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Atualizado às: 08 de outubro, 2008 - 08h59 GMT (05h59 Brasília)
 
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'Eu preciso ir lá fora'
 

 
 
Ivan Lessa
É feito no colégio quando a gente queria ir fazer pipi. Levantava a mão e a professora (era sempre uma professora, ou “fessora”) perguntava o que era. Meio sem graça, às vezes orgulhoso, pois criança é um bicho gozado, a gente explicava com a frase que dá título a esta coluna.

O “lá fora” ficava ou do outro lado do pátio interno ou no corredor das salas de aula. Explicar o que se quer fazer, em qualquer idade, é sempre feito ontem: meio sem graça.

Em companhia mista, com ou sem intimidade, e na presença de senhoras ou senhorinhas, conheço muitos que simplesmente dizem que vão “empoar o nariz”. Homens, claro. Acham engraçado. Há os que dizem que vão ao banheiro. Esses mais comuns. E, infelizmente, os que querem dar uma chegada ao mictório.

Mictório é uma palavra danada de manhosa. Mictório é no botequim. E botequim vagabundo. De safadeza, um amigo meu, em festinha família, garotão, gostava de perguntar, muito educado, à dona da casa:

"Minha senhora, onde é que fica o mictório?"

Tacava ainda, de lambuja, um baita de um circunflexo na gentil dama em questão. Invariavelmente, de safadeza, creio, voltava à sala das festinhas com um botão da braguilha desabotoado.

Garoto se diverte com cada besteira.

O preferível, pelo menos para meu gosto, e se é que se torna necessário anunciar, como um locutor no Maracanã, opto pelo tradicional e inodoro (inodoro é importante), “Eu vou lavar as mãos”.

Sem precisar perguntar onde fica o… o… banheiro, o toalete… Pois é. Não é simples como pedir uma média com pão e manteiga no café ou mais um cuba-libre.

Filme mudo ajuda muito. Na linguagem dos lugares públicos – bares e restaurantes – fazer o tradicional gesto para quem está nos servindo. Com a expressão interrogativa, esfregar uma mão na outra. É, é lá no fundo mesmo. Ao lado da entrada para a cozinha. Cuidado para não olhar. Para dentro da cozinha, digo. Vai se chatear.

Não se deve perguntar pelo banheiro em Portugal ou para garçom português em Londres. Um amigo almoçava comigo e sentiu vontade de “lavar as mãos”. Perguntou para o distinto que nos servia onde ficava o banheiro. O homem, muito espantado, perguntou se ele queria tomar banho. Absolutamente verídico. Foi com o Francis. No “Spaghettiland” de Haymarket.

Com minha vasta experiência de férias em Portugal, expliquei que era o lavabo o que o companheiro procurava. Lavabo. Boa palavra. Difícil um garçom português, mesmo o mais letrado e ex-coroinha, confundir com aquele ritual da lavagem dos dedos durante a missa, segundo a liturgia católica.

Em todo caso, como dizem os britânicos, que já viram de tudo, Who knows? Who knows?

Na Universidade de Manchester, no momento, trava-se uma movimentada discussão entre seus alunos. Não, nada a ver com a crise financeira mundial, as eleições nos Estados Unidos ou no Brasil, ou o conflito no Oriente Médio. Mais simples que isso. Ou mais complicado.

Um sindicato de estudantes está mudando todas as placas de todas as instalações sanitárias. Onde se lia “Damas” e “Cavalheiros”, ou seu equivalente, querem porque querem, primeiro, rotular o que atualmente são chamados de “lavatórios” por “toaletes” ou “toaletes com mictórios”, e, segundo, torná-los acessíveis a transsexuais e travestis.

Uma porta-voz oficial do sindicato estudantil mancuniano, Jennie Killip, argumentou que a medida removeria o aspecto abertamente sexista do ato de se ir à casinha.

Casinha. Exatamente. Eu ia me esquecendo. Lá em São Paulo, na minha infância, urbana e de classe média, até uma certa idade, era assim que ouvi chamarem. Casinha. Deviam ser avós ou tios mais velhos, pessoal de outros tempos, meio caipirões, acostumados, de fato, a casinhas no quintal do lado de fora da casa principal, e lá se fazia tudo que era necessário.

Tinha urinol também. Mas nesse eu não vou, em nenhum sentido, entrar. As casinhas eram unissex. Conforme se quer na progressista Manchester hodierna. Só que travestis e transsexuais eram então, na velha São Paulo, me parece, mais raros.

 
 
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