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Atualizado às: 28 de dezembro, 2007 - 11h04 GMT (09h04 Brasília)
 
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Ano vai, ano vem
 
Ivan Lessa
Não. Ainda não acabou. Carnaval acaba, na vida tudo passa feito acontece nas canções populares, mas as Festas, maiusculadas, maiusculares, continuam. Nada as contém.

Cá estamos no último fim-de-semana de 2007 e a papagaiada prossegue, impávida como este lugar-comum que vos fala. Um bom observador passará os olhos por estas primeiras linhas e logo verá em mim – a caricatura que me ilustra é um dado – um Ebenezer Scrooge de primeiro time.

Ebenezer Scrooge. Inspirador do Tio Patinhas. Vocês sabem quem é. Aquele unha de fome criado pelo Charles Dickens para o seu Conto de Natal e que, ao final de uma noite de 24 para 25 de dezembro, após a visita de três fantasmas, acaba vendo a luz. Ou melhor, mergulha nas trevas do obscurantismo sentimental e sai desejando tudo de bom para todo mundo, além de comprar presentes e perus de Natal para o – era netinho? – pobre e aleijado.

É crença popular que há um fundo moral na história. É crença popular também que o dinheiro não compra a felicidade. Tristes os crentes populares.

História de um massacre

A coisa começou, para ser preciso, na sexta-feira, 7 de dezembro. A mesma data em que os traiçoeiros japoneses, em 1942, atacaram Pearl Harbor. Há, pois, uma tradição de traição.

Na data em questão, a da Matança das Festas de 2007, como prefiro chamá-la, as pessoas por este Reino Unido por Deus, e bonito por natureza, talvez como o resto da União Européia, as pessoas, dizia eu, começaram a agir estranhamente. Mais ou menos como se tivessem sido tomadas, traiçoeiramente também, por alienígenas malignos.

Começaram a sorrir um pouco para dentro na melhor maneira britânica. Deram para ficar fazendo lista de presentes na hora de trabalho. Pararam diante de vitrinas. Pareciam também personagem de conto de fadas ou dos irmãos Grimm ou de Perrault. Todo mundo dando a pala de que aquilo não iria acabar bem. Igualzinho acabou acontecendo. É um ritual natalino. Festas móveis, onde os feriados, caindo em segunda, quinta ou sexta-feira, dão em bobagem da grossa.

Também no mesmo infausto 7 de dezembro começam – ai, como começaram! – as festas de escritório. Aquelas dos vinhos pobres e das cervejas ricas. Aquelas onde há sempre um papo errado entre colegas do mesmo sexo que, se não cobrarem uma queixa qualquer, juram amizade eterna. Aquelas onde uma moça, ou mesmo não tão moça assim, sempre passa por mãos bobas e cantadas grossas.

Às vezes, o vinho, somado à música distorcida do aparelho de som, faz com que sucumbam a uma patética tentação e acabem numa agarração patética na sala do xerox ou no banheiro, onde aquele rapaz da contabilidade acabou de soltar o caroço.

Festa de escritório é mais triste que o conto de fadas do soldadinho de chumbo e a bailarina de papel. Um minuto de silêncio para as funcionárias, mesmo as que lidam com recursos humanos, que partem para a ressaca do beijo roubado em local de trabalho.

Apiedai-vos delas, senhor Papai Noel, que elas não sabiam onde estavam com a cabeça naquela hora. Negai vossos presentes no pé da árvore plástica aos homens pérfidos que delas abusaram. Que um fantasma dickensiano venha, logo mais à noite, e mostre tudo que houve para mulher e filhos enganados e traídos.

Nada contém os sinos

O destempero das compras de Natal. O desatino dos almoços do dia 25. O peru, o presunto e o pato. As sobremesas, os panetones e o vinho razoável. A procissão de domingos e sábados que, neste ano, foi de sexta, 21 de dezembro de 2007, a terça, 2 de janeiro de 2008.

A desvairada abertura de presentes e a papelada no chão. As pequenas explosões dos crackers contendo coroa de papel (é para ser usada, com ela fotografado e vítima de deboche para o resto do ano e da vida). O lavar de pratos na cozinha. Sim, dois ou três quebrados, afinal o álcool derramado foi considerável. O respirar fundo de alívio quando a louça e o faqueiro estão em seus devidos lugares.

A televisão na sala mostrando todos os filmes já assistidos e os programas absolutamente inassistíveis. A bendita hora da assinatura do armistício ao lado do presépio e do advent calendar (não tenho ânimo para explicar). Uff! Finalmente passou.

Passou? Passou mesmo?

Quando você acha que passou ainda tem o Boxing Day. O 26 de dezembro, instituição britânica de origem dúbia, todas dúbias. Na verdade, é quando vão todos às liquidações tentar se matar para comprar a preços de arrasar um sofá.

26 de dezembro, em verdade vos digo, é o Dia do Sofá. De Oxford Street a King´s Road, todo mundo comprou um sofá a preços de arrasar, pois, conforme dizem os reclames, “Papai Noel ficou maluco!” É sempre um sofá que sai por um décimo do preço normal. Não se pode dar um passo na rua sem ser atingido por um sofá que um pobre diabo carrega nas costas. Filas enormes nos prontos-socorros da cidade para atender aos atingidos por sofás baratíssimos, inclusive de couro legítimo.

O Boxing Day deveria ser celebrado e resolvido na mão mesmo, como o nome indica: dia do boxe. De preferência sem luva. Para doer. Os descrentes ficariam assistindo ao espetáculo fazendo apostas entre si.

O Dia das Caixas, traduzo para tornar o que passou mais ameno, tem, supostamente, origem nas caixas de Natal onde as elites deixavam uns cobres para a cervejinha, ou o gim, que fosse, dos menos privilegiados.

Outra facção insiste que as caixas remetem à época feudal, quando os senhores regalavam os servos com o que não queriam mais e atochavam tudo em caixas improvisadas, que a criadagem deveria ela própria improvisar, caracas!

O dia 27, oficialmente, é um dia comum. Tãotá. Comum. Numa sexta-feira de fim de ano? Esse nasceu para ser enforcado e esquartejado. Até, niminimis niminimis, feito dizia o Ronald Golias, até o dia 2 de janeiro, porque antes há... há...

O Réveilon

É chato, eu sei. Isso não acaba nunca. Tens uns fogos que só os menos prendados em luzes vão assistir (no sentido de dar uma mãozinha) no gelo das ruas. Tem a praça Trafalgar com sua fonte recebendo bêbados e sua vomitada. Tem gente se esmagando, aquela farra.

Não tem 3 milhões de pessoas de branco desfilando pela orla marítima da Zona Zul carioca batendo tambores e entoando cânticos místicos a ferozes entidades africanas aclimatadas ao império da violência da Cidade dita Maravilhosa.

Em Londres, como eu ia dizendo, alguns milhões em casa, com cara de idiota, esperando a normalização, que, como se disse no final do parágrafo anterior, deve começar no dia 2 de janeiro, uma quarta-feira já suplicando para ser enforcada, nesses tempos folgados de fim e começo de ano.

No Iraque e no Afeganistão, eu juro, as Festas não podem ter sido tão negras assim.

 
 
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