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Atualizado às: 01 de setembro, 2008 - 08h20 GMT (05h20 Brasília)
 
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Canção de na bica da volta
 

 
 
Ivan Lessa
Eu quero saber, juntamente com meus sete leitores (eram seis; um apareceu em julho, coitado), o que, afinal de contas, é que estou fazendo em Londres. Hem?

Vida cada vez mais cara, diminui a olhos vistos e ouvidos sentidos a ausência de ingleses vagamente semelhantes àqueles das lendas urbanas e – essa ainda por cima – justamente agora que eu já passei mais de 30 anos ausentes da terra e do torrão natal a coisa não poderia estar melhor para Brasil e brasileiros.

Nisso que dá ser alfabetizado. Sempre defendi, diante de protestos e porradas gerais, o nosso analfabetismo como uma forma superior de crítica beirando a maneira zen de se manter por cima dessas coisas desagradáveis que nos cercavam.

Eu disse, “cercavam”. E disse-o bem.

Vendo e lendo (é nisso que dar aprender que “Ivo viu a uva”) um prestigioso semanário brasileiro, descobri, em matéria não-paga (nada que se pareça com os ubíquos “informes publicitários”), em mais de 60 páginas coloridas, fervorosa e minuciosamente escritas e descritas, que, para voltar ao vocabulário chulo que nunca deveria ter abandonado, o quente, o sensacional, o fino e bom mesmo é o tal do Brasil.

Nunca tantos passaram tão bem em tão imenso país em tão curto espaço de tempo. Finalmente, o “Pra frente, Brasil”, deixou de ser slogan e, agora, depreendo, sempre chulo, “chegamos lá”, “estamos aí”, “falamos e dissemos”.

Como é que eu poderia adivinhar pelas páginas da mídia gringa (à exceção ocasional do Financial Times) que “a população e a riqueza estão mais uniformemente distribuídas pelo território nacional” e que os responsáveis por este “novo e positivo fenômeno” são a soja, essa “riqueza do cerrado”; a “cana, doce vida ao redor das usinas”; o ferro e o aço, “metais agora preciosos”; petróleo, “o combustível de 1000 municípios”; automóveis, “o país das montadoras”; portos, “cidades que emergem das águas”; indústria têxtil, “ela cria um novo tecido social”.

Eu distribuo aspas com o gesto impávido de quem lança grãos de soja por nosso solo fértil.

Prossegue a revista enfileirando e dissecando com bisturi afiado os oito motores do desenvolvimento (sim, é duro dissecar motor com bisturi, mas quem nos segura neste século 21?), que são, mais do que nossos lendários recursos naturais, agora também a indústria e as grandes obras de infra-estrutura – trocando não em miúdos mas em notas de mil reais, tudo isso aponta para uma nova rota, um novo mapa de prosperidade para o Brasil.

Após fotos de gente bela e forte, inzoneiros todos, em diversas atividades progressistas, vem toda uma série de cidades, que eu nunca ouvira falar, mas a que passo, neste mesmo instante, a tirar o chapéu e o cachecol para elas, devido aos motivos que levaram às suas inclusões no precioso exemplar que, na primeira oportunidade, mandarei orgulhoso e algo arrependido (de ter ido embora, que fique claro) encadernar.

Lá está Sorriso, em MT, que, de grão em grão, em trinta anos passou de mato a capital da soja. Lá está Pradópolis, em SP, que mostra como podem ser conciliados desenvolvimento social e ecologia.

Lá está, Vilhena, em RO, que em apenas 30 anos passou de entreposto de gado no Norte para ostentar “indicadores sociais dignos do Sul Maravilha”. Lá está Ouro Branco, em MG, onde “o ferro convertido em aço produz riqueza, desenvolvimento e cultura em Minas Gerais.”

E assim por diante. Como vocês todos estão cansados de saber, usufruir e bater no peito, antes de partir para a diáspora. De gráfico em gráfico, box em box, retranca em retranca, lá está, ao lado de um índio com as vergonhas de fora, na página 117, um longo texto, “Retrato de um Brasil gigante”, onde é explicitado o neo-ufanismo que se nos acomete. Ou acomete a publicação em questão juntamente com seus leitores.

Estou agora a cuidar da papelada para a viagem, a longa viagem de volta, com sua devida expiação – subirei de joelhos a escadaria da Igreja da Penha, recitando as letras de tudo quanto é samba-exaltação a constar de nossa cancioneiro (ou songbook, conforme se diz em Jaraguá do Sul, SC e Ipojuca, PE,) de Aquarela do Brasil a Brasil Usina do Mundo, sem me esquecer de Canta Brasil (…minha voz enternecida...) e o recém-composto 200 Milhões em Ação.

Perdão. Conforme compôs Antonio Maria e Dolores Duran gravou: meu lugar é aí. Faz de conta que eu não saí.

 
 
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