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Atualizado às: 20 de junho, 2008 - 08h02 GMT (05h02 Brasília)
 
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Coisas e Coisos
 

 
 
Ivan Lessa
Deve ser agradável viver num país onde o líder da nação desfruta de grande popularidade. Sim, claro. Refiro-me ao meu, ao seu, ao nosso Brasil – esse Brasil do presidente Lula da Silva.

Esse agradável estado de coisas, que deve encher de orgulho todos os brasileiros, vem sendo noticiado com espantosa regularidade nos quatro cantos do mundo e em vários idiomas, vivos e mortos. Estamos quentes. Estamos em ponto de bala. Agora, sim, é para valer, ninguém nos segura.

Só não entendo esses eternos descontentes que deixam nossas terras para ir tentar a vida em países diferentes, principalmente Estados Unidos e Europa. É possível que estejam apenas se fazendo de engraçadinhos, querendo ser interessantes.

Ou então, puro espírito de porco. Não posso acreditar que seja mera burrice. Um país que elege os homens públicos que elegemos, e com desmesurada vantagem, não pode ser povoada a não ser por pessoas inteligentes, cultas e bem informadas.

Nem quero pensar na pior hipótese: que o desmando do êxodo seja por motivos políticos. Em poucas e boas palavras: o comunismo ateu. Ele mesmo, aquele que julgávamos morto e enterrado. Teimosos que somos (caso contrário não teríamos chegado onde chegamos), uns poucos milhares de descontentes se recusam a dar o braço a torcer e continuam com o culto a Stálin, Lênin, Mao Tse-tung e o ubíquo poster e camiseta que em que se transformou Che Guevara, aquele mesmo que comandou centenas de execuções logo após o golpe militar cubano de 1959.

Agora mesmo, na cidade de Newport (que já foi cigarro mentolado e festival de jazz), estado de Rhode Island, no nordeste dos EUA, uma operação da ICE, a agência de imigração e fiscalização aduaneira do país, prendeu 29 imigrantes ilegais brasileiros e motivou a fuga de dezenas de outros.

Parecia até prisão no Afeganistão, que também, nesta mesma semana, após a detonação de um poderoso caminhão-bomba, conseguiu liberar perto de 900 perigosos talibãs prisioneiros. Alguns dos fugitivos, ligeiramente feridos, caindo aos pedaços, reclamaram dos libertadores: “Pô, mérmão, não dava para ir mais devagar com “as bomba?” “As bomba”. Assim mesmo. Em seus constantes estudos religiosos, os talebãs (“os talebã”?) não se detêm na concordância gramatical.

Volto aos caros companheiros “rhodilhéus”, para neologizar um tico. O alvo da ação, dita civilizadora pelos americanos, foi um condomínio de casas que, habitado quase que exclusivamente pelos simpáticos brazucas, ganhou o apelido de “Portelinha”, em singela homenagem à favela fictícia Duas Caras, exibida nos EUA pela Globo Internacional.

A ICE informa que a intensa caça aos brasileiros ilegais continuará na região. Os detidos aguardarão a deportação na cadeia.

Não seria o caso de um patriotismo extremado nos levar a uma solução do gênero talebã, no Afeganistão?

***

Aqui no Reino Unido eu não gostaria de estar na pele do primeiro-ministro Gordon Brown. Nem mesmo de passagem, como creme rejuvenescedor. Que o homem, com menos de um ano no poder, está um caco de velho.

Gente na rua e nas páginas nobres dos jornais decreta: o líder trabalhista não está com nada. Falta-lhe tudo. Um articulista de peso (83kg), Jonathan Freedland, dedicou, no prestigioso The Guardian, na quarta-feira, um artigo de mais de meia-página esmiuçando, ou melhor, desmantelando, Gordon Brown.

Bottom line, conforme se diz no Brasil: o analista político chega à conclusão de que ele não reúne as qualidades necessárias para ocupar o alto posto e que, ainda por cima, sofre a tragédia de não possuir a qualidade que mais o fascina – a coragem.

Palavras duras. Não se aproximam do que se ouve à boca pequena e larga por estas ilhas. Não dá para ter pena, uma vez que, também nestes últimos dias, após a morte de mais cinco soldados britânicos no Afeganistão, Gordon Brown disse que irá aumentar o envio de tropas. Pegou mal, muito mal.

O que ele não daria para desfrutar do bom senso do presidente Lula, que veio a encontrar, entre seu povo, uma resposta direta às suas falas e ações enérgicas a respeito de todas as aflições que possam, momentaneamente sempre, afligir o país.

Não mais seguirão soldados brasileiros para efetuar prisões nos poéticos morros do Rio de Janeiro. Lugar de soldado não é nem em morro nem em Afeganistão ou Iraque. Soldado é para ficar marchando no quartel. Um exercício bom para a saúde e as faculdades mentais.

Lula – e me desculpem a intimidade – está tão ou mais popular que Barack Obama. Muito justo.

****

Mas, peraí, obtemperarão muitos. Obama é um mero candidato à presidência dos EUA. Eleição pra valer só mesmo em novembro. Não vamos contar com o ovo no… ahn… ninho da galinha.

Mal lhe cabe a faixa de estadista, que dirá a presidencial. Obama, no entanto, goza de extraordinária popularidade não só em seu país de origem (e não me refiro ao Quênia) como pelo mundo afora.

Para ficar apenas, e sempre, entre nós: Caetano Veloso já se pronunciou a favor de sua candidatura. Poderíamos descansados parar por aí. É o quem e o quanto basta para elevá-lo à presidência.

Só que a popularidade de Obama não pára aí. Agora mesmo, soube por nossas folhas (na verdade, uma só Folha, a de São Paulo), que a Universidade Zumbi dos Palmares, um centro de ensinos monocultural, está “tentando agendar uma videoconferência de Barack Obama… com seus alunos e professores”.

A nota prossegue informando que a mesma instituição unicultural quer coletar 10 mil assinaturas de brasileiros, não ficou claro se afrodescendentes ou não, em favor do político. Político que o onisciente e mui pimpão escritor americano Gore Vidal, outro dia mesmo, na televisão britânica, disse tratar-se de um “elemento novo na política americana”. Lamentou apenas ele “não ter surgido, até agora, com uma única idéia interessante.” Alzheimer deve estar cutucando com seu dedinho esquelético as costas do ilustre homem de letras.

Apesar disso, José Vicente, da ONG Afrobrás e reitor da Unipalmares, expressou que havia necessidade de “marcar o momento histórico de ter um negro concorrendo a esse cargo”.

 
 
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