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Atualizado às: 24 de dezembro, 2007 - 09h48 GMT (07h48 Brasília)
 
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'Feriz' Natal
 
Ivan Lessa
Os japoneses são os verdadeiros marcianos. Só que, desde Hiroshima e Nagasaki, viraram bonzinhos, andaram bolando engenhocas e carros muito superiores aos nossos, ocidentais, e, agora, estão meio assim-assim em matéria de produção industrial de algum interesse.

Depois do transistor, certos aparelhos de TV e alguns carros, só mesmo o gosto que conservaram por jazz e as constantes reedições digitalizadas de LPs difíceis de encontrar entre nós.

Para não falar da cozinha japonesa que pegou furiosamente no Ocidente. Quando digo furiosamente é furiosamente mesmo. Acabaram os filmes do Kurosawa e de Yasujiro Ozu e outros clássicos, mas há sempre alguma coisa interessante e original chegando a nós e à nossa falta de imaginação (estou nos botando em parceria com os americanos, que me perdoem os responsáveis por Cidade de Deus e Tropa de Elite).

Sucede então que nós vamos lá e decalcamos. Mal. Mas decalcamos. Fazendo exatamente aquilo que sempre foi o chavão no Ocidente: dizer que japonês não cria nada, apenas copia.

Desde as bombas que estouraram em 1945 em Hiroshima e Nagasaki que nós paramos com isso. Ou eles pararam com aquilo. Por aí.

Miles, "mila" e a Matsushita

Restaurante japonês, sushi, aqueles pauzinhos, esses sim viraram moda e deixaram de ser luxo para se popularizarem. Não há quarteirão, ao menos em Londres ou Nova York, que não tenha seu restaurante japonês. Tudo muito sofisticado e, simultaneamente, popular. Uma espécie de Toshiro Mifune da gastronomia.

Sabe-se agora também, sempre graças à tão informativa imprensa, que japonês não tem mira. Ou "mila", se é para entrar em clima de anedota. Não digo, não dizem, "mila" com fuzil ou outra arma de fogo, mas com o… a… enfim, "mila" na hora de fazer xixi.

Foram as donas de casa japonesas que se queixaram. Um jornalista, ou uma repórter, tanto faz, com acesso aos arquivos razoavelmente secretos da lendária Companhia Elétrica Matsushita, descobriu que uma pesquisa (outra mania que pegaram com a gente, além do trompete de Miles Davis) realizada entre 518 casais revelou que, depois de queixas seriíssimas contra os maridos e sua pontaria urinária, 49% deles (os maridos, evidentemente) passaram a passar água sentadinhos no trono.

A mesma pesquisa revelou ainda que os homens mais jovens eram os com mais disposição para mudar seus hábitos. Está tudo sentando.

Um porta-voz da Matsushita declarou o seguinte: "As chances das tábuas das latrinas sofrerem respingos urinários é muito maior quanto o indivíduo mijador está de pé. As mulheres detestam terem que lidar com a porcalhada resultante". Sem dúvida.

Acrescentou ainda, o porta-voz, que as mulheres não encontraram dificuldade quando se empenharam em fazer com que os cônjuges se sentassem para verter seu precioso e íntimo líquido. Os homens japoneses foram, e parece que são, de uma extraordinária boa índole.

Em 1999, quando a Matsushita, que também produz banheiros ao estilo ocidental, conduziu sua primeira sondagem nos hábitos particularíssimos dos japoneses na retrete, apenas 15% admitiram que se sentavam para fazer pipi.

Por volta de 2004, o número dobrara: 30% provavam (no sentido sentável) do trono com o traseiro. Em conseqüência, a Matsushita, bem à maneira japonesa, investiu e passou a produzir os vasos sanitários mais confortáveis possíveis para a população masculina (e feminina também, por que não?) do país.

Pipi também é poesia

No Japão, a etiqueta no mais íntimo dos recintos, o aposento sanitário, constitui assunto dos mais sérios, e as residências mais modernas contam não só com tronos morninhos como ainda bidês.

Como sabemos, outra mania japonesa é o haicai. Que não deixa de ser uma especiaria, feito certos peixes crus. Proliferam pelo país concursos em que todo mundo pode e deve participar. E não há cidadão ou cidadã que, para a gaveta ou consumo público, não cometa seus difíceis e sutilíssimos poeminhas de cinco, sete e, novamente, cinco sílabas, não rimadas, sobre um aspecto da natureza ou das estações do ano.

Ainda agora, rompendo ligeiramente com a tradição do gênero, um poeta popular, glosando a nova moda, caprichou desenhando o seguinte haicai no papel de arroz:

O único calor
De minha vida
É a tábua de meu banheiro.

Minha tradução é péssima e tem pelo menos três pés quebrados. O que importa, num soneto ou num haicai, é o sentimento que o inspira.

 
 
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