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Atualizado às: 19 de maio, 2008 - 08h57 GMT (05h57 Brasília)
 
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À beira da extinção
 

 
 
Ivan Lessa
A gata me olha. Eu olho a gata. De tarde. Mais ninguém em casa. Eu não agarro ela. Ela não pula no meu colo.

Mantemos uma distância respeitável e respeitosa. Mas carinhosa. De minha parte, posso afirmar. Da dela, nada sei. Ninguém sabe nada dos gatos.

Tem mais de 10 anos que está aqui. Calculo a idade dela em 13 anos. O veterinário não discorda. Não lhe resta muito tempo. Também a mim não deve restar muito tempo. Nem foi preciso veterinário ou médico me dizer.

Como os gatos, tenho minhas cismas. Ao contrário dos gatos, ninguém sai limpando atrás de mim ou me dando de comer e beber. Sou obrigado a me virar.

Ela, a gata, acha a coisa mais natural do mundo eu cuidar de seu bem estar, nutrição e higiene impessoal. A pessoal, como é hábito felino, ela mesmo cuida.

Lambe-se toda, depois se espreguiça e deita num canto. Canto com sol, quando tiver. Tem tido.

Esta sua grande farra: dormir. O ratinho de pano, a bolinha de tênis, nada disso interessa. Vez por outra, brinca um minuto ou dois com um pedaço de papel amassado. Logo se desinteressa e vai à vida. Que pode não parecer interessante, assim contada, mas aí tem coisa que só os gatos podem dizer.

Só que não dizem. Ao contrário de mim, que como um idiota fico aqui dedilhando sandices em torno e sobre a bichinha. Temos algo em comum também, eu e a gata. Algo jamais pronunciado ou miado. Estamos em plena extinção. Extinção alheia, serena e contemplativa do lado dela, consciente, agitada, mal humorada e sobre a sofrida do meu.

A carruagem alada do tempo nos persegue. Para citar, meio de banda, um poeta clássico inglês.

Em plena extinção

Há um consolo, para mim, mas não para ela, que de nada sabe (acho). A mídia, além de me atormentar com as tragédias naturais da Birmânia (país que beirou colônia jamais chegará a Mianmar) e da China, berra agora em meus ouvidos que a lista de animais em vias de extinção a cada dia aumenta mais.

Começaram agora a citar o urso polar, que acabou de entrar para o malfadado rol. A culpa é do danado do nitrogênio dos homens que invade os oceanos e exerce efeito dos mais daninhos no clima global.

Cientistas é que disseram. Por uma vez, coisa rara, acredito neles, nos cientistas. Não tendo gente encabeçando novos achados, faço mais fé. Chato é quando eles descobrem, ou cismam, que leite e ovo são veneno puro para nós, crentes desavisados.

O raio do nitrogênio, segundo os homens de ciência, penetra, ou dá suas letais braçadas, no mar depois de passar de raspão – também mortífero -- pela atmosfera. A origem do nitrogênio é singela como as benesses da aspirina (que até hoje os cientistas não sabem explicar como funciona): trata-se da grande queimação de combustível fóssil, do canalha do monóxido de carbono, supervilão da história, agora que Stalin está morto e ficou provado que Lex Luthor é imaginação doentia da humanidade.

Como a pedrinha de gelo em nosso uísque aguado, a calota polar começa a derreter. Adeus, amigo urso, saudações polares, citando agora Moreira da Silva.

Há 16 mil ursos polares em existência calotal ártica, sou informado. Se não pararem – quer dizer, se nós não pararmos – com a monoxidação do globo terrestre, por volta do ano de 2050 a raça terá batido com as dez, subido de vez, passado desta para melhor, ou pior, ou ainda mais chato, passado para o nada.

Feito eu, feito você, feito os gatos. O urso polar está bem acompanhado em termos de ameaça.

Colegas de infortúnio

Por sermos bípedes racionais, estamos condenando ao olvido mais de 25% da população animal desta bola achatada nas pontas (cito outro sambinha) em que vivemos. Nós, que outro dia mesmo (lembram-se?) éramos apenas uns modestos 4 bilhões de pessoas, passamos num piscar de olhos, a 6,5 bilhões. 4 bilhões! Estão lembrados? Uma festinha íntima, confere? Muita sacanagem comendo solta. Ô tempinho bom, sô!

Resultado dessa pouca vergonha: violentas alterações climáticas. Tomem lá, pois, hipopótamos, chimpanzés, peixes-espada, golfinhos e micos-leões-dourados, seguidos de quase 4 mil espécies.

Bicho que a gente nunca ouviu falar e jamais traria para casa, seja como de estimação ou para conhecer a família. Tudo porque nós, eu, você, a turma toda, resolvemos abrilhantar nossa presença neste planeta, tornando-a mais marcante (vide China, vide Mianmar) em uns bons 78%.

Ninguém para contar a história

Um dia a bicharada acabará por completo. Futuros avós inventarão contos de bichos para alegrar ou assustar os netinhos. Do unicórnio ao ornitorrinco.

Não estaremos mais presentes nem eu nem minha gata. Eu, no problemo. A gata? Chato, muito chato.

 
 
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