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Atualizado às: 17 de novembro, 2008 - 14h09 GMT (12h09 Brasília)
 
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O príncipe sessentão
 

 
 
Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Sexta-feira, o Príncipe Charles, vulgo De Gales, colheu mais um repolho orgânico na horta de sua vida. A mídia noticiou. Poucos, mesmo entre o Joe Little People, congratularam-no.

Do fundo de minha poltrona na sala, vendo televisão, e mexendo (depois de uma certa idade não se lê mais jornais) nesta e naquela outra publicação, constato aquilo que está na cara há décadas.

O Príncipe de Gales não é o membro favorito da Famíla Real entre a população britânica. Muito pelo contrário. Ele é o menos dileto de todos, juntamente com o pai, Philip, o Duque de Edimburgo.

A mãe, que uma revista satírica, o Private Eye, insiste em chamar de “Brenda”, devido a seus ares de quem só lida com prendas domésticas, no entender da publicação quinzenária, já freqüentou os menos cotados da Família por um bom período de tempo.

No momento, seu cacife está em alta. O do marido, não. O do Príncipe melhorou um pouquinho. Muito pouquinho mesmo.

Favoritos: a Princesa Anne e a já falecida Rainha Mãe, que revelações feitas ainda agora em livro autobiográfico por um correspondente junto à Corte de Saint James, Adam Boulton, garantiam tratar-se de senhora esnobe e preconceituosa.

Por que é que o cidadão e a cidadã média britânicos não vão lá muito com Charles Windsor? É o jeitão dele. Como todo mundo em todas as partes do mundo. Não se simpatiza porque não se simpatiza. E pronto, é isso aí, conversa encerrada.

Como os britânicos ainda apreciam uma racionalização, já vi algumas tentativas de explicação. Todas pouco convincentes.

De um lado, alguém grita, ou batuca no computador, que ele é “petulante”. De outro, que “morre de pena de si próprio”. Os mais simplistas dão de ombros e alegam que ele tem aquele proverbial parafuso a menos. E citam: “essa mania de voltar-se para as mudanças climáticas e o meio ambiente”.

A interpretação mais óbvia é que ele fala demais. Dá um certo excesso de pelota para a mídia. Se explica mais do que deveria. Algum observador real – que os há à mão cheia por aqui – levanta a hipótese de que ele sente que seus esforços politicamente impecáveis não são devidamente apreciados.

Charles Windsor, o Príncipe de Gales, pegou o pião na unha, logo depois de sua investidura, em julho de 1969, e, independente de qualquer assessoria, de relações públicas ou o que seja, dedicou-se com denodado esforço na promoção de suas preocupações prediletas.

A saber, a medicina holística, ou alternativa, os produtos geneticamente modificados, a arquitetura tradicional. Alguns exaltados, nas gerais da vida, afirmaram: “pura hipocrisia”.

Convenhamos: viver em função da morte da mãe não é vida.

A mídia, na sexta-feira e no fim de semana, não perdeu tempo em traçar perfil e enfileirar feitos e frases.

Curiosamente, já que ainda há algum pudor no metiê jornalístico, houve um consenso no sentido de não rememorar seus anos de doloroso – essa a única palavra – casamento com Diana, Princesa de Gales, e o equivalente a um pau quebrando na cozinha, diante da criadagem, das crianças, do vovô e da vovó.

O episódio quem traiu quem com quem e como e onde foi devidamente resgatado para debaixo do tapete. No que eu, humildemente, concordo e vou enfileirando mentalmente os lugares-comuns que regem minha vida: águas passadas, moinhos, e coisa e tal. Camila, a Duquesa da Cornuália, mal chegou a fazer parte da equação sexagenária.

Uma coisa me aflige um pouco. Nos noticiários em que li até o fim (pois é, de vez em quando dou uma dessas) a ênfase toda foi toda em cima do fato de que Charles é o herdeiro que mais tempo levou até ascender ao trono.

Bateu o recorde detido por Eduardo 7º, que só pôs a coroa na cabeça e pegou do cetro aos 59 anos, após uma boa vida (lato sensu) de menos que discreta dissipação.

Segundo os historiadores. Charles ficou, e continua, apenas às voltas com seu Prince´s Trust. Cuidando e remediando destituições. O que não me parece uma má.

Que ele fala com árvores e plantas não chega a ser dissipação, nem leve e nem discreta. Sem falar que também não deve ser verdade.

Também não há mais ninguém gravando suas conversas telefônicas peculiares e particulares. Nem com a atual esposa nem com ninguém.

Em 1936, o recém-entronado Eduardo 8º virou herói popular quando, após visitar uma paupérrima aldeia de mineiros, no sul do País de Gales, declarou aos repórteres presentes: “É preciso que se faça alguma coisa”.

Difundida a vaga e inócua sugestão, voltou a ser Eduardo 8º, em sua corte e com seus palácios, Na época, discutiu-se muito nos círculos governamentais se o real pronunciamento não seria uma perigosa interferência política. No entanto, com uma única frase, Sua Majestade virou defensor dos pobres e oprimidos. Povo é fogo.

O Príncipe precisa de uma fada boa que o encante. Ou então de uma fada pragmática que dê uma boa varada de condão no cocuruto do povão.

 
 
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