BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 20 de agosto, 2008 - 10h15 GMT (07h15 Brasília)
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
Férias: onde e como passá-las
 

 
 
Ivan Lessa
Acabou-se o que era doce. E como é doce nosso avozinho Portugal. Das trouxas-de-ovos ao sotaque da senhora do pequeno armazém no Largo da Assunção, em Cascais.

Verão? Lá, como cá, mal deu o ar de sua graça. Uma sem graceza de vento, o solzão lá, sim senhor. Sempre, no entanto, o ventinho danado de estraga-prazeres.

Entre os passatempos cascaenses, o de acompanhar o tempo em Londres. Não houve, não está havendo, não haverá verão. Não chegou a passar das eliminatórias para o aquecimento global. Arrefecimento global, isso sim.

Que fiz? Ora, comi bacalhau, fiquei lendo os jornais locais e um livro de beira de piscina justamente à beira de uma bela pixina, para trazer de volta um tico do sotaque que, esperemos, não será nivelado nem por baixo, por cima ou pelos lados por academias de ciências letristas ou outras que seja.

Pixina. Vi Michael Phelps. Torci contra. Torço contra. Espero que ainda anulem todos os seus doirados resultados num exame antidoping dopadíssimo. Muito triunfalismo demais para minha beleza. Para adotar modos de falar antigos que, sempre e sempre, retornam a mim em época de férias, como o cão fiel que encontra por mais distante que esteja o caminho de casa.

Como podem notar, minhas férias não primam pelo espetacular em matéria de conhecer lugares novos. Não há mais lugares novos neste mundo de Deus depois que se chega a uma determinada idade e um ponto de saúde. Tudo vira observação beirando invariavelmente a tolice. Observei, pois. Tomei notas e recortei jornais.

O que é que houve nas férias de Cascais, em Portugal?

Ora, pois, pois.

Em vias de lançamento um computador portátil para crianças. Inteiramente construído em Portugal. A produção de cada aparelho vai custar 180 euros e levá-lo a meio milhão de petizes (petizes, Senhor, petizes!) a preços bem inferiores – entre 20 e 50 euros. Não vou recorrer à baixaria de converter euro em real ou dólar. Digo-vos, e peço que me acreditem, que por 50 euros se come magnificamente em Lisboa no Farta-Brutos, um esplêndido restaurante na alta, todo decorado com gente famosa e freqüentado e citado em sua obra pelo também esplêndido José Saramago.

Portugal e Brasil são os únicos lugares do mundo onde admito uma certa intimidade com os garçons. Com garçãos, jamais. Como as pessoas que freqüentam a casa de pasto em questão estavam todas de férias no Algarve ou em Londres, no dia em que lá comi não havia ninguém a não ser eu, minha mulher, um amigo e um cidadão possivelmente alto funcionário de uma empresa comercial. Conversei, pois, com o Ramiro, que nos serviu os joaquinzinhos (podem chamá-los de manjubinhas, que eles não ligam) e os filetes de polvo, sobre as fotos que enfeitam o restaurante.

Ele me trouxe à mesa alguns brasileiros de outras brutas fartações: Jorge Amado, José Sarney, Marco Villaça, outros acadêmicos a favor, possivelmente, e com igual entusiasmo, do bacalhau à lagareiro e o cherne na grelha, e a unificação da língua portuguesa do Brasil válida para São Tomé e Príncipe principalmente. Cobri-me hipocritamente de admiração e pedi mais uma imperial (é um chope pequeno).

Eu falava em 50 euros e informática. Mas motivos de força maior – comer em Lisboa – levaram-me a outros caminhos, os gastronómicos (sic). O importante no portátil para a petizada é o nome. Não vai se chamar Starville ou Charlton, mas – e muita atenção – Magalhães.

Céus! Mesmo velho e mazelado, como eu gostaria de ter um Magalhães. Nele escreveria, bafejado por musas alentejanas, quiçá as mais deliciosas e borbulhantes crónicas (sic de novo) de viagens de férias.

...

Ah, sim. Eu ia me esquecendo. Dois brasileiros armados tentaram assaltar uma agência bancária próximo a Lisboa, ainda que felizmente distante do Farta-Brutos. Fizeram reféns. Um deles foi morto pela tropa de elite portuguesa. Um Manoel atirador dos mais mirolhos. Dos 150 mil brasileiros tentando sobreviver na cidade, uma brisa de medo da xenofobia soprou marota neste verão de comprovado arrefecimento global.

 
 
Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
A monotonia das férias
25 julho, 2008 | BBC Report
Mateus, primeiro teus rosés
23 julho, 2008 | BBC Report
Meu Portugal brasileiro
21 julho, 2008 | BBC Report
Implicâncias
18 julho, 2008 | BBC Report
Qual é o pó?
16 julho, 2008 | BBC Report
O escargot não é deles
14 julho, 2008 | BBC Report
Un tropezón
11 julho, 2008 | BBC Report
Coletes: à prova de facas e gatos
09 julho, 2008 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade