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Atualizado às: 11 de dezembro, 2008 - 17h03 GMT (15h03 Brasília)
 
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Manoel de Oliveira completa 100 anos em set de filmagem
 

 
 
Manoel de Oliveira (Foto: Jorge Trêpa/Divulgação)
Manoel de Oliveira é o cineasta mais velho do mundo em atividade
O diretor de cinema português Manoel de Oliveira comemorou seu aniversário de 100 anos na quinta-feira em um set de filmagem. Rodando o seu 42º filme, Oliveira é o diretor de cinema mais velho em atividade no mundo.

Segundo Oliveira, o motivo de não parar nem para o aniversário são os prazos. “Há uma necessidade imperiosa de filmar esse dia. O filme que estou rodando deverá ser apresentado no Festival de Berlim, de 5 a 10 de fevereiro. Sobra muito pouco tempo para a montagem”, disse.

O filme que está fazendo tem por título Singularidades de uma Rapariga Loira e baseia-se num conto de Eça de Queirós.

Oliveira revela pouco sobre o enredo – nem permitiu que um dia de filmagem fosse acompanhado por jornalistas.

“Inicialmente era para ser um filme de época, mas o produtor disse que ficaria caríssimo. Então adaptei para a realidade de hoje", disse.

Segundo o cineasta, o filme é baseado na idéia de que se conta a um desconhecido coisas que não se contaria a um amigo ou à própria esposa.

"No conto de Eça de Queirós, isso ocorria numa carruagem na viagem para Trás-os-Montes. Eu adaptei para uma viagem de comboio (trem) de Lisboa ao Algarve”, disse.

 Costumo trabalhar com um historiador, para verificar se não tenho erros históricos.
 
Manoel de Oliveira, cineasta

Ao chegar aos 100 anos, Oliveira deverá pela primeira vez na vida concluir em um prazo de três meses dois longa-metragens.

O próximo projeto já tem data para ficar pronto: o Festival de Cannes, em maio.

“Gostaria de apresentar um filme sobre o projeto O Estranho Caso de Angélica, que já é antigo, do princípio dos anos 50, e que eu atualizei para os dias de hoje", afirmou.

"O projeto inicial se fundamentava na fuga e perseguição dos judeus por Hitler. Este se baseia na fuga e perseguição que os judeus continuam a ter com os muçulmanos.”

Realismo

Uma das marcas do cinema de Manoel de Oliveira é o realismo. Em 1942, ainda antes de o cinema italiano ter iniciado o movimento neo-realista, ele filmou Aniki Bobó, um longa-metragem precursor desse estilo.

“Costumo trabalhar com um historiador, para verificar se não tenho erros históricos. No filme Non ou a Vã Glória de Mandar, tinha quatro historiadores”, disse.

Oliveira filma desde 1931, quando estreou o documentário Douro Faina Fluvial, sobre o duro trabalho dos pescadores do rio que banha a cidade do Porto.

Em sua opinião, o que mais mudou na forma de fazer cinema desde que começou foi a montagem.

“Na época, havia dois grandes diretores da Rússia soviética. O Dziga Vertov, de quem se dizia que não era verdadeiramente um artista, mas um engenheiro do cinema, e Eisenstein, o primeiro teórico da montagem.”

 Nós não determinamos o nosso destino, é o nosso destino que determina as nossas vidas.
 
Manoel de Oliveira, cineasta

Filho de um industrial da região norte do país, em 1933 participou como ator do primeiro filme falado de Portugal – A canção de Lisboa – e em 1935 foi piloto em corridas de automóveis.

Seu aniversário é dia 11, mas nos seus documentos o que consta como data de nascimento é 12 de dezembro: “Nasci no dia 11, mas me registraram no dia seguinte”.

A sua visão de vida é marcada por um fatalismo.

“Nós não determinamos o nosso destino, é o nosso destino que determina as nossas vidas. Não sabemos porque o destino nos pôs nessa Terra. Não somos senhores de nós próprios, dependemos de forças obscuras que nos dão os nossos impulsos”, disse o cineasta.

Para Oliveira, a idéia da morte é pacificadora: “Venha ao mundo como vier, a morte é sempre certa. Isso nos dá um certo conforto”.

O cineasta se define como ambientalista. “Os índios estão certos. São os únicos que sabem que se depende da natureza como dependem os animais”, disse.

Ele recusa fazer produções comerciais e não faz nada pensando no público que vai assistir aos filmes.

“Não penso no público porque não entendo essa palavra. Públicas são as cadeiras, as salas. As pessoas não são públicos, mas cada um com sua identidade própria e uma forma muito particular de ver e viver.”

 
 
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