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Mundo, mundo mínimo
 

 
 
Ivan Lessa
Colecionador implacável que sou de lugares-comuns, um dos que mais me aflige é essa mania de pegarem os versos de Drummond e encaixar numa tolice qualquer, tal como estou fazendo aqui. É só o leitor bobear que o jornalista taca lá uma variação sem graça do "mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo…"

Pois é. Vocês manjam. Não sei qual o mais violentado de nossos poetas, se o Drummond do Raimundo e sua rima, ou se o Vinícius de Moraes de "as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental". Fundamental é deixar os poetas em paz e seguir adiante com o texto.

Que é o que vou tentar fazer agora.

Já quebrei a cara – ou terei feito ironia? Cabe ao leitor escolher, embora eu saiba que deixar as coisas por conta de leitor é cutucar onça com vara curta –, já dei com os burros na água, para mudar de imagem, já engrossei, então, segundo meu próprio raciocínio, ao dar o nome que dei a estas pífias digitações numa manhã fria e ensolarada de fevereiro em que curto e sou curtido por um resfriado que ameaça virar gripe.

Peguei intimidade. Dei satisfações do tempo na cidade em que vivo. Prestei contas de minha saúde, ou pelo menos da parte dela (tem cacófato aí, professores?) que julgo procedente compartilhar com o cavalheiro e a senhora aí na quinta fila.

Esse o jornalismo moderno. Informatizado. Eletrônico. Fugaz e vivaz simultaneamente. Fisgar 40 segundos da atenção do internauta não é mole não, minha gente. Vinte segundos, para pegar o título e as primeiras duas linhas, e eu me considero um Paulo Coelho, de tão lido, de tão vendido (no melhor sentido possível, ó bom Coelho!).

Escrever é seguir em frente

Na segunda-feira, um desses relatórios a que me recuso a dar o nome, já que me repugna fazer, em letra de forma, o equivalente ao product placement, ou colocação capciosa de produto em cinema ou televisão, um desses relatórios, dizia eu ao ser abruptamente interrompido por meu alter ego (ou seja, o outro eu. Um danado de um espírito de porco, conforme se dizia nos tempos saudosos de minha mocidade, tempos que não voltam mais… Et cetera coisa e tal), um desses relatórios, volto a gaguejar, ou, buscando e encontrando uma analogia mais razoável, volto como um bêbado desagradável a abotoar o companheiro de mesa insistindo, repetindo e falando alto, volto à vaca fria, já que me sinto, de repente, não mais que de repente (outra violência contra o "poetinha". E, atenção, chamar Vinícius de Moraes de "poetinha", além de intimidade indevida, é besta demais), bucólico. Me sinto bucólico, repito fazendo mais sentido e pastando disfarçado.

E prometo ser este o último desvio que faço neste mísero texto.

Mais em frente e para o alto

No relatório, sobre o qual eu já deveria ter dado o meu recado há séculos, dizem que a Terra que habitamos não pode mais agüentar o número de pessoas que nela, por assim dizer, vivem.

Agora mesmo, neste pobre e miserável fevereiro de 2008, pessoas abalizadas acreditam ser de 6.649.117.969 habitantes apinhados nesta danada desta bola a girar no espaço. Opa! Lá se foram, do momento em que empreguei da interjeição de surpresa aí atrás, mais sete estudantes americanos chacinados por um coleguinha, dois velhinhos num hospital em Ubá, 32 habitantes do Afeganistão. Além de… mas é besteira sequer tentar chegar a contar.

Como besteira também é pensar que acaba de nascer um Ronaldinho no Morro do Alemão, 1.200 Juan não-sei-das quantas nos Estados Unidos e no México, e assim por diante. Não há compensação possível. Tem mais gente chegando para mamar do que se mandando com seu boné.

No tal relatório, eles não foram precisos como eu há poucas linhas, mas calculam que há 1,2 bilhão de gente a mais neste planeta. Conclui ainda o estudo que, se a coisa continuar como anda, teremos pela proa, popa, estibordo e bombordo, guerras e fome.

Uma grossa besteira, me parece. Como se já não houvesse guerras e fome com os 6,649 bilhões e tantos que enumerei.

Além do mais, o que é que eles querem que a gente faça? Holocaustizar 1,2 bilhão? Não viram o que aconteceu com o samba-enredo da Viradouro? Suicídio coletivo é wishful thinking, como se diz por aqui.

Virem esse canhão pra lá, gente boa.

Conclusão

Se esperam que eu me voluntarie para entrar na fila desse 1,2 bilhão, saibam que só vou amarrado. Por enquanto, estou apenas resfriado. Espero ficar por aqui. E virem esse mau-olhado pra lá.

 
 
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