BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 11 de janeiro, 2008 - 07h49 GMT (05h49 Brasília)
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
Como preencher um plinto
 
Ivan Lessa
Quatro são os plintos da praça Trafalgar. Três são os plintos ocupados por heróis da pátria britânica.

O plinto do canto nordeste da praça é ocupado por George IV, que deu ao país os Georges V e VI.

O plinto do canto sudeste quem o ocupa é Henry Lovelock, cujos feitos teremos de passar por cima, em vista do adiantado da hora.

O plinto do canto sudoeste cabe a sir Charles James Napier, que também passará para nós, lá em suas alturas, em brancas nuvens.

O assunto é o quarto plinto. O quarto plinto. Excelente nome para um romance que tanto poderia ser da autoria de Umberto Eco ou Ítalo Calvino.

Há qualquer coisa de italiano em plintos, embora a origem da palavra esteja no grego, plynthos. O quarto plinto. Também poderia, ou deveria, ser um conto breve, mas perfeito, claro, de Jorge Luís Borges.

O quarto plinto da praça Trafalgar encontra-se vazio. Vazio como o peito dos amantes abandonados para sempre por suas amadas numa – claro – praça.

Força é preenchê-lo. E rápido. Um plinto vazio, como este está há anos, constitui espetáculo triste. Pouco edificante. É mister do plintos edificar. Sempre e cada vez mais.

Como explicar e edificar um plinto

Muitos leitores menos esclarecidos não sabem o que é um plinto. Eu que bato estas mal digitadas linhas insisto em manter uma saudável ignorância a respeito da verdade, toda a verdade, e nada mais que a verdade, sobre os plintos.

Plinto é a base de uma coluna, seu pedestal, melhor dizendo. Mesmo tendo conferido no mais que confiável Houaiss, continuo a ter minhas dúvidas sobre a veracidade dos plintos.

Segundo o dicionário em questão, um plinto é a base retangular de uma coluna. Também um alaque, dado, soclo e soco: quatro vocábulos que me perturbam e me ameaçam o sono.

Felizmente, em sua segunda acepção, Houaiss explicita: pedestal de estátua. Suspiros gerais de alívio. De Eco, Calvino, Borges e deste escriba, conforme gostam de se apelidarem os escritores abaixo da mediocridade.

Nós todos, leitores inclusive, sabemos o que é um pedestal de estátua. É naquela base da base de estátua, conforme já foi dito.

Nós, brasileiros, amantes e apreciadores das estátuas, em todas suas variações, dos bustos imponentes às equestres, conhecemos por demais o assunto.

No Rio, não me canso de lembrar aos leitores de outros estados, há estátuas de bronze e até mesmo folheadas a ouro de cronistas sociais (Zózimo Barroso do Amaral, no Leblon; Ibrahim Sued, na entrada do hotel Copacabana Palace) e de um poeta, Carlos Drummond de Andrade, sentadinho num banco da praia de Copacabana, de costas para o verde mar, admirando apenas, no entender dos artistas responsáveis, a paisagem das pessoas que passam. Façamos um ponto e um parágrafo, que os vates os merecem.

Nenhuma dessas estátuas tem plinto. Se a praça Trafalgar possui quatro, por que haveremos de homenagear aqueles que decantaram nossa vibrante e vigorosa vida – talvez até mesmo luta – social numa total ausência de plintos?

O imenso poeta Carlos Drummond, ao menos, ganhou um banco. Banco com plinto não dá. Sugiro a governador do estado, prefeito e cariocas esclarecidos uma campanha a favor de mais plintos.

Plintos para todos. Plinto é cultura!, poderia ser seu slogan. Ninguém mais merecedor de plinto do que os habitantes, vivos ou mortos, da cidade do Rio de Janeiro.

Ao plinto em questão

Eu dei início ao presente trabalho mencionando os três plintos da (chamemo-la assim) Trafalgar Square, deixando entrever nas entrelinhas a solidão total do quarto plinto, despojado de alguém ou algo em cima.

Este pesadelo, pois pesadelo é, deverá em breve chegar a seu fim. Graças às iniciativas do modernizante prefeito de Londres, Ken Livingstone, foi feito um concurso pedindo sugestões entre artistas, e até os amadores eram bem recebidos, para ver o que, ou quem, deveria encimar o solitário pedestal noroeste da praça.

Nesta semana, as obras oferecidas foram reveladas para o público leigo que cisma de apenas passear pelas praças sem preencher ou fazer observações sobre esse ou aquele outro plinto.

Por falar nisso, uma sugestão mais modernizante do que poderia contar o bom prefeito foi a do artista Antony Gormley, que propôs a ocupação do plinto vazio precisamente por este público leigo que acabo de mencionar.

Segundo Gormley, o quarto plinto seria ocupado 24 horas por dia por diferentes pessoas, com mudança da guarda (guarda?) a cada hora. Daria um total de 8.760 plintados (acabo de cunhar um termo) por ano.

As outras propostas foram menos interessantes. Um carro bombardeado no Iraque. Um tipo exótico de felinos, os chamados meerkats. Cinco espelhos côncavos. Um navio enorme dentro de uma garrafa ainda maior. Um vastíssimo símbolo da paz (terá sido sugestão de Yoko Ono?).

O vencedor só será anunciado daqui a uns meses, na primavera.

Conclusão

Como membro desinteressado do público leigo, apesar de minha condição de imigrante, ainda que em condição legal, eu tomo a liberdade, que sempre abriu suas asas sobre mim, de sugerir que sigam a sugestão do talentoso Antony Gormley, sim, senhor.

Só que o quarto plinto seria ocupado, em condições de revezamento, por esses débeis mentais que se pintam e se fantasiam e ficam horas e mais horas paradões no meio da rua – no meio das praças! – fingindo-se de estátuas. Sucumbiriam como vêm sucumbindo os notórios pombos sujões da praça Trafalgar.

 
 
Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
Cuidado, a nova Renascença vem aí!
09 janeiro, 2008 | BBC Report
Levadinhos da breca
07 janeiro, 2008 | BBC Report
Arte? Uma piada
04 janeiro, 2008 | BBC Report
Frases e resoluções de ano novo
02 janeiro, 2008 | BBC Report
Feliz ano... o quê mesmo?
31 dezembro, 2007 | BBC Report
Ano vai, ano vem
28 dezembro, 2007 | BBC Report
'Feriz' Natal
24 dezembro, 2007 | BBC Report
Eu quero meu dinheiro!
21 dezembro, 2007 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail   Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade