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Atualizado às: 12 de dezembro, 2007 - 08h18 GMT (06h18 Brasília)
 
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E assim se passaram 20 anos?
 
Ivan Lessa
Jon Henley é jornalista. Em 1987, cansou-se da Inglaterra. E da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales. Cansou-se, enfim, da Grã-Bretanha, à época uma Grã-Bretanha da primeira-ministra Margaret Thatcher, que acabara de ser eleita para o cargo pela terceira vez consecutiva.

Jon Henley exercia as funções de professor e, recentemente qualificado, lecionava numa escola pública de um bairro assim-assim de Londres. Eles chamam de inner cities. Subúrbios barra pesada, diria eu.

Morava num pequeno apartamento de quarto e sala em outro bairro subúrbio assim, Acton, que, segundo suas palavras, ainda não beirava a afluência, tal como agora. Jon Henley olhou, olhou, pensou, pensou e chegou a uma conclusão: isso não era vida para ele, para um homem de seus talentos.

No ano anterior, 1986, Thatcher abolira o conselho que zelava pela cidade e, no entender do então jovem professor, Londres estava caindo aos pedaços. Londres era uma cidade suja e deprimente. Ele lembra que uma manchete no Le Monde dizia: “Londres se tiersmondise”, ou seja, “Londres vira país do terceiro mundo”.

Jon Henley fez as malas, pegou o rumo da estação Victoria e, de lá, se mandou para a Holanda. Não tinha idéia do que iria fazer. O importante era deixar Londres sem sequer olhar para trás. Passou vinte anos entre Amsterdã, Helsinki e, por quase uma década, Paris, onde constituiu família. De emprego em emprego, ou biscate em biscate, mais ou menos ligado ao ensino, próximo ao jornalismo, Henley foi se mantendo. Londres? Nem para as férias.

Agora, passados vinte anos, Jon Henley está de volta e escreveu, para o jornal The Guardian, uma longa matéria sobre as mudanças por ele encontradas e sentidas na cidade.

Conheço a sensação do agora jornalista, embora eu não exerça a profissão. Em janeiro, completarei 30 anos seguidos de Londres, apenas interrompidos por 10 dias em 2006 com um pulinho ao Rio de Janeiro.

O que interessa são as impressões de Henley. Dou umas dicas, deixo as minhas de lado, já que, para variar, eu não venho ao caso, conforme é de meu hábito e tradição. Só os que se consideram verdadeiros jornalistas é que vêm ao caso e adoram falar de si próprios, do que acham e não acham.

A Jon Henley, pois, e suas impressões.

Londres não é mais a mesma

A rigor, nenhuma cidade do mundo é a mesma, passados vinte anos. Começo a opinar. Mau sinal. Vamos ao que interessa, ao que saltou aos olhos e outros sentidos do agora jornalista formado e informado do Guardian.

Na Londres de 1987 não havia chance de se encontrar um café decente. Chá, sim. Café, não. Hoje só dá café. Há cafeterias em todos os quarteirões de todas as ruas oferecendo dezenas de variações do que nossos beletristas já chamaram de “a preciosa rubiácea”. Agora é latte pra cá e machiatto pra lá. Ponto para Londres. O primeiro. Sempre segundo Henley.

Na Londres de 1987, uma pessoa motorizada podia e conseguia estacionar o carro bem em frente de onde morasse. Bastava não ser em cima de uma linha amarela na rua. Agora, Henley (e toda população com carro da cidade) tem de pagar mais de 150 dólares por mês pelo que se tornou um privilégio.

Londres sob água e terra

Jon Henley acha que o metrô londrino continua a mesma josta de sempre. Linha por linha, da Central à Piccadilly passando pela District, tudo a mesma coisa para ele: trens feios, sujos, sempre atrasados. Um pesadelo. Tenho que morder a língua (a rigor os dedos) e me conter: discordo solenemente. Deixo de parênteses e volto à condição de mero leitor, que até que não é das piores.

Uma boa notícia para Londres e londrinos e quem acredita em opinião de jornalista pago: os ônibus são sensacionais. Henley elogia a enorme quantidade de ônibus existentes e nem menciona os (olha eu não me agüentando e dando palpite de novo) os vastos ônibus de um andar só e ligados por uma sanfona.

Também não se refere ao congestionamento de trânsito (e subseqüente imposto a carro que circula no Centro da cidade) por eles causado. Henley admite que só reparou como tem gente que não acaba mais comendo e deixando os restos pelos assentos dos baita ônibus por que uma amiga chamou sua atenção para o fato. O agora jornalista concorda: desde quando se tornou aceitável fazer a principal refeição do dia no segundo andar de um ônibus da linha 43, por exemplo?

Juventude perdida

Para Henley, jovens com menos de 25 anos passam por um ritual obrigatório que os bota para vomitar e capotar na calçada toda sexta-feira à noite. Segundo ele, na Acton de seu tempo, isso não acontecia. Nem mesmo na porta dos pubs, que, então, fechavam obrigatoriamente às onze da noite.

Nada tem a ver com o que foi dito acima, mas Henley ficou espantado, em matéria de preço (e o preço de tudo em Londres é de causar espanto e até mesmo horror, na impressão deste leigo que vos fala) do que o quanto os dentistas estão cobrando. Terá achado o resto normal?

Mais: a televisão piorou horrores. Baixou a um nível comparável ao francês, segundo ele, o que não é brincadeira, minha gente. Os preços. Ah, os preços de tudo. Mas Henley só menciona as residências. Não há jeito do pobre do Henley conseguir, com seu salário, comprar uma casa. Na época da lamentável, segundo ele, Thatcher, era mole. E também por que se fala tanto em educação, nos problemas da instrução? Adivinha, Jon Henley, adivinha!

O agora jornalista Jon Henley não deve ter ganho o suficiente com seu texto de quatro páginas para o Guardian que desse para comprar um apartamento. Talvez o suficiente para pagar o estacionamento por uma semana de seu Fiat. O que me traz, e aos leitores, à sua ponderação final: por que tanto Porsche dando sopa nas ruas?

Alguém anda faturando alto, meu querido, mas alto para valer. Seguramente não são as levas e mais levas dos ubíquos emigrantes recém-chegados e instalados. Que fim levaram os ingleses, os britânicos, esquece-se de perguntar.

Encerro com uma observação minha e só minha: por que é que os jornalistas que passam vinte anos sem botar os pés em Londres não notam, ou mencionam, o misterioso desaparecimento de tanto, mas tanta gente? Por que só dá figurinhas feito eu? Uma estrangeirada danada de alienígena.

 
 
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