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Atualizado às: 15 de dezembro, 2008 - 08h24 GMT (06h24 Brasília)
 
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Leituras: no corpo e na alma
 

 
 
Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Ninguém diz a verdade. Só se lê ou porque se está muito só ou porque se sente voraz necessidade de humana companhia. De cama e mesa. Aliás, pode deixar a mesa pra lá. A Domitila, ancila até certo ponto razoável, vai até o armazém, depois à feira, e prepara “qualquer coisinha” para, depois, enganarmos a fome.

Não se deve enganar os outros. A não ser com o objetivo específico de levar esses outros – em geral, outras – para o leito. É aceitável a explicação de que se lê, e bastante, para impressionar os amigos. A leitura aí é platônica e quase, quase se justifica como curiosidade intelectual. Vontade de se saber mais do mundo e algo de si mesmo. Esses troços.

Na verdade, 91% dos casos de leitura desenfreada nos anos de formação intelectual (“formação intelectual” é engraçado), quer dizer, lá entre os 16 e os 26 anos, é, sendo pudico, para impressionar as moças do sexo oposto, o melhor sexo que já se inventou, por falar nisso. Pouquíssimos homens lêem para impressionar outros homens. Se acontecer, tem frescura no meio.

Olho no olho, aquele papo de coisa de pele, uma porção de vilanias de que ouvi falar através dos anos e sempre evitei com a maior naturalidade. Verdade que as leituras de há quase 50 anos me ajudaram a alimentar uma saudável e discreta homofobia. Discreta homofobia para a época, compreensão de imensa valia nos dias céleres que corremos e que nos correm.

Resumindo: sem ser história em quadrinhos e revista com mulher pelada, todas as outras leituras não passaram de grossa enganação totalmente desnecessária.

Generalizei. Coronelizei. Tenentiei. Em homenagem aos militares, e muito mais civil do que se alardeia, que em 13 de dezembro de 1968, inauguraram, em nossa história bem mais violenta e arbitrária do que gostamos de admitir, o AI-5, tão lembrado nos jornais brasileiros dos últimos dias, tão esquecido, tão ignorado por – e a estatítica é de órgão oficial democrático atual nosso – 82% de nossas gentes.

Os que o viveram, trancafiados ou cassados, ou ambas as coisas, andaram dando suas lembranças nos jornais. Senti falta de mais dados, nomes, uma chegadinha em maior profundidade lá no miolo da área institucional. Estranhei tanta discrepância nos relatos. Deu nos jornais, deu nas revistas. Ah, como se deu neles! Que foram, sejamos francos, minha gente, muito menos censurados do que gostam de admitir.

Desviei-me completamente do assunto com que iniciei estas escrivinhações. Que ninguém lê pelo simples prazer de ler. Que se lê com um objetivo mais chão (ou leito) em pauta. Lê-se, em outras palavras, de mentirinha. Nem posso dar a desculpa do AI-5, pois à época eu já tinha lido o pouco, muito pouco, do que acabou por se tornar minha (risos) “formação intelectual”.

Estou entre os 82% de brasileiros que desconhecem o que tenha sido o AI-5. Minha desculpa? Não morar no Brasil à ocasião. E não haver nem internet nem celular. Só conheço como história oral. Quase como lenda urbana. Ou sertaneja.

Eu gostaria de fazer feito tanta gente boa e dizer que estava fora do país por motivos políticos, Talvez ano que vem eu diga. Mesmo assim, por ser, além de sacana, meio cínico, acredito em pouquíssimo das narrativas que naqueles dias - anos - andei ouvindo e, agora, nesses últimos dias, lendo. Abundam versões.

Quando voltei para o Brasil, em 1972, abundava-se adoidado. A tendência das versões é essa: abundar. Dados? Trabalhos investigativos e jurídicos? Não é conosco, não, senhor. À exceção da censura no jornaleco onde eu trabalhava, alguns processos por atentado à moral e aos bons costumes e uma ou duas inscrições na Lei de Segurança Nacional, não podendo, dest'arte, deixar o país, tudo indica que não fui atingido pelo AI-5. Acho. Desconfio. É o que me lembro.

Posso ter feito e estar fazendo uma pontinha numa de nossas milhares de lendas urbanas. Capaz de ser mentira minha. Não temos jeito de carregar no lombo a carga pesada da verdade. Não sei. E não saber já me parece um saudável progresso.

Eu não sabia nada antes de ler o primeiro livro (“Vovô vê a vulva da vovó”, creio que era o que dizia a cartilha). Continuo sem saber nada. Tudo que não sei devo às minhas leituras. Como todo mundo. Em qualquer lugar do mundo.

 
 
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