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Atualizado às: 21 de julho, 2008 - 10h32 GMT (07h32 Brasília)
 
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Meu Portugal brasileiro
 

 
 
Ivan Lessa
Monótono que sou, lá vou eu de novo, pela enésima vez, passar umas três ou quatro semanas em Portugal. Lisboa. Estoril. Cascais.

Não tenho mais interesse pelos lugares que não conheço. Sou mais os cartões postais, as fotos nas revistas dos jornais de domingo e os documentários na televisão.

O Rio de Janeiro, com que privei, até um certo de alguma intimidade, não me diz nada. Com boa vontade, num dia mais chato do que os comuns, me lembro disso ou daquilo outro. Tudo coisa que não está mais lá. Só gente que morreu.

Não acompanho política ou lazer estrangeiro, simplifico em minha resposta nas poucas vezes em que sou perguntado. Felizmente cheguei a uma idade e a um temperamento visível que afasta os outros da possibilidade de uma indagação ou até mesmo um papo.

O homem forte é o homem só, digo em voz alta para a gata, que também não me agüenta mais. Ou então está pouco ligando.

Tudo em seu lugar

Estava eu a caminho de Cascais. Quero encontrar tudo direitinho em seu devido lugar. Exatamente como estava no ano passado. E no retrasado. E por aí afora até chegar 1984, quando não fui visitar o meu país avozinho, mas dei uma chegada a Disney World. Para ir repetidamente no barquinho ver Os Piratas do Caribe e a Casa Fantasma.

Menti e minto esses anos todos dizendo que só fui à Flórida por causa de minha filha. Sou uma víbora. A menina foi praticamente forçada e ameacei deixá-la um mês sem ir ao colégio se não nos acompanhasse, sempre com um sorriso no rosto e fingindo boa vontade, a mim e à mãe dela, a St. Petersburg e, depois, Tampa e Orlando. Funcionou.

O resto, todos esses julhos e partes de agosto, couberam a "seu" Manuel, da venda, e Dona Maria, que faz a limpeza do apartamento que dá para o imenso jardim e a enorme piscina, que só pronuncio como os locais: pixina. Numa pixina, nado. Numa piscina, afundo.

Quero encontrar tudo direitinho em seu devido lugar, disse há pouco. Não vai dar. Acabo de ler num sítio (é site, pô) brasileiro que os brasileiros se tornaram, pela primeira vez, a mais numerosa comunidade estrangeira em Portugal.

Que bom. Então devem ter melhorado a picanha e aprendido enfim a preparar uma caipirinha. Falta de mão-de-obra não foi. Vejam lá. No relatório anual do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) registrou-se, no ano passado, a presença de 66.354 brasileiros em Portugal, o que representa 15,2% do total de 435.736 estrangeiros residentes no país.

Vice-campeão

Foi expressivo o fluxo migratório brasileiro para Portugal, encaixa o tal relatório. Acrescentando que, em termos de nacionalidade dos inquiridos em processos-crime sob investigação, os cidadãos ocupam o segundo lugar.

Logo depois de quem, de quem? Logo depois dos portugueses, ora pombas! É "clago", conforme dizia Antonio Maria, que afirmava que os pobres de espírito não sabiam pronunciar "claro".

Sou, somos, uns azarados. Parece coisa de meu time. O Botafogo. Campeão de vice-campeonatos.

3.963 brasileiros tiveram recusada sua entrada em Portugal. Não sei se pegarei uma sobra desse clima no aeroporto da Portela, em Lisboa. Espero que não.

Já é chata aquela viagem de meia-hora de ônibus que nos leva a nós, passageiros, do avião ao aeroporto propriamente dito, onde todos os anos encho um papel almaço com todos os meus dados e sempre um policial alfandegário implica com meu excesso de sobrenomes. Nunca me perdoaram antes do Lessa ser também Pinheiro e Themudo. Veremos o que veremos.

De qualquer forma, tudo correndo bem, sentirei, bem o sei, a forte presença de 66.354 compatriotas meus no país. Desses, acredito que uns bons – são sempre bons, são sempre supimpas – 47.328 brasileiros estarão na aprazível e cada vez mais catita cidade balneária de Cascais.

Uns 13.542 irão me perguntar pelo Felipão, 11.935 vão querer saber de onde sou, 12.515 indagarão no comboio se eu sou brasileiro. Um só, como no poema de Manuel Bandeira, irá tirar o chapéu, segurá-lo junto ao peito, olhar para o chão e me deixar passar. Esse sabe o que é a vida no estrangeiro. Uma espécie de morte sem nenhuma de suas especularidades.

O resto é peixe, doces e muitos Sumol. Sabor abacaxi. O Sumol é o melhor refrigerante do mundo depois do Guaraná Antarctica. Mais uma vez, para não sair do ritmo, vou de vice-campeão.

 
 
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