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Atualizado às: 24 de outubro, 2008 - 07h47 GMT (05h47 Brasília)
 
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Como ser britânico (ou estrangeiro)
 

 
 
Ivan Lessa
Em 1946, logo depois da guerra, o húngaro George Mikes (pronuncie Mi-kej), que aqui no Reino Unido fixou residência, publicou um livro que acabou sendo um imbatível best-seller por anos a fio.

Tratava-se de Como Ser Estrangeiro e vinha com o subtítulo de “Um manual para iniciantes e alunos mais avançados”. Mikes, que muitos aqui mesmo pronunciavam “mikes”, como se fosse o plural em inglês de microfone, coisa típica de inglês, enfileirou a partir do sucesso inesperado uma penca de livros, todos de excelente venda.

No prefácio do volume em questão, Mikes ponderava que, sem indevida modéstia, reunia várias qualificações para escrever sobre o tema, uma vez que ele próprio era um estrangeiro. E estrangeiro fora a maior parte de sua vida.
Com uma ironia e um humor que nós, estrangeiríssimos, burríssimos, nunca suspeitáramos nos húngaros.

Vivera Mikes até os 26 anos na Hungria, um país que ele dizia estar “repleto de estrangeiros”. Aí, pois, suas credenciais. O que não se esperava é que em tão pouco tempo escrevesse em inglês tão castiço, onde destacava-se o humor, o famoso e inglesérrimo humour, justo na maneira da terra que adotara.

Lembro-me do primeiro capítulo e sua primeira frase:

“Na Inglaterra, tudo é ao contrário”.

Daí, George Mikes engatava uma segunda e uma terceira e ninguém o pegava mais.

Bons tempos em que inglês era (quase) a mesma coisa que britânico. Outros tempos, outros modos. Nem tudo é mais ao contrário aqui. Pelo contrário, se me permitem um aparente paradoxo verbal. Como sou estrangeiro há mais de 30 anos seguidos, ou 34 ao todo, sei que ainda não aprendi nada. Mas presto muita atenção. Feito o papagaio da anedota.

***

Corte abrupto para 2008. Semana passada mesmo. Onde saíram diversas críticas, ou melhor dizendo, resenhas do livro Um guia para os britânicos. O título, como o de Mikes, diz exatamente do que se trata. Sarah Lyall é uma americana casada com um cidadão britânico e residente nestas ilhas há 13 anos.

Narra ela, logo na introdução, como se deu conta de que estava “virando”, por assim dizer, britânica – ou a inglesa de Mikes. Certo dia, no cabeleireiro, a autora desabou escada abaixo, deslocou o omoplata e suas primeiras palavras após o infausto acontecimento foram para pedir desculpas. “Sorry”, disse ela para quem quisesse ouvir. Após alguns momentos de dores intensas, Sarah acrescentou: “É possível que, a uma certa hora, eu vá necessitar dos serviços de uma ambulância.”.

Pequeno e sucinto resumo do que é ser britânico. Meio sobre um lugar-comum cada vez mais incomum, sugiro eu, já com medo de apanhar ou levar uma facada.

O livro, de 277 páginas, foi elogiado como sendo elegante, espirituoso e perceptivo, sem em momento algum se derramar de amores pelo país adotado. Sarah Lyall gosta de um bom futrico, de um caso bem contado e das contradições inerentes ao caráter dos britânicos. Desfaz, ou se mostra perplexa, com alguns mitos: que história é essa de “famosa reserva britânica”? E prossegue apontando para o anárquico desaforismo reinante na Câmara dos Comuns, onde, em dia célebre, o deputado socialista Tony Banks referiu-se à senhora Margaret Thatcher, primeira-ministra na ocasião, como uma “jibóia sedenta de amor”. Ou, lá pela mesma época, outro deputado, Terry Dicks, que, a propósito da mesma Thatcher, disse que “ela era prova viva de que uma bexiga de porco pendurada num pedaço de pau conseguiria ser eleita para o Parlamento”.

Segundo Sarah Lyall, isso seria impensável no Congresso americano. Barack Obama ou John McCain, mesmo acirrados e enfezados, jamais, em hipótese alguma, dentro ou fora de campanha eleitoral, recorreriam a esse tipo de retórica. Verdade que Lyall não esmiúça a questão da retórica em seu país de origem, mas isso são outros 700 trilhões de dólares, conforme se diz no alto mundo das finanças americanas.

Sarah Lyall também se mostra impressionada com tudo aquilo que impressiona a turista brasileira oriunda de Dores do Indaiá: a mudança da guarda, os títulos, as vestimentas de tribunos e soldados da Rainha, o – claro – senso de humor que supostamente reina país afora desde os tempos de, quem?, Shakespeare, para ficar em outro exemplo de suposto impacto.

Talvez a parte mais interessante e reveladora de quem são esses estrangeiros que nos cercam, a mim e a ela, seja a referente ao “mágico” David Blaine, que, outro dia mesmo, encasquetou de se trancar num caixão de Plexiglas perto da London Bridge, sem se alimentar ou mexer durante 44 dias.

Os ingleses (aí sim, estamos na Inglaterra, Londres) ficaram impressionados? Aqui, ó, que ficaram. Foi gente que não acaba mais lá rir do homem, jogar banana nele e um engraçadinho, bem-humorado, por certo, chegou a fritar cebolas debaixo do bruto.

Mocinhas mostraram os peitos para David Blaine, rapazes mostraram o traseiro, alguém tentou na moita passar-lhe fraldas. Enfim, uma esculhambação total. A namorada de Blaine chorou. O resto da cidade e do país limitou-se a registrar os fatos. Se é que achavam que esses fatos valiam a pena. Afinal, era apenas mais um estrangeiro, fazendo suas estrangeirices.

Eu fico quieto no meu canto. Só urubuservando. Como decidi após quase quatro décadas deste Reino Unido. Sou um estrangeiro. Mas em silêncio e incomodando o menos possível meus, agora, e mais ou menos, semelhantes. A possibilidade de levar uma garrafada fuça adentro também contribuiu para minha decisão.

Cada estrangeiro sabe onde lhe dói o passaporte.

 
 
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