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Atualizado às: 13 de outubro, 2008 - 08h13 GMT (05h13 Brasília)
 
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Prêmios Ig-Nóbeis
 

 
 
Ivan Lessa
Eu sou muito ignorante mesmo. Conhecia, de nome e vista, o Prêmio Nobel. Sei que é um dinheirão, imensa distinção, e sou capaz apenas de mencionar, com alguma forcinha, uns Nobel de Literatura e de Paz.

Sou principalmente capaz de lembrar, como todo mundo que já leu dois livros, que Proust e Joyce não ganharam Nobel. Paz é mais embaixo. Kissinger levou um. Logo quem.

Sempre ouvi falar de uma premiação alternativa bolada por uma debochada agremiação norte-americana, com sua própria revista acadêmica (Anais de Pesquisas Improváveis), que há décadas vem distribuindo os seus próprios prêmios, a que batizaram com o feliz nome de Ig-Nobel.

Tão feliz que até em português funciona. O objetivo está no título. Contemplar aqueles que contribuíram para o que de mais ridículo ou absurdo foi obtido em suas respectivas especialidades. O Ig-Nobel acabou virando um marco em seu gênero. Se houvesse Nobel, o outro, o de verdade, para bom humor, a turma do Ig (não confundir com o provedor brasileiro) levaria fácil.

Aliás vou chamar de Ígui, para evitar mal-entendidos.

Os Íguis são entregues num auditório, sempre repleto, para mil pessoas. Neste ano, os contemplados tiveram precisamente 60 segundos para expressar seus agradecimentos – ou o que lhes desse na telha. Uma menina de oito anos presidiu aos trabalhos e cronometrou as aceitações. Frise-se: gente que levou o Nobel de verdade tem o costume de comparecer. Claro. Muito importante mostrar bom humor nessas horas.

Ao que interessa. Quem levou o quê e porquê este ano?

A festança coincide com a verdadeira divulgação dos Nobel de batata, e atenção para a coincidência, este ano, o Ígui para Nutrição coube à Universidade Oxford, onde Charles Spence, professor de psicologia experimental provou (por A mais B e mais C, inclusive) que os “crisps”, aquelas batatinhas fritas de saquinho, que os britânicos amam, ficam mais gostosos quando acompanhadas do ruído de alguma coisa sendo triturada.

No setor Física, o Ígui foi para Dorian Raymer, do Instituto Scripps (não confundir com “crisps”) de Oceanografia, na Califórnia, que descobriu porque corda, cabelo e cabos ficam mais cheios de nós quanto mais longos forem.

O Ígui de Química teve de ser rachado. Entre Sharee Umpierre, da Universidade de Puerto Rico, e Chuang-Ye Hong, da Universidade Médica de Taipei. Sharee descobriu que a Coca-cola é um espermicida. Chuang-Ye, demonstrou que não, de jeito nenhum. Nada se disse da Pepsi.

Marie-Christine Cadiergues, na Escola Veterinária de Toulouse descobriu que as pulgas pulam mais alto no pelo dos cães do que no dos gatos. Ígue para ela.

Dan Ariely, da Universidade Duke, demonstrou, de forma patente, e genérica, que os placebos caros são mais eficientes na luta contra a dor do que os placebos mais baratos.

Atenção, Brasil! Peito erguido! Bandeiras também! Paratimbum! O Ígui de Arqueologia foi para um brasileiro (repetindo: um brasileiro! Para os surdinhos não ficarem por fora), Astolfo Mello Araújo, da Universidade de São Paulo, por seu trabalho na aferição e no medir como o conteúdo de uma escavação arqueológica pode ser dividida e atrapalhada pela ação impensada desse nosso irmão irracional, o tatu.

Pequeno parêntese patriota: fiquei indignado ao saber que a distinção foi praticamente desprezada pela maior parte de nossa mídia. Tsk, tsk.

Toshiyuki Nakagaki, da Universidade Hokkaido, no Japão, que descobriu que os organismos amebóides conseguem resolver “puzzles”. Não ficou claro se isso inclui sodukus ou palavras cruzadas.

E finalmente Jean-Marie Gustave, ou JMG, Le Clézio, romancista francês autor dos recentes L'Africain (2004) e Ourania (2006) que, depois de décadas sendo autor experimental passou, assim de repente, a escrever bonitinho, com começo, meio e fim, e entendido por (quase) todo mundo. Embora conhecido por bem menos gente do que isso.

Le Clézio tem perto de 20 obras publicadas, sendo que várias no Brasil. O ficcionista francês mora há alguns anos no Estado do Novo México, nos Estados Unidos, onde é tido como o maior escritor francês vivo residente naquela aprazível localidade. JMG levou o pastel premiado na quinta-feira passada e suas primeiras palavras confirmaram a tradição oratória da língua de Molière e Valery Larbaud. Disse sentir-se muito honrado.

Pena que as regras das duas congregações, a Ígui Nobel e o Nobel propriamente dito, não permitam a inclusão simultânea de uma pessoa em ambas as premiações. Isso, claro, segundo as más, as péssimas, línguas.

 
 
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