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Atualizado às: 29 de fevereiro, 2008 - 08h29 GMT (05h29 Brasília)
 
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Quedas e cataratas
 

 
 
Ivan Lessa
Escrevo na quarta, 27 de fevereiro. Umas poucas horas antes de fazer uma operação numa catarata situada no canto do olho direito.

Os médicos encarregados insistem em chamar de procedure, isto é, um processo ou procedimento. Parece ser mais simples. Mais fácil. Menos invasivo. Menos perigoso.

Li tudo que podia a respeito na internet. Não achei sensacional. Aproveito, pois, estas minhas últimas horas de visão embaçada ligeiramente por catarata (eu chamaria de pequeno salto, como os de um sítio a que eu ia quando garoto) para ler, ler e ler.

Sou pessimista. Na minha visão ou visualização (mau verbo. Digamos: no meu entender silencioso) interna, já me enxergo (lá fui eu de novo) ou com uma bengalinha, óculos escuros e pedindo esmola na esquina ou, com sorte, uma venda preta sobre o olho preto, direitinho um extra nessa série de filmes tolos de pirata com o insuportável Johnny Depp.

Ler, ler, ler. Este meu pastar nestas horas que me sobram de visão assim-assim com óculos. Assim como o boi no campo do poeta, que creio Drummond. Ponho-me a ler as besteiras e não-notícias – factóides é outra coisa, gente – que as há em quantidade. Passo adiante. Por medo, por solidão e só um tico de preguiça. Chamem de ato de desespero calmo e mudo, para não usarmos os termos chulos em geral usados para essas coisas.

Enfileiro, a seguir, os fatos que, nestas últimas horas na companhia de minha catarata – chuá, chuá – prefiro guardar, ao invés de palavras inspiradas de poetas, escritores e candidatos à Presidência da República dos Estados Unidos.

O mundo é tolice. Eu, um tolo. Rimamos, pois.

……

Houve um tremor de terra aqui na Inglaterra ontem à noite. Chegou a ser sentido em Londres. Passou por mim, e eu por ele, despercebidos um do outro. Saltos e quedas me preocupam mais. À noite. No sono e sonho. Minha escala não é Richter. É escala Aderaldo. O lendário repentista Cego Aderaldo. Sou nacionalista, como todos que deixaram o nosso torrão natal. Esse o motivo por que não dou o nome de escala Ray Charles ou Stevie Wonder aos meus abalos internos.

……

Naomi Campbell foi manchete de primeira página no Brasil e no Reino Unido nesta fatídica quarta-feira, dia 27 de fevereiro. Operou-se em São Paulo, no hospital Sírio-Libanês, para a retirada de um cisto em localidade íntima, por assim dizer, de seu corpo.

Naomi nos irmana, a nós brasileiros e britânicos. Naomi nos aproxima. Não somos apenas a nacionalidade que mais é enxotada do aeroporto de Heathrow em sua chegada a esta capital sem o devido visto no passaporte, notícia que ultrajou boa parte de nossos ultrajáveis colunistas. Absolutamente. Um cisto de Naomi nos aproxima e reconcilia. Vale mais a remoção do cisto naomista do que sua presença graciosa em camarote na Sapucaí para ver desfile de escola de samba.

Não foi muito invasivo o “procedimento” cirúrgico na bela modelo que, um dia, já foi chamada, por nosso belos e belas colunistas, de “estátua de ébano”. Que eu me lembre, só um chamou de “estáltua”, como 85% dos brasileiros que voltam desconsolados de Heathrow. Que minha catarata seja removida com o mesmo sucesso que coroou o bota-fora do cisto de Naomi.

……

Um jornal local me informa que, na internet, agora, a grande moda é o pastelão. Postam no YouTube clipes de clássicos no gênero. De Mack Sennett a Carlitos, de Buster Keaton a O Gordo e o Magro.

Eu, grande YouTubador que sou, vivo procurando Grande Otelo, Oscarito, Golias e até mesmo Ankito já me valeram buscas. Nada. Ou quase nada. A Atlântida e a Cinédia terão problemas em ceder alguns preciosos minutinhos de seu patrimônio? Alguém precisa ir e lembrar a essa gente, a todos com algum patrimônio, que isso coisa para ser repartida com todo mundo. Uma internet sem Walter D'Ávila, por exemplo, não é internet.

……

Continuam a proliferar na televisão os programas enfeitados de calouros. O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Reino Unido e para o Brasil e para – por que não? – o Iraque também. Por mais que tentem dar uma demão de sofisticação, um aspirante a mestre-cuca, julgado por gente tida como “interessante (ah, Senhor!), será sempre isso: um aspirante.

O mais recente no gênero começaram a passar aqui ontem, na também fatídica terça-feira, 26 de fevereiro. Chama-se American Inventor, “Inventor Americano”. Não importa a idiotice, ou maluquice, embora pelo que vi sempre um misto quente das duas coisas, há gente disposta a elas julgar, emitir, dar opinião, notas, estrelas.

Lá estava o simpaticíssimo ex-boxeador George Foreman julgando invenções como um guarda-chuva com microfone no cabo e achando formidável, sensacional, maravilhoso. Por essa e por outras, foi que o bom Muhammad Ali, no Zaire, fez dele, num embate antológico há um quarto de século, mais um bobo nas cordas (dope on a rope), conforme o jargão usado pelos que realmente entendem da nobre arte do pugilismo. Ninguém inventou, pelo menos neste primeiro programa, um colírio que cure catarata em casa, sem médico ou enfermeira nem nada.

……

Uma nota de determinada organização contra-terrorista pede que as pessoas informem à polícia sobre outras pessoas: as que possuírem dois celulares. Campanha lançada na terça-feira, 26. Li num poster no meio de uma rua pouco suspeita.

Pede ainda que todos nós entreguemos, (isso é alcagüetar, sejamos francos), todos aqueles que, em nossa opinião, estejam naquela tradicional posição tão familiar a nós brasileiros: a da atitude suspeita.

O que entendem por atitude suspeita? Fazer fila para embarcar para a Inglaterra? Não. Suspeito é fotografar câmeras de circuito fechado de televisão.

Um celular, acham normal. Eu considero aberração. Paro na rua para ver uma pessoa, em geral, que me desculpem as senhoras e senhoritas presentes, do sexo feminino, andando pela rua, sorrindo e falando inanidades no repugnante e ubíquo aparelhinho. Sei que são inanidades porque as sigo e tento ouvir o máximo que posso.

Seguir mulher com celular. Uma atitude suspeita de minha parte, bem sei. Um homem prestes a ser operado de uma catarata é capaz de tudo, saibam todos. Celular, só se a pessoa for corretor de imóveis ou vendedor de crack. O resto? Que prendam. Embora seja ir um pouco longe prender quem sofre de tamanha solidão.

Não há maior solidão do que a das pessoas que falam ao celular pelas ruas. Feito aquela solidão do boi no campo, de que falou Drummond e que observei no início destas mal digitadas linhas. Também é solidão, é atitude suspeita sair seguindo gente armada de celular pelas ruas de Londres.

……

Mais uma vez, acabo de usar verbo inadequado para o aziago dia de hoje: observar. Ou, por outra, talvez adequadíssimo. Ao contrário do cisto de Naomi, não serei notícia de primeira página. Ou sequer de faits divers.

……

Se eu tiver que sair por aí, quero um cachorro triste como eu para me guiar. Seu nome será Sultão. Um nome antigo como eu. Quanto a mim, chamem-me de Rex. Se acharem pretensioso, aceito Duque ou mesmo Boy.

 
 
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