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Atualizado às: 12 de setembro, 2008 - 09h49 GMT (06h49 Brasília)
 
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Da arte de governar
 

 
 
Ivan Lessa
“Governar é abrir estradas”. Sempre ouvi, em meus dias de juventude estudantil, essa citação. Não sabia quem a dissera. Sempre a atribui a Getulio Vargas, presidente que atravessou mais de uma década de minha mocidade.

Qualquer coisa, e quando em dúvida, bastava botar na boca do “bom velhinho”, que, afinal de contas, ficara na marra no poder por 15 anos, tendo chamado a estes três lustros de “curto espaço de tempo”.

Alguma coisa a mais, o “baixinho” tinha que ter dito, não valendo os discursos que invariavelmente, nas ocasiões apropriadas – e como havia ocasiões apropriadas --, começavam com “Trabalhadores do Brasil”, carregando à maneira do sul no L.

Todo cômico de teatro-revista imitava “Gegê”. Até eu, na hora do recreio. Não fiquei de castigo e nem fui em cana. “Rebeco, o Inesquecível” podia ser ditador, mas, se o era, e o foi, pertencia à categoria de “déspota esclarecido”, ora em desuso.

Tão déspota, tão esclarecido, tão “pai dos pobres”, como o apodava, que, menos de cinco anos depois de deposto por outros militares como ele, foi eleito por aclamação popular.

Não se fazem mais ditadores como antigamente, digo eu recorrendo a um chavão inglório.

A frase, afinal de quem era a frase sobre governo e a abertura de estradas? Ora, do Washington Luiz, um dos poucos presidentes brasileiros do século 20 a usar barba e bigode. Fato que, em 1930, muito desagradou os militares. Tanto que, no ano de 1930, resolveram dar um golpe, pondo assim um fim não só à política do café com leite (sem pão e manteiga) como, simultaneamente, mandando para um gostoso exílio o ex-presidente eleito legítimo pelo povo.

Além do bigodinho e do cavanhaque, a frase “Governar é abrir estradas” foi o que ficou do saudoso político paulista. Abriu estradas. Governou. Nada impediu, no entanto, que seguisse de avião para o exílio na Europa e nos Estados Unidos.

Washington Luiz foi uma espécie de precursor de nossa diáspora. Pode ter governado por pouco tempo, pode ter aberto pouquíssimas estradas, mas descobriu o roteiro aéreo para o exílio, na época forçado por milicos e não circunstâncias.

Atualização Século 21

Suspeito que o atual presidente brasileiro, não vendo mais necessidade de abrir estradas, uma vez que todas já foram abertas (se dão para algum lugar é outra conversa), adotou uma política mais realista do que seu velho antecessor. Mais energética. Menos “café com leite”. Mais por sobre o “café créme avec tartine beurrée”. Deve estar dando certo. Até agora a turma de verde oliva não mexeu com ele.

Outro dia, googlando aqui e ali, dei com a notícia de que Lula Da Silva (ele também dono de atraente bigodinho e cavanhaque) criou mais entidades e cargos do que qualquer outro presidente de nossa República Federativa do Brasil.

O mais recente exemplo passou quase despercebido no país em questão (a distância e o tempo me obrigam a certos pudores). Foi noticiado de mansinho, assim como quem não quer nada, num canto de página par, letra em corpo e cinturinha mínima. No dia 29 de agosto. Próximo e passado.

Resumindo o que só pode, e deve, ser resumido, registrava o fato de que, de um só golpe de caneta ou uma digitada certeira, o atual líder da nação criara quatro novos órgãos e 13.492 cargos públicos.

Os órgãos são, a saber, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), a Secretaria de Atenção Primária e Promoção de Saúde (Sapps?), a Superintendência Nacional de Previdência complementar (Previc) e o Ministério da Pesca e Aquicultura (este último em breve sem trema).

E vem aí: ainda este ano, 72.549 cargos e funções serão comissionados, além dos 13.492 previstos inicialmente.

Mudam os tempos, adaptam-se as frases lapidares: “Governar é criar novos órgãos e cargos públicos”.

Em exílio não dará. Garanto.

 
 
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