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Atualizado às: 31 de março, 2008 - 09h27 GMT (06h27 Brasília)
 
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Primavera: custou mas veio
 

 
 
Ivan Lessa
Possível que eu esteja falando fora do tempo. Nunca se sabe, aqui nestas ilhas, no que diz respeito ao tempo. Quando me perguntam, no telefone internacional (não são só os britânicos que cismam com o assunto), como está o tempo aqui, sempre respondo que tem chuva, sol, frio, calor, tudo que o freguês do outro lado da linha quiser.

Tempo? Não gostou desse que está fazendo? É só esperar que o negócio muda já, já. Jajá de coco, que tem e fazem também.

Todos os anos, monotonamente, os jornais estampam em suas primeiras páginas aquilo que gostam de chamar de “anomalias meteorológicas”. É que neva em março, ou bate os 30º em setembro, tolices assim, lugares-comuns com que todos nós já nos acostumamos há séculos. Séculos. Taí outra confusão. Tudo aqui tem ou é em séculos. Confunde a cabeça de um brasileiro, como eu, que sabe apenas que o mundo, e o Brasil dentro dele, começou apenas com a conquista do que chamamos pitorescamente de “tetra”.

Mas eu estava falando no tempo no sentido de estações. Coisa que desconhecemos. Temos, em umas poucas cidades, um punhado apenas de estações, mas essas não contam porque são de metrô. Refiro-me à primavera, outono, verão e inverno. Coisas tão importantes que a turma aqui só escreve com maiúscula. Feitos os nomes dos dias da semana e dos meses do ano e a primeira pessoa do singular. Tudo maiúsculo.

Vamos às estações. Que nada tem a ver, frisemos, com a primeira de Mangueira ou escola semelhante.

As estações

É que a Primavera (pronto, enturmei com as maiúsculas) levou um tempo inusitado para chegar. Agora parece que engatou uma primeira e aí está com força total. Mais ou menos, né? Outra mania local: essa do mais ou menos. Já vi mais de cinco árvores em flor, peguei pelo menos dois dias sem chover de um total de cinco e pensamentos impuros se me ocorreram por quase 10 minutos na manhã de sexta-feira, dia 28 de março. Sim, eu sei, não estou mais na idade para essas coisas, mas não foi de propósito. Juro. Coisas da Primavera.

A Primavera é a estação do amor, diz uma marchinha do Braguinha (e não João de Barro; rimar faz parte da estação). Pura verdade, mesmo no Brasil, onde ela, a Primavera, só é reconhecível pelo número de vítimas do dengue e a tonelagem de drogas apreendida pela polícia. Aqui, onde tem campo que não acaba mais, e trem andando (atrasado, claro) pra cima e pra baixo, a gente vê claramente os coelhos queimando incenso no altar de seja lá qual for a deusa do amor deles.

Os jornais não perdem a boca, já que noticiar qualquer coisa a ver com Gordon Brown, o novo (ainda) primeiro-ministro, é um desconvite à leitura, ao amor, tudo. Então o cidadão vai e lê texto que não acaba mais sobre – atenção! – “Sexo”. Assim mesmo. Com maiúscula e entre aspas, já que o fetiche é tão britânico quanto a fortuna de Paul McCartney e os rochedos brancos de Dover.

A Primavera, gritam todas as páginas ímpares dos segundos cadernos dos jornais, é profundamente afrodisíaca. A Primavera nos bota, ou melhor, nos coloca, para usar de um delicioso brasileirismo, em estado de prontidão para os embates de Eros, de que tenho falado mais do que devia de uns tempos para cá. Volto a culpar a Primavera.

Como fazer? Que fazer com toda essas prontidão amorosa que nos sai dos poros na Primavera?

Que fazer?

Não fazer o que Lênin queria que fizéssemos, conforme o panfleto que ele assinou e distribui na esquina para os passantes, como quem distribui volantes de Madame Yvette, espírita-vidente. Ou seja, não formar, em hipótese alguma, um partido revolucionário de vanguarda destinado a abranger as classes operárias. Deixemos política e políticos para lá e vamos lá (trata-se de outro lá; maior, ou bemol, por aí) com as perguntas que os tolos e inocentes fazem.

Querem sempre saber, por exemplo, quanto tempo deve durar o ato sexual? A resposta é clara e óbvia: entre 7 a 13 minutos. Isso segundo uma pesquisa publicada recentemente no American Journal of Sexual Medicine. É a tal história: essas coisas são feito a invasão e subseqüente “guerra” do Iraque. Os políticos graduados americanos, do presidente da república, tal de Bush, ao secretário de Defesa, Rumsfeld das quantas, todos afirmavam que a “liberação” ou “achação de armas de destruição em massa” era coisa de semanas. Com uma forcinha, meses. Pois deveriam ter procurado, ao invés, entrar em contato com uma cafetina brasileira, tão em moda nos EUA, pelo que entendi.

A coisa completou cinco anos outro dia mesmo e eles lá, ou nós aqui, aliados, não saímos de cima, no sentido de cima do solo que viu Abraão nascer e abrigou jardins suspensos. Deve o sexo, portanto, demorar o tempo que for necessário para que todos os envolvidos (vale o sexo grupal) se sintam satisfeitos e possam se vestir e ir para casa e suas ou seus respectivos caras-metades.

Quantas vezes?

Quantas vezes praticar a mais antiga das diversões? Se você tem entre 25 e 34 anos, o número indicado é 6 por dia e 6 por noite. Qualquer número inferior a esse, esquece e dedique-se a outras coisas. Engenharia agrônoma, carpintaria, qualquer coisa menos ter, fazer ou pensar em sexo.

Dados dadivosos

No Reino Unido, 33% das pessoas fazem Amor no jardim e 42% no parque. Sei do que estou falando porque vivo vendo. 65% das mulheres e 53% dos homens se sentem mais atraentes durante a Primavera. Pobres tolos.

O resto? O resto é tudo lenda urbana. Ou pura mentira. Que é a Primavera também é a estação da mentira. Aí está o 1º de abril que não me deixa mentir. Me obriga a mentir.

 
 
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