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Atualizado às: 07 de abril, 2008 - 09h07 GMT (06h07 Brasília)
 
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Notas de segunda
 

 
 
Ivan Lessa
A semana começou na quinta-feira da semana passada, dia 3 de abril, quando a supermodelo Naomi Campbell voltou a ser retirada à força, algemada a bem dizer, do interior de uma espaçonave.

As supermodelos, meu amigo, não são como eu e você, que voamos de avião, e mesmo assim vôo-charter, e isso quando nos deixam embarcar.

As supermodelos botam pra quebrar dentro das espaçonaves. Principalmente Naomi. Com acento no i, oxítona pois. Isso devido a seu prolongado affair com nosso Brasil brasileiro, onde, segundo consta, nunca jogou celular na cara de subalterna (ah, como as supermodelos têm subalternos e subalternas!), gritou com a polícia, botou para quebrar enfim.

Não. No Brasil, a oxitonada Naomi comporta-se como uma dama das mais finas. A truculenta pombagira que nela baixa com espetacular frequência é sempre nos países anglófonos: Reino Unido, Estados Unidos.

Neste último, aliás, foi condenada a prestar serviços comunitários limpando o chão do Departamento Sanitário de Nova York após o arremesso do celular, uma prova, atestam-me, que consta das Olimpíadas das Supermodelos, onde Naomi (acento no i, lembrem-se) já conquistou três medalhas de ouro. Muitos daqueles que a admiram, todos brasileiros, desconhecem o temperamento olímpico umbandista de Naomi e simplificam a questão dizendo apenas que “ela tem um temperamento fogoso”.

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O mundo começou num ano terminando em 8. Todas as coisas, pessoas e eventos que nele tiveram algum lugar de relativíssima importância foram em ano terminado em 8. Principalmente 1968.

Não aguento mais celebrações neste 2008 que poderia ser mais pacato e ficar mais calmo com gente soltando menos foguete. Vai ver foi isso que deu na oxitonal Naomi. E tome polca. Ou batuque em atabaque. Ou, mais importante, dizem, os 50 anos da bossa nova, que nasceu em 58 e faleceu em 1962, tadinha.

O que dá mesmo são 40 anos de tudo. Todos os dias. Assassinato de Martin Luther King, assassinato de Bobby Kennedy, nascimento de Carlos Luís de Carvalho Jr (rua Conselheiro Borgonha, 36, ap. 702, Alto Pinheiros, São Paulo, SP), que nada fez de importante, nem fará, mas nasceu no dia 16 de maio de 1968.

Eu o celebro, Carlos Luís, já que os outros todos – esse mundão – preocupa-se com o centenário da baixação do Caboclo das Sete Encruzilhadas numa sessão espírita kardecista, em Neves, São Gonçalo, município fluminense próximo ao Rio, precisamente no dia 15 de novembro de 1908.

A pombagira de Naomi teria mais alguns anos até chegar sua vez. 1928, talvez? Parabéns pra você nesta data querida, Umbanda de meu Brasil!

O Serviço Brasileiro da BBC acaba de completar 70 anos. “Antônio das Mortes” do cineasta, cinéfilo e polemista bahiano (assim mesmo, com agá) também viu pela primeira vez a luz do dia, ou o escuro das salas de projeção, em 1968. AI-5? Pois não, foi em 1968 também. Tomem um pileque e, depois, façam feito os humoristas brasileiros e cobrem indenização com juros.

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Leio nas folhas que, além dos apuros de Naomi, o popular mosquito que transmite o dengue, também vem passando maus momentos. O Aedes aegypti (não pronuncie, que vai dar besteira. Diga Naomi, com a tônica no i, que é mais garantido), este seu nome de, não digo guerra, mas de batalha, não está picando todo mundo no Rio de Janeiro.

Um jornal brasileiro (O Globo de 4 de abril) me afirma que o “drama dos sem-dengue também se agrava”. Fiquei na manchete, duvidando que o resto do texto pudesse estar à altura. Dediquei alguns minutos de meu tempo, que pouco vale, a pensar nos pobres cariocas, ou brasileiros, que vivem, se é esse o verbo, sem-dengue. Coitados! Quanta tristeza!

O jornal grátis distribuído no metrô londrino no mesmo quarto dia de abril tinha uma notícia de alto de página e a cores me informando que, no Rio de Janeiro, os soldados haviam sido chamados para ajudar na lida com a letal doença tropical que atinge uma média de 1,4 pessoas por minuto. Foi o que ele, o jornal, me informou.

Pensei um pouco, compungido, nesse 0,4 de pessoa, nesses 60 malditos segundos. O jornal me adianta mais: 45 mil casos foram registrados no belíssimo Rio de Janeiro desde janeiro. 20 mil casos a mais do que em 2007. Prossegue o Metro (esse seu nome) dizendo que 54 pessoas já morreram, metade crianças. Acrescenta que 60 outras mortes estão sendo examinadas.

Todo morte deve ser examinada e também lamentada. Nem uma única palavra sobre o drama dos sem-dengue. Vivemos, como disse o poeta, à sombra de um mundo (ou será um Rio?) injusto.

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Minha agitação, minha sonolência, meu volume urinário, minha temperatura baixa (36º), minhas dores abdominais, minha taquicardia, minhas tonteiras e desmaios, meus vômitos persistentes – será tudo um sintoma de dengue? Precisarei de hidratação violenta?

Como o Aedes terá baixado em minha ou nas minhas proximidades, que de proximidades sou feito. Terá sido um Exu viajante chegado, lato sensu, a Londres? Ou será tudo hipocondria minha? Coisas da idade, que de idade tenho coisas a mais não poder – e não posso mais mesmo.

Será solidariedade com meus cariocas “dengosos” (acabo de neologizar)? Tudo se me embaralha. Deve ser a primavera. Amanhã, quem sabe, amanhecerei cantando, como quer a velha canção do Braguinha dedicada à Primavera.

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Infelizmente, devido ao adiantado da hora, não poderei participar da celeuma Glauber Rocha/Merda/Marcelo Madureira que varre (celeuma varre?) o vosso país. Mas mais de dois litros e meio de meu sangue mineiro pede que eu me pronuncie ligeiramente favorável aos três. Para não falar de Naomí (acentuemos logo) e suas algemas de pelúcia, de que dela já falei o bastante.

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Olhai, gente, desagravo é mole. Quero ver sessão de cinema, ou jantar, qualquer coisa dessas, de agravo. Aí é que a porca torce o rabo, se me permitem uma observação primaveril em pleno estado de obsolescimento.

 
 
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