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Atualizado às: 02 de janeiro, 2008 - 08h47 GMT (06h47 Brasília)
 
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Frases e resoluções de ano novo
 
Ivan Lessa
Meio fácil listar as frases do ano passado. Fogo é dar uma de futurólogo e sacar o que vai ser dito no ano em que acabamos de entrar, ou que acabou de entrar em nós, dependendo do ponto de vista.

Como tudo mais, o futuro é uma incógnita. E só ao demônio pertence.

O futuro não chega a ser, para um brasileiro, obscuro, distante e vil como os anos passados. Somos, como diz o vulgo em sua infinita vulgaridade, o país do futuro.

O futuro, recordemos, não é nada parecido com o falecido e jamais pranteado ou lembrado 2001, para dar um exemplo arbitrário.

Todos os anos ainda em seu porvir são danados de cabreiros (e, entre nós, arbitrários também).

Conforme se viu em 2000, quando o supracitado 2001 constituía o futuro, árdua e instável é a passagem e contagem do tempo, com seus dias, semanas e meses.

Na hora em que você acha que um bruto de um ano está domado e seguro em nossas mãos, ele corcoveia, relincha e nos joga no chão.

O passado, ao menos, fica lá no canto dele, envolto em sombras, rindo seu riso velhaco, debochando de nós, nossos sonhos e aspirações, nossa quebração geral de caras.

Parto, pois, para o exercício, ilegal no meu caso, de cantar a pedra do que vem por aí. E olha que, acreditem-me, vem pedra aí. Trata-se de mais do que destino nosso: é vocação mesmo.

Não consigo divisar, nem nas cartas nem na bola de cristal, o que vai se passar no estrangeiro.

Mesmo não estando entre os 350 mil brasileiros em situação ilegal no Reino Unido, o futuro só a eles pertence. A ilegalidade hoje braso-britânica tomará conta de nosso país do Oiapoque ao Chuí, com ênfase no meio de campo.

Falar nisso, aqui sou incapaz de divisar até mesmo o resultado do mais vagabundo dos jogos de futebol ou das eleições parciais para eleger novo membro do Parlamento.

O Brasil, no entanto, é um livro aberto para mim. Ou mar aberto. Com flores brancas e iemanjá reinando suprema por sobre os mocorongos afogados. Uma coisa assim.

Vejamos o que vai ser dito entre vocês e repetido na nossa vasta imprensa (3 jornais e ¼, 1 revista semanal), para mais tarde ser dissecada em nossos sites eletrônicos especializados em mídia (342).

Pitoniso-me aspirando os fumos reveladores que minha poltrona chesterfield desprendem e saco do bolso do colete (sim, eu uso colete em casa. Não à prova de balas, conforme manda o bom senso nos bairros da Zona Sul carioca, mas colete de tweed comprado a preços do arromba em liquidação da Harvey Nichols, que é, caso não saibam, infinitamente “mais bem” do que o ora cafajestérrimo Harrod´s).

Nisso já gastei uma previsão retrospectiva válida para os anos entre 1995 e 2007. Enganam-se aqueles que acham que é fácil prever o passado, conforme já disse, e agora repito, uma vez que havia me esquecido que já mencionara o fato algumas linhas acima. Duro envelhecer.

Frases do ano de 2008

“I hope to see everyone in the country speaking English fluently”, deputado Aldo Rabelo em conferência pronunciada na Cultura Inglesa em maio.

“Hein? O quê? Cuméquié?” Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Todos os dias úteis do ano. No sábado e domingo, o futuro presidencial é inaudível ou vem cheio de chiado, feito disco antigo.

“Puxa!” Um popular sereno e cético.

“Puxa!” Um popular exaltado.

“Ai, estou ferido! É bala! Acuda!” Vários moradores de apartamentos de alto, médio e baixo luxo na Zona Sul carioca.

“As telenovelas são a grande contribuição do Brasil à cultura não só sul-americana como também mundial.” Zeca “Foguinho” Palhares, observador midiático.

“O doutor Lisandro não está. Quer deixar recado?” A atriz Silvana Compostela, na telenovela Mescla Sensível, líder de audiência entre março e novembro.

“Aqui é o doutor Lisandro. Alguém ligou para mim?” O ator Walter Treviso, na mesma telenovela Mescla Sensível.

“Mortandade de peixes na Lagoa”, manchete de todos os jornais cariocas em todos os meses.

“Glub, glub, glub”. O peixe Castrinho, da Lagoa Rodrigo de Freitas.

O resto se me começa a sair de foco. Estou perdendo o contato. Igualzinho naquele episódio dos homens de barba de fogo da série Jornada nas Estrelas, safra 1967.

A ligação está péssima, para repetir um bordão do doutor Lisandro, da telenovela Mescla Sensível.

Bordão que virou até uma cançoneta brejeira gravada por Caetano Veloso em seu novo CD Xô, passarinho!, lançado em maio de 2008.

Aí deu um troço em mim, coisa muito comum entre os espíritas videntes, e eu passei, de apenas ouvir frases, a prever acontecimentos, embora o novo e mais do que inédito CD do doce menestrel baiano tenha sido a única a dar “Presente!” na referida pauta.

A resolução do ano novo

Estou pouco ligando para as resoluções dos outros. Contanto que não me atinjam. Nem me digam respeito. Minha resolução, além de única (antes só do que mal acompanhada), é pessoal e intransferível: não chegar ao ano de 2009.

Todos esses anos começando com 2, ou seja, o século 21, foram um inferno para mim. Cansei minha beleza. Gudibái. Tudo de bom para quem fica. Aproveitem.

 
 
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