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Atualizado às: 02 de julho, 2008 - 08h11 GMT (05h11 Brasília)
 
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Festival de festivais
 

 
 
Ivan Lessa
O Reino Unido, no verão, é um festival. Do que você bem entender.

Muita gente anda falando sozinha pelas ruas. Não deixa de ser um festival. Mulheres ao volante falando em celular e batendo e matando. Outro festival.

Eu fiquei em casa na terça-feira. Festivava. Olho em torno, presto atenção nos noticiários, ligo e desligo a televisão, vou até a venda do indiano da esquina comprar água de coco e, no caminho, me deparo com festival após festival.

Um garoto armado de faca e revólver me pede a carteira e o relógio Timex que me custou US$ 15 em 1980. Estava a me festivar. Festivei com ele, temeroso de grave ferimento ou morte instantânea.

Ah, ser jovem e estar no Reino Unido neste estio! Faltam-me saúde e armas brancas e de fogo. Abundo em anos, tenho algum ouvido. Difícil me é participar de um festival. Sequer de ver sua transmissão televisiva.

Mergulho no computador, no aluguel de DVDs, na reescutada de certos discos que me acompanham desde os primeiros festivais que conheci, embora deles não tenha participado. Chamavam-se então Jogos da Primavera. Mocinhas coxudas.

Carnaval, quando tinha baile onde pular, bonde para ir de Ipanema até o Tabuleiro da Baiana, batucando, cantando e fazendo molecagem, era, em tudo e por tudo e para todos, festival. Faziam musiquinhas especiais para esses festivais de Momo. Chamavam-se marchinhas, Chiquita Bacana é um exemplo e Vão Acabar com a Praça Onze outro, esse de samba.

Havia, há, uma semelhança com os atuais festivais bestas (meus cumprimentos e saudades, Sérgio Porto) que assolam este país, e os que gingavam por todas ruas, esquinas, praças e clubes do Rio de Janeiro.

Nos bailes dos clubes, cantava-se, pulava-se, suava-se, derramava-se cerveja (goela abaixo e na cabeça, só para se fazer de interessante). Não tinha lama. Muito confete, serpentina, lança-perfume.

E tinha, ainda, e muito, o prazer psicologicamente dúbio de se suar em comum numa festa de riozinhos correndo pela cara, pelas costas, pelo corpo todo, molhando camisas, calças, tudo. Entreolhavam-se os foliões e compartilhavam de um sorriso maroto.

Se a odalisca ou a tirolesas estivesse “afim”, tudo bem. Se não estivesse, tudo bem também. O importante era pular, cantar e suar. No meio da multidão.

*****

Os jornais britânicos e a mídia toda, no começo da semana, mostraram, além da vitória na Eurocopa de um jogador lourinho do Liverpool na Eurocopa 2008, tal de Fernando Torres, se esbaldando em cores, flagrantes dos vários festivais que se festivalaram adoidados nos últimos dias.

Teve o mais popular deles, e que virou instituição, o de Glastonbury, que chegou até a ser notícia no Brasil, onde já proliferou outro tipo de besteira, menos porcalhona, os festivais das canções.

Glastonbury é a lama. Lama no meio e, de preferência, lama cobrindo a seleta platéia infanto-juvenil, e, lama no palco, onde se passa aquilo que é de menor importância. Feito noticiou, em manchete, o The Guardian flagrando em página dupla a cores o dia 27 de junho: “Pouco importa quem está no palco, o que interessa é a festa.” All too true.

Teve ainda o festival a favor dos 90 anos de Nelson Mandela, que terminou com todo mundo artístico no palco cantando uma música com letra e música de extraordinária beleza: o nome do carismático líder repetido 90 vezes seguidas num pentassílabo de cinco notas iguais (dó maior, dó maior, dó maior, dó maior, dó maior). Comovente.

Não vamos nos esquecer do Festival Contra o Uso de Armas Brancas ou Coloridas Entre os Menores de 21 Anos. Não foi tão concorrido quanto os dois já citados, mas a qualidade humana e musical esteve presente. E como! Cantou-se, dançou-se, sorriu-se. Uma grande revoada de slogans bem intencionados passou por cima, alegre e sorridente, dos festivaleiros – armados todos.

Quando em dúvida, e surgindo qualquer problema, já sabem: festival neles. Uma barulheira danada, uma chatice dos diabos nas diversas condições, mas, ao menos, param de me assaltar a mim ou ao indiano da venda da esquina.

Vomitadas dá pra se limpar. Sangue é mais complicado.

 
 
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