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Atualizado às: 07 de julho, 2008 - 10h23 GMT (07h23 Brasília)
 
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Facas e Facadas
 

 
 
Ivan Lessa
O mar não está para peixe. Um ditado que não quer dizer absolutamente nada. O mar está sempre para peixe. Tempestade? Furacão? Enxame de tubarão? Eles tiram de letra. Os peixes tiram de letra. Que quer dizer tanto quanto o essa história de mar coisa e tal.

O certo é, mesmo correndo o risco de passar por politicamente incorreto, as ruas não estão para as gentes. As ruas de certos bairros de Londres. As gentes de determinadas regiões de Londres. Principalmente se você é jovem. Estão se esfaqueando adoidados. Ou simplesmente sendo esfaqueados.

Garotada entre 15 e 24 anos está indo de faca pra cima de garotada entre 15 e 24 anos. Não se trata de problema generacional. Ou só é problema generacional. Não é para assaltar nem nada. Pelo puro espírito de banditismo armado. Sociólogos sociologizam, policiais sociologizam (quando deveriam, isso sim, estar policiando melhor), políticos – ora, políticos politizam para seus devidos partidos.

O que interessa são os garotos. O que é que está havendo com eles? O que se passa na cabeça deles?

Não tenho a menor idéia. Ninguém tem a menor idéia. Mas, para Londres, a coisa adquiriu proporções assustadoras. 18 ou 19 mortos a facadas nestes 7 primeiros meses de 2008. É muito. Nem esbarra nos 1800 mortos (creio que é isso e, se não é, parece) por dia do Rio de Janeiro. Trata-se de recorde. E ainda faltam as olimpíadas na China. Uma pessoa muito debochada poderá dizer que, em vez de anabolizantes, os representantes do Reino Unido, poderiam concorrer na modalidade ataque à arma branca. Imbatíveis, sugerem alguns.

Roubo não é motivo. Não tem drogas no meio. Pelo menos até onde os jornais divulgam. São crianças esfaqueadas. São crianças esfaqueando. Não há outra maneira, nem maneira mais eloquente, de expor o fato.

Recuemos um pouco no tempo.

Segundo as estatísticas, que não mentem jamais, o número de crianças dando entrada em hospital com feridas causadas por faca dobrou nos últimos cinco anos. Principalmente – e segurem-se – entre aqueles, e aquelas, com menos de 16 anos. Um aumento de 88%.

Entre 2002/3 foram 95 registros. Entre 2006/7, 179. Um pouco mais acima, na escada etária dos 16 para os 18 anos, houve, no mesmo período, um aumento de 75%, ou seja, de 429 para 752. Repetindo, para enfatizar, números relativos a crianças esfaqueadas. Não se esquecer de que, na maior parte das vezes, trata-se de bando contra bando. Cresce enormemente pois o número de crianças trocando facadas.

Armas de fogo? Sim, há e muito. Entre gente da mesma idade. Entre crianças, mais uma vez. Crianças.

A polícia arma operações com nomes interessantes. Operação Tridente. Operação Maidstone. Revistam a garotada – isto é, revistam as crianças --, recolhem um número extraordinário de armas brancas e de fogo, a imprensa vai lá, fotografa, e dá uma bela foto ilustrando um belo artigo nos jornais.

As coisas ficam por isso mesmo. Alguns canais de televisão, agora que Wimbledon e a Eurocopa passaram, exibem série de filmes sérios a respeito. A polêmica é evitada. No sentido de não haver ninguém culpando ninguém ou coisa alguma. O importante é ficar indignado e registrar o fato. Não adianta culpar a mídia. Eles também não sabem o que está havendo, desconhecem o que deve ser feito.

Gente com opinião não falta. As mais descabidas são articuladas apenas fora das câmeras e microfones. Nas esquinas, nas mesas dos bares. Nos lugares de sempre, onde a vida, de verdade, se passa. Esquina, bar e nunca esquecendo de olhar para os lados. Pode haver uma criança armada e pronta para passar um na faca ou mandar uma azeitona noutro.

A Polícia Metropolitana londrina divulgou, na semana passada, os seguintes dados: de maio para cá, 26.777 crianças foram paradas e revistadas. 528 facas apreendidas e 1.214 presas. O novo prefeito, Boris Johnson, pediu à população que contribua para a luta contra o crime desorganizado denunciando para a polícia todo e qualquer suspeito de posse de faca ou revólver, mesmo sendo gente da própria família.

No fim-de-semana passado, dois estudantes franceses foram esfaqueados e em seguida tiveram os corpos incendiados. Perto de 250 facadas, entre os dois, revelou um policial tarimbado, acrescentando nunca ter visto tamanha fúria assassina em sua vida. E que os assassinatos por encomenda não são tão brutais assim.

Foi então, o quê? Assassinato por prazer de assassinato? Crianças assassinando?

Tudo somado, restam duas coisas: perguntas e medo. Medo de crianças. Mesmo desarmadas.

 
 
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