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Atualizado às: 04 de julho, 2008 - 08h56 GMT (05h56 Brasília)
 
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Multiculturalismo bipolar
 

 
 
Ivan Lessa
Ao contrário do samba, eu fui feliz e tinha plena e exacerbada consciência do fato.

Todos os sambistas profissionais para quem fiz a desabusada declaração me perguntaram:

- O que quer dizer “exacerbada”?

Nunca expliquei porque os sambistas não entenderiam nada. Nem teriam consciência do fato, eles que de fatos não têm consciência nenhuma. Gente danada de boa, gente danada de talentosa, mas, coitada, muito ignorantizinha.

Deixa pra lá.

Agora, parafraseando (“O que quer dizer parafraseando, sô Ivan?”), fiz uma descoberta importante: eu também já fui multicultural e não sabia. Em meu torno, por toda a minha vida, outras culturas traçavam arabescos no ar, e eu continuava caminhando, carregando meu sangue lusitano e tupiniquim.

Arabescos. Vem-nos a mente islamismos e muçulmanos.

Exato. Isso mesmo. Deles que eu queria falar. E falar vou.

***

Eu vivo hoje em dia numa sociedade das mais multiculturais de um mundo cada vez mais multicultural. Eu poderia correr risco de vida e entrar nos detalhes do que quer dizer, bem lá no fundo, e mesmo em sua superfície aparente, esse tal de – guenta as aspa aí! – “multiculturalismo”.

Mas não vou. Medaço. Saudável auto-censura. Limito-me a relatar os dados que vejo nos diversos veículos de comunicação, jocosamente chamados, em seu conjunto desavergonhado, de mídia, por aqueles que respiram, e se intoxicam, com fatos ou tudo aquilo que passa por fato.

Não me falem em “factóide”. O original, factoid, quer dizer algo bem diferente do que traduzimos afobados e preocupados, para variar, apenas com sua aparência superficial.

Verdade. Continuamos fascinados com contas e miçangas, qualquer coisa que pareça brilhar. Em troca, oferecemos nossas esposas e irmãs, para que sejam multiculturalizadas à vontade por quem bem entender e por elas se interessarem.

***

Divaguei. Desviei-me do assunto que queria, como um pirata, de venda no olho e facão, lá do alto de minha popa, abordar. Volto a porto seguro. Fatos. Conforme os definem a imprensa.

Lá estava no jornal de quarta-feira, dia 2 de julho: Em Dundee, na Escócia, região de Tayside, a força policial local teve que se desculpar abjetamente à comunidade muçulmana – as comunidades andam pegando mais por aqui que resfriado ou febre do feno – por ter estampado a foto de um cachorrinho em cartões postais destinados a divulgar um número de telefone para emergências policiais de peso menor.

Peso de pedra na mão, digamos. Pena que estas linhas não sejam a cores ou levem ilustração. Tento pincelar aqui o malfadado e islamicamente ofensivo cartão.

Tamanho standard. Três cores. Um cachorrinho preto alsaciano de olhos doces e expressão que nos deixa o coração a fazer “ahhhhh…”. Os dizeres a dizer “A polícia de Tayside tem um novo telefone para casos que não sejam de emergência.” E, em letras grandes e vermelhas, o número: 0845 600 5705 (favor não passem trotes, gente).

O nome do bichinho é Rebel. A foto estampada mostra-o sentadinho no chapéu de um policial. A comunidade – ah, as comunidades – muçulmana se revoltou (rebelled. Não é curioso?) contra o aviso, a escolha da imagem.

Donos de vendas e lojas e outros estabelecimentos comerciais se recusaram terminantemente a expor o tal do cartãozinho. Por quê? Porque os cães, dentro da melhor tradição islâmica, são considerados impuros e há que se evitar qualquer contato com eles.

Um muçulmano pode ter um cão de guarda, mas jamais um cão doméstico, de estimação, um pet. É abominação. Mandem um cartão para Salman Rushdie pedindo mais esclarecimentos sobre o Corão.

A polícia voltou a pedir desculpas e tentou a esfarrapada, para os islâmicos, explicação de que “Rebel” é imensamente popular com a comunidade (olha outra aí) online. O blog do “Rebel” tem hits e page impressions que não acabam mais tanto com crianças quanto adultos.

Vão de Google, vocês aí. Na janelinha da busca, digitem “rebel”, “puppy”, “dundee”, “police”. Atentai.

Mas saibam que estão correndo perigo de pegar um fatwah pela proa. Para quem se lembra do que é e para que serve um fatwah. Hein, Salman?

 
 
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