2008, foi criada no Reino Unido uma comissão especialmente formada para designar os 10 livros, ou leituras, que mais impressionam, ou podem impressionar, uma mulher. Trata-se da “National Year of Reading”, ou Ano Nacional da Leitura, como vocês todos entenderam muito bem.

Como vêem, o sexismo sensato e a misoginia moderada, vão bem, obrigado, aqui em terras britânicas. Não entendo porque ninguém se preocupou em cobrar da organização um equivalente para a pobre da coitada da mulher, que, afinal de contas, também é gente, muitas sabem até mesmo ler, e, como nem todas são boazudas, peixões e outros arcaísmos, necessitam recorrer a expedientes mais rarefeitos para impressionar os homens. Deixa estar, jacaré, que a lagoa há de secar. (Afinal o que é que dá na gente na proximidade das festas para se sair por aí distribuindo frases feitas de pouca imaginação e ainda menor impacto literário?).

Literário. Isso. Voltemos ao assunto.

Os 10 livros que a comissão acabou designando como os mais sedutores diante dos olhos do sexo frágil. Os 10 livros equivalentes àquelas cantadas garantidas que ainda circulam livremente e com o maior sucesso em terras do Brasil.
Feito “foi isso que o médico me receitou três vezes por dia”, “o cachorrinho tem telefone?”, “pode ser ou tá difícil?”, “quer assistir a uma corrida de submarino logo mais na lagoa comigo?”. Etc. Vocês, do sexo não oposto ao meu, felizmente, conhecem por demais.

Em primeiro lugar, antes de anunciar o primeiro lugar, aviso que esses livros afrodisíacos, equivalentes à lendária cantárida, só funcionam aqui nestas pragas de plagas. Façam aí vocês mesmos suas permutações. Agora sim ao primeiro lugar. Trata-se da autobiografia de Nelson Mandela. O famoso Longa caminhada rumo á liberdade. Aqui basta abrir no metrô para vir uma loirinha puxar papo e perguntar se temos programa para logo mais. Nem é preciso ler. Basta mostrar. É uma espécie de busto de pomba, cintura de vespa e lábios de mel da raça masculina. Uma Gina Lollobrigida ou Sofia Loren dos áureos tempos.

Depois que a loirinha sentou no banco ao lado e começou a puxar papo, em geral salpicado de malícia e “double entendres” picantes, o recomendável é continuar falando sobre livros. A comissão aconselha os senhores cavalheiros a dizerem que adoram Shakespeare. Tenho a impressão de que o velho Cisne de Avon, também singra nossas marolas, ali por volta do Posto 9, em Ipanema, com a diferença de que recomenda-se, não podendo afirmar que “só lê no original”, mencionar as traduções de Millôr Fernandes e nunca, jamais, em hipótese alguma, as de Onestaldo de Pennafort. O simples citar do nome desse que já foi um pequeno gigante imortal de nossas letras tem o efeito oposto ao que se deseja: as moças se mandam na mesma hora.

Poesia. E houve alguém, algum dia, que se negasse à sedução da poesia? Aqui tem poeta que não acaba mais. Vivos, mortos e mais ou menos. Aí é mais difícil. Mas Drummond e Vinícius nunca negaram fogo, ou, para ser mais preciso, poder de fogo. De Drummond, tente “E agora, José?” e “Resíduo”. De Vinícius (trate na intimidade, chame logo de “poetinha”), não tem por onde: “Receita de Mulher” e o “Soneto da Separação”. Fernando Pessoa, com todo sua leva de heterônimos, já foi o responsável por muita moça boa, ou boa moça, se perder, que era exatamente sua intenção inicial.

Atenção: 1.543 pessoas foram entrevistadas pela “Comissão da Cantada”, como eu prefiro chamá-la. Metade, garotões. Que vão de informática. “Facebook”, “My Space”, esses estrangeirismos, sem esquecer das lubricidades de Harry Potter e lascivas letras de música pop.

Dois achados interessantes. Dizer – e basta dizer, que moça alguma vai procurar conferir – que o Financial Times é o jornal de sua preferência, pois ele está lá em cima na lista. Juntamente com, ora, vejam só! Jane Austen.

 
 
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