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Tremendas ciganagens
 

 
 
Ivan Lessa
Eu nunca me fantasiei de cigano. Preferia pirata. Pirata rico.

Pirata rico era com calça de smoking, faixa de cetim vermelho na cintura e um brinco no lóbulo da orelha direita.

Pirata pobre tinha venda no olho, facão vagabundo de madeira na cintura, chapéu ridículo na cabeça.

Eu apreciava as ciganas. Ricas ou pobres. Ciganas, havaianas e tirolesas.

Só muito mais tarde é que as duras realidades da vida vieram me desancar no meio do salão desta vida.

Deixei de usar calça de smoking e brinco, esqueci a letra de Pirata da perna de pau, parei de cheirar lança-perfume.

Era terno e gravata, lotação, centro da cidade e 9 às 5 na agência de publicidade tentando convencer os tolos a comprar coisas de que não necessitavam.

Não era difícil. Chato apenas.

Ciganas, havaianas, tirolesas, todas sumiram. Passaram a vestir azul e branco de normalista, ou saia e blusa de vendedora das Lojas Americanas.

O carnaval é uma ilusão, diziam todos azulejos. Pura verdade.

E tome verdades puras e duras

Agora, aí estão as ciganas e seus respectivos fazendo seu próprio carnaval aqui em terras de Dona Rainha Elizabeth.

Os ciganos não são devidamente apreciados aqui.

Aquela versão de The Gypsy, que o Orlando Silva gravou, não faria o menor sucesso.

Até mesmo a gravação original, tão bonita no solo do tenorino Bill Kenny, eles, os britânicos adoram, mas a colocam numa distância irreal – você só encontra em CDs de antologias de sucessos dos anos 40.

Os ciganos, talvez por motivos fonográficos, talvez por serem mesmo misteriosos, convictos de suas próprias origens obscuras (dizem que gypsy vem de egyptian, egípcio, como a esfinge e o pai do namorado da falecidíssima princesa Diana), preferem manter um silêncio digno.

A dignidade, ao que parece, foi o que lhes sobrou. E o pé na estrada.

Tentaram, os politicamente corretos, apodar (apodar?) os ciganos de “viajantes”, ou, como a mídia espalha aqui, travellers.

Na vida prática, é cigano ou gypsy mesmo. Beirando, ou se despencando, desaforo abaixo.

A cigana me enganou

Até mesmo os ministros de Estado estão sujeitos à proximidade ciganal.

Não adianta tentar fugir da realidade cigana. Não adianta fazer boca de siri no que diz respeito ao que acham ou não acham de cigano, cigana, viajante, sua prole e seguidores. (Parêntese para uma perguntinha: há algo mais triste no mundo do que, não sendo cigano, sair mundo afora atrás deles?)

Vejamos o caso de Tessa Jowell, nomeada ministra para os Jogos Olímpicos de 2012 a se realizarem aqui neste país.

Não é bem uma seguidora ou vivandeira de ciganos. A ilustre mora numa boa casa de campo no condado de Warwickshire.

Mês passado, num fim-de-semana, uma leva (se esse é o plural dos ciganos-viajantes) da turma errante aproveitou a brecha e se instalou de armas e bagagem num hectare adquirido legalmente, algum tempo antes, por um representante do pessoal em questão.

Possivelmente, compareceu à agência imobiliária encarregada da venda sem brinco na orelha ou lenços na cabeça e pescoço.

Pagou bonitinho a quantia exigida pelas terras e, no sábado e domingo seguido de feriado, mudou-se com suas caravanas, alugou escavadoras para abrir facilidades sanitárias, instalou um sistema de suprimento de água e puseram-se todos a fazer as coisas que os ciganos-viajantes supostamente fazem.

Não creio que seja apenas tacar estacas no chão anunciando que lêem mãos ou vêem o futuro das pessoas em bolas de cristal.

Que fique claro, os ciganos também não roubam criancinhas para a procriação de novos ciganinhos-viajantes.

Um dos ciganos, entrevistado por uma das inúmeras reportagens que vivem cobrindo este país, disse que, para ser franco, não sabia que estava na proximidade de uma olímpica ministra.

Nome do homem era e é Zack Follows, tem 31 anos, 4 filhos e convidou Tessa Jowell para vir visitá-los, a ele e seus companheiros de ciganagem-viajante, quando bem entendesse.

Acrescentou um fato interessante: “Somos seres humanos. Temos de fazer habitáveis nossas cercanias.”

A ministra Tessa Jowell teve o cuidado de não se pronunciar a respeito da mudança. O que já dá uma pala, confere?

Nada ter a observar ou acrescentar, principalmente em se tratando de político, conta mais de um hectare da história.

E, por falar em história, aí está sua moral: qual é a novidade, qual é o problema dos ciganos-viajantes se instalarem onde bem entenderem? Basta cumprir as devidas exigências legais.

Cigano não é notícia. Preconceito contra é. Não vi nota nenhuma defendendo (de que, meu Senhor, de que?) os ciganos. Ou mesmo os viajantes.

Como ex-cigano rico, sinto-me atingido em meus brios.

De sacanagem, passarei este fim-de-semana de brinco e calça de smoking.

Vendo em DVD aquele trecho de O toque da maldade, do Orson Welles, onde Marlene Dietrich, de cigana, moreníssima, faz bocas esplêndidas e diz coisas maravilhosas.

 
 
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