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Atualizado às: 14 de julho, 2008 - 07h52 GMT (04h52 Brasília)
 
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O escargot não é deles
 

 
 
Ivan Lessa
Escargot. Mas pode me chamar de lesma. Ou caracol. Escargot pega melhor. Com o instrumento de recolhimento adequado e o garfinho bifurcado, conforme manda o figurino das boas maneiras à mesa.

Não sei como anda o Brasil em matéria de escargot. Com tanto restaurante pretensioso abrindo e fechando, é difícil acompanhar seu progresso. Far-se-á a passo de lesma? Sait pas.

Estarão quebrando a casquinha do bruto a martelo de madeira, como certas pessoas fazem com as lagostas?

Na França, berço do escargot, da lesma e do caracol, a coisa não anda lá grande coisa. Não bastasse Sarkô andar agradando pouquíssimo em matéria de política e sua ilustríssima esposa, por nome artístico de Carla Bruni, ter gravado um álbum de canções, Comme si de rien n'etait (Como se nada tivesse acontecido) que deu o que falar mas menos de que o comprar, surge agora, entre outras crises, a do escargot.

Está custando mais caro. Vai rarear. A refinada especialidade francesa deu uma cabeçada no mundo da economia de mercado. Ninguém esperava isso do escargot.

A indústria do escargot já avisou: olhaí, peuple, a colheita do escargot de 2008 vai desandar com os preços do delicioso bichinho. Desse jeito, comentou Le Figaro, em editorial, vai passar a ser feito o caviar: cada vez mais difíceis de achar.

A França, sabemos todos, é o maior país consumidor de escargots do mundo. Basta olhar para um francês para confirmar a veracidade deste fato. Não sei porquê. Mas olhem bem para um francês. Me digam depois se eu estou errado.

O escargot é cozinhado na renomada manteiga da Borgonha (é, ela não é boa só de vinho), alho e salsa, ou salsinha. Há variações, não fosse a guloseima francesa. Pode levar um tico de vinho (da Borgonha, evidentemente), pode levar um, ou até mesmo uma, soupçon de um queijo de nível de instrução média.

Comer naqueles pratinhos com 6 ou 12 concavidades. Agarrar os preciosos moluscos gastrópodes e aninhá-los, firme, naquele engenho diabólico que só a mente de um francês poderia bolar.

Utilizar como o demo à mesa o garfinho bifurcado. Levar a boca, bochechar (é facultativo) e depois engolir. Não esquecer de molhar um pedaço da baguette no molho que ficou no prato côncavo metálico.

Dar um gole no vinho, que, se eu fosse você, escolheria um da Borgonha. Só para rimar. Nome do vinho? Não entendo dessas coisas. Sou homem de xarope de groselha Dubar. Vinho eu deixo sempre para o garçom escolher. O que inevitavelmente resulta em seu profundo desprezo por mim. Justificado, concedo. Mas bebo o que me é servido. E como o…

Divaguei. De novo. É que é quase hora do almoço e há séculos que eu não enfrento pelo menos meia dúzia de lesmas incrementadas. Em Portugal, com um palito muito do vagabundo, eles servem uns caracóis mínimos como entrada.

É tido como Dulcora, uma delícia que o paladar adora. Tenho sérias dúvidas. Não é a mesma coisa. Inclusive porque é baratíssimo. Sempre um mau sinal, para nós brasileiros. Quer ver um homem debochando e rindo feito um louco? Basta perguntar a um francês o que ele acha dos caracóis lusos.

Pergunte ainda ao mesmo francês, quando ele parar de rir, esse francês que faz parte da imensa legião acostumada a consumir 14 milhões e 300 mil toneladas de escargots processados por ano, se ele sabia a última do escargot. Assim como nós perguntamos se o companheiro ao lado conhece a último do papagaio.

Primeiro, informe da tonelagem, para ele sentir que você está por dentro da lesma fresca. Mencione os dados referentes a 2007. Acrescente que, agora, em 2008, a coisa mudará, infelizmente, de figura. E, aí então, dê o golpe de misericórdia. Depois de mencionar a altura de Sarkô e citar dois versos de uma música da Carla Bruni-Sarkosy, diga para ele o seguinte:

- Sabia que 99% dos escargots franceses vêm da Bulgária?

Não, ele não sabia. E vai ficar uma fúria. Gaguejará, espumará, irá virar os olhos. Os franceses são muito teatrais. Além de cheirarem a ufanismo e beirarem a xenofobia.

Principalmente, no caso, a bulgarofobia escargotária. Não pare aí, amigo, vá em frente e revele para o pobre coitado que os bichinhos se originam também no leste europeu, nos Balcãs e na Grécia. Aí fique olhando sério para ele. Diante de ti, terás um homem derrotado. Não só vai faltar escargot, mas os danados, esses todos, eram búlgaros ou gregos e ele não sabia.

O preço do combustível nosso amigo tira de letra. O passaporte múltiplo do escargot, como no caso de Dona Ingrid Betancourt, ele desconhecia. E agora deixemos de lado essas frescuras. Vamos partir para o feijão com arroz que é o essencial desta vida.

Escargot pode ser uma delícia inexplicável. Feito ostra. Uma delícia. Mas não deixa de ser uma frescura. E frescura búlgara ou dos Balcãs. Quem diria, hein, Jean-Claude?

 
 
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