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Atualizado às: 02 de abril, 2008 - 08h04 GMT (05h04 Brasília)
 
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Adeus, cartão-postal!
 

 
 
Ivan Lessa
Diga a verdade: qual foi a última vez que você recebeu um cartão-postal? Tem séculos, não é verdade?

O cartão-postal, esse mesmo com hífen, perdeu de dez a zero para o email, esse mesmo sem hífen, juntamente com o telegrama (nem pensar em hifenizar).

De hífens, hífenes e pontos

Pausa para fazer o ponto da situação. De estalo, o que significa “fazer o ponto”? Galicismo muito comum em Portugal. Nos telejornais, as locutoras e locutores de estúdio – essa turma que ainda não virou “âncora” por caprichos dos feitores e suas chibatas responsáveis pelo hediondo acordo ortográfico em vias de virar lei obrigatória, que, caso desobedecida, poderá dar em cadeia, multa e, bobeando, pena de morte.

As línguas espanhola e inglesa nunca sofreram homogeneização. Isso por que nos países anglófonos e castelhanófonos a escravatura foi abolida há quase duzentos anos e a burrice é cada vez mais vista com maus olhos.

“Fazer o ponto” é fazer um levantamento, um cômputo de uma determinada situação. Já que resolvemos avacalhar de vez com nossa pobre língua, que os paupérrimos (e sem teto ou terra) de espírito chamam de “última flor do Lácio, inculta e bela”, crentes de que estão citando Castro Alves, quando na verdade o verso debilóide é de Otávio (ou Olavo, um troço assim) Bilac, vamos logo botar para quebrar e, já que as coisas passaram a “acontecer” (de nivers a vernissages) e não mais “ter lugar” ou, tão simplesmente, “ser”, vamos logo botar para quebrar, dizia eu, e começar a escrever, conforme já li em mais de um cronista e articulista supostamente conceituado em terras brasilienses, “o ponto”.

Mas “o ponto”, pelo que tenho observado nos últimos meses, no sentido inglês (está em Shakespeare), aquele em que o indivíduo que o emprega procura se referir a the point como o fator, ou a parte, mais significativa ou relevante de determinada coisa em seu contexto geral. Por exemplo, traduzindo ao pé da letra: “o ponto de escrever é passar adiante alguma informação, de preferência correta”. Ou seja, the point of writing is… etc.

Não façam isso, gente. Deletem e printem, que agora não há mais remédio, mas não me venham com esse tipo de ponto. Aurélio e Houaiss dão mais de 50 acepções de “ponto”. Tudo, menos esse. O objetivo (the point) em escrever para os jornais é fazê-lo na própria língua portuguesa à brasileira, que já foi jeitosa e bem apanhada de corpinho, e nada que um bom detox não possa resolver.

Nós, que na imprensa escrita, ainda não pegamos o espírito da pomba-gira que anima o ponto-e-vírgula e, em muitos casos, o do caboclo que baixa na própria vírgula de per si, devemos ir muito devagar e com a máxima da atenção quando mexermos nessas coisas.

Há uma porção de livros escritos em português do Brasil, e até mesmo, garantem-me, coleções de jornais e revistas encadernados, nas boas bibliotecas do ramo, que, consultadas, muito nos têm a dizer e ensinar sobre a questão de botar uma palavrinha depois da outra e (isso é importante) fazer um tico de sentido. Nunca tentar esses devaneios de que sofro e, sem querer, passo adiante para os pobres coitados que pararam para ver o que é que está havendo comigo, de que grande mal estou atacado, quando batuco no computador.

Só para respirar

Tem mais: email não tem hífen. Meu mestre para palavras em inglês é Mister Oxford e não os Senhores Aurélio ou Houaiss. O primeiro registrou: email não tem hífen. Os jornais daqui, em sua maioria, a mais alfabetizada, adotou e, portanto, é menos um hífen com que a gente tem de se preocupar. Foi o que aconteceu com online, que já foi escrito em duas palavras e, agora, ninguém, nem mesmo os que se juntaram em desagravo a Glauber Rocha, pensariam em fazer tal besteira.

Espero ter sido claro: não há “ponto” nesse sentido que começa a botar a cabecinha de fora. Scenario ter virado cenário já foi barra. Fui a única pessoa a pensar em jantar de desagravo aos pobres enredos e sinopses. A solidão vai acabar comigo, conforme disse a canção popular.

Mas e o telegrama e o cartão-postal?

Nada de muito grave. Apenas que, com computador e celular, seus emails e “torpedos”, perderam sua razão de ser. Se um camarada bater na sua porta e disser, “Telegrama. Tem que assinar”, não abra de jeito nenhum. É assalto garantido.

Se você receber um cartão-postal, mande para cá. Coleciono e acho pouquíssima coisa quando boto meu uniforme azul-marinho de internauta. De qualquer forma, mesmo achando via Google, depois de tacar lá no quadrinho “cartão postal brasil” (aí sim, sem hífen e maiúsculas), não é a mesma coisa que receber um cartão-postal de alguém, mesmo desconhecido, com a, por exemplo, Torre Eiffel, no verso, e, no reverso, numa letrinha muito da ruim, “Saudades de você. Grande abraço.”

Mesmo sem assinatura, mesmo anônimo, era bacaninha.

 
 
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