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Atualizado às: 11 de junho, 2008 - 10h22 GMT (07h22 Brasília)
 
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Obama: ele pode sim
 

 
 
Ivan Lessa
Em 1964, Sammy Davis Jr estrelou um musical da Broadway intitulado Golden Boy, com música e letra de Charles Strouse e Lee Adams e direção de Arthur Penn.

Ganhou o Emmy, o equivalente teatral ao Oscar, e a montagem ficou em cartaz dois anos. Veio para uma temporada em Londres em 1968 e eu dei a sorte de pegar.

Golden Boy era a adaptação de uma peça de 1939 do dramaturgo de esquerda Clifford Odets, no mesmo ano filmada com William Holden e contava a história de um jovem italiano enfrentando o dilema arte (queria ser violinista) e dinheiro (querem que seja pugilista).

Prestava-se como uma luva – de boxe – para a adaptação: um lutador negro, pronto para ser explorado por quem o cercasse, brancos e negros. Eram, afinal, os anos 60 e os direitos civis estavam na agenda. Inclusive, e muito, na agenda pessoal de Sammy Davis.

A uma certa altura, com os primeiros cobres surgindo, o personagem de Sammy, Joe Napoleon, canta a música This is the life, cercado pelo séquito habitual. Aqui um trecho:

“Can I be what I wanna be?”

E o coro:

“Yes, you can!”
“Can I get what I wanna get?”

De novo o coro

“Yes, you can!”

Sammy pergunta:

“Can I have a car with a built-in bar,
Color TV and a Playboy key,
And a hundred shares of AT&T?”

E por aí afora. O séquito sempre repetindo:

“Yes, you can, yes, you can!”

O sucesso do musical e desse número, com seu devido bordão, deram o título para a autobiografia de Sammy Davis, escrita com (ou por) Burt e Jane Broyar, de 700 páginas, e publicada em 1965: Yes I Can. Na ocasião, Strouse e Adams compuseram uma música especial com esse título para Sammy gravar como um “single” para a Reprise Records.

Vida riquíssima a do talentoso e versátil entertainer americano que podia e fazia de tudo. Mais do que o resto da turma do Rat Pack (Sinatra, Dean Martin, Peter Lawford, etc) Sammy cansou-se de fazer a campanha de direitos civis (foi preso mais de uma vez, recebeu porrada e escarradas na cara) e, em 1960, saiu pelo país promovendo a candidatura de John Fitzgerald Kennedy para a presidência.

Eleito, JFK não o convidou para o baile inaugural. Sammy havia se casado com uma branca, ainda por cima sueca, May Britt. Negro com branca pegaria mal na Casa Branca do carismático e jovem presidente tido como liberal.

Não, o casal não podia. Não, eles não podiam.

A bofetada não foi grande novidade para Sammy. No livro, conta como, em Las Vegas, no auge de sua popularidade, entretinha nos hotéis e cassinos mais famosos, mas não podia neles se hospedar, chegar ao bar ou uma roleta. Porque era negro.

Não, ele não podia.

Nas eleições de 1968, Sammy Davis foi muito criticado por ter passado a votar pelos republicanos, ou, no caso, em Richard Nixon. Pasmo geral. Como é que pode, né mesmo? Sammy pôde. Apesar da repulsa nos meios liberais-democratas. Ele conhecera coisa bem pior.

Não foi fácil a vida de Sammy Davis. Ficaram os discos, muitos discos, filmes e filmetes e clips, ora na internet (vide, mas vide mesmo, YouTube). O homem era muito melhor do que lhe davam crédito. Inclusive como pessoa.

Sim, ele podia.

A conexão Obama

O slogan da campanha de Barack Obama é “Yes We Can”. Não foram pagos quaisquer direitos aos herdeiros de Sammy Davis. Nem passaram um, que fosse, um recibinho.

Obama pode, pode sim. Pode e vai. Basta olhar para os cortes de seus ternos e sorrisos e atentar para sua retórica. Continuam comparando-o a JFK e madame Obama a Jackie (futura O). Sammy Davis, mais uma vez, não poderá comparecer ao baile inaugural.

Quanto à agenda política de Obama, é tão ou mais misteriosa quanto a de seu mentor espiritual JFK. JFK com menos de 6 meses no poder invadiu Cuba e deu início à escalada da Guerra no Vietnã.

Obama, de concreto mesmo, apenas sua declaração recente diante do mais importante lobby judaico americano. Depois das platitudes habituais sobre o Irã, afirmou que “Jerusalém continuará a ser capital indivisa do estado de Israel”.

A esse mesmo respeito, nenhum presidente americano manteve essa mesma palavra dada nos últimos 41 anos. E todas as embaixadas, mesmo a americana, estão localizadas em Tel Aviv. Ao que parece, Obama desconhecia o fato, mas trajava um terno de dar inveja ao populacho eleito e eleitoral.

O que mais disse Obama? Disse discursos. Sorriu. Tirou e botou paletós. Sim, ele sabe. Sim, ele pode. Pode, sim.

Uma palavrinha final

A ativista e sufragista americana, Victoria Claflin Woodhull, branca, foi designada pelo Equal Rights Party como candidata à presidência da república dos Estados Unidos da América do Norte em 10 de maio de 1872 e teve sua candidatura ratificada em convenção no dia 6 de junho.

Seu companheiro de chapa, candidato à Vice-Presidência da República? O abolicionista, editor, autor, estadista e reformista Frederick Douglass, um negro.

Não, eles não puderam.

Foram apenas primeirões. Feito Sammy Davis.

 
 
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