30 de outubro, 2008 - 08h29 GMT (06h29 Brasília)
Marcia Carmo
De Buenos Aires para a BBC Brasil
A decisão do governo da presidente argentina Cristina Kirchner de nacionalizar o setor de previdência privada gerou uma forte crise de confiança no país, provocando, nos últimos dias, a alta do dólar, a queda no índice Merval da Bolsa de Buenos Aires, a retirada de depósitos, a maior procura por cofres nos bancos e preocupação entre investidores privados.
"A Argentina estava passando quase despercebida nesse momento de crise internacional. Mas, com esse anúncio (da nacionalização) acabou criando uma crise própria", diz o economista Fausto Spotorno, da consultoria Ferreres&Associados.
Segundo ele, o mercado financeiro interpretou que depois desta medida – que ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional – o governo argentino poderia "mudar outras regras de jogo" e, com isso, gerou "incertezas" entre investidores e assalariados.
Na opinião de outro analista econômico, Dante Sica, da consultoria Abeceb.com, a preocupação do governo e dos industriais era, até então, com a desvalorização do real e as conseqüências do desempenho da economia brasileira na Argentina. "Mas agora a atenção está voltada para os passos internos", disse.
Um assessor de comunicação de um grupo de empresas privadas, que pediu anonimato, contou que a "dúvida" na direção das companhias é saber se o governo terá representantes e poderá "influenciar nas decisões" das mais de quarenta empresas onde as administradoras de previdência privada possuem ações – incluindo bancos, empresas de construção, de energia e de comunicação.
"Essa é a preocupação de muitas empresas hoje", contou.
Dinheiro no cofre
Este ambiente de dúvidas provocou, nesta quarta-feira, a disparada do dólar, que começou o dia cotado a 3,44 pesos – na véspera tinha fechado a 3,36, valor mais alto em cinco anos.
No fim do dia, a cotação foi de 3,39, graças à intervenção do Banco Central.
O índice Merval da Bolsa de Buenos Aires fechou, nesta quarta, com alta de 2,6%. Mas este indicador acumula queda de 42,5% em outubro e de 57,3% no ano.
Ao mesmo tempo, os bancos passaram a oferecer taxas de juros mais altas para aplicações em renda fixa, na tentativa de reter os depósitos nos bancos.
Dois gerentes de bancos privados contaram que aumentou, nos últimos dias, a procura por aluguel de cofres nas entidades bancárias.
"Mas os cofres estão ocupados, na maioria dos casos desde a crise de 2001", disse um deles. "Aqui temos fila de espera", disse o outro.
Analistas de diferentes tendências entendem que hoje a Argentina está "longe de repetir" a bancarrota de 2001, mas acham que, na dúvida, os argentinos preferem ter o dinheiro na mão – a desconfiança no sistema político e financeiro é tradicional devido ao histórico de altos e baixos no país.
Na loja de cofres Borges, no bairro de Belgrano, o gerente Pablo Porto contou que a demanda pela compra do produto aumentou em 15% neste mês.
"Não registramos agora o que aconteceu em 2001, mas tem mais gente querendo cofres para casa ou para a empresa", afirma.
Segundo dados do Banco Central, quase US$ 6 bilhões deixaram o sistema financeiro entre julho e setembro deste ano.
Brasil
O governo estima que conta com os votos suficientes no Congresso Nacional para aprovar a nacionalização da previdência privada.
Líderes sindicais defenderam o projeto do governo.
Por sua vez, políticos de diferentes tendências afirmam que a previdência privada, como está hoje, deveria ser modificada ou extinta, mas discordam de como a medida foi lançada, sem debate prévio.
Ao mesmo tempo, a oposição quer que o governo deixe claro onde aplicará estes recursos – cerca de US$ 30 bilhões.
Nesta quarta, o superintendente do setor estatal de previdência (chamado Anses), Amado Boudou, falou sobre a determinação de que os recursos do setor de previdência privada aplicados no Brasil sejam repatriados.
"Não pode ser que empresários argentinos queiram produzir e investir aqui, mas os fundos façam investimentos no exterior. Por isso pedimos que tragam este dinheiro, investido principalmente no Brasil, de volta em três dias", afirmou à TV América.
Seja como for, a medida do governo foi criticada também pelo vencedor do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, que era simpático ao modelo econômico atual.
"No ano passado, os argentinos escolheram entre o sistema público e privado. Por isso, não concordo com a medida atual. Eles fizeram uma escolha", disse.