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Atualizado às: 07 de dezembro, 2007 - 10h37 GMT (08h37 Brasília)
 
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O útero e suas andanças
 
Ivan Lessa
O útero (feminino) parece não querer sair do noticiário britânico. Só perde para os tropeções do novo governo Labour de Gordon Brown e mudanças de técnicos nas equipes de futebol.

O útero (feminino), vira e mexe, está sendo examinado por todas pessoas alfabetizadas em suas funções básicas, isto é, a procriação, e superficiais, como a… o… no momento não me ocorre mais nada.

Verdade que eu raramente vou além da manchete. Vivem anunciando que a fertilização artificial agora está cada vez mais fácil para homens e mulheres de todos os sexos. Em geral, mulheres.

Quando um casal não consegue procriar, por exemplo, por serem ambos os cônjuges do mesmo sexo, há moderníssimas formas de uma das pessoas envolvidas no fracativo processo ser fertilizado por aquilo que é conhecido no metiê como o “O Seringão” – e, zás, como num passe de mágica, a senhora ou senhorita se verá grávida, o rosto iluminado, os olhos brilhando de orgulho e felicidade.

Não quero me emocionar muito. Ser mãe é padecer no paraíso, disse e repetiu nosso povão, de todos os sexos, em sua imensa sabedoria. Guio-me por essas coisas. São elas que me movem e comovem.

Sinto pelas mães, já fui filho. Hoje, acumulo as funções de pai e marido, sei como são essas coisas. Mas o útero (feminino), também apelidado de “ventre”, nos meios poéticos, assim como iPods e iPhones, ou mais recentes engenhocas, não saem nunca das páginas dos jornais.

O útero (feminino) está sempre sujeito às mais recentes inovações científicas populares, como se fosse algo bolado pelo Bill Gates ou o Steve Jobs. Laços fora, ao útero (feminino) pois.

Revolução uterina verde

Lá estava na primeira página do Sunday Times de domingo (como o nome indica) passado, dia 2 dezembro: O amor pelo brócoli começa no útero.

O útero feminino, evidentemente. Essa notícia li de cabo a rabo, se me permitem a expressão, já que ocupava uma coluna inteira, a primeira a contar da esquerda de quem entra.

No primeiro parágrafo, o editor científico do prestigioso dominical, Jonathan Leake, começava explicando que as mulheres (e só as mulheres e nada nem ninguém mais que as mulheres) podem dotar sua prole de um gosto para a vida inteira por alimentos como o brócoli e o brussels sprouts (couve de Bruxelas, literalmente, que, por uma dessas coisas, não pegou no Brasil), simplesmente comendo regularmente as citadas verduras.

Não sou homem de verduras. Não sei nem tenho mais como saber dos hábitos alimentares da senhora minha mãe na gestação que resultou na “singularíssima pessoa” que sou, para citar o poeta imerecidamente esquecido, Augusto dos Anjos.

Sei que odeio verduras. Com exceção dos “esprutos de Bruxelas”, conforme os batizei aqui na Inglaterra, onde os descobri, e, bem cozidinhos, no ponto, como (do verbo comer) com prazer não só no Natal, quando proliferam, como em qualquer outra época do ano.

Já o espinafre… Ah, o espinafre! Esse não desce. De jeito nenhum. Nem os desenhos animados do Popeye, personagem de minha particular predileção, conseguiram me despertar o mais leve entusiasmo pela verdura em questão.

À mesa, quando pai e mãe, por uma vez aliados, tentavam me obrigar a comer o espinafre, incentivando-me com arrazoados pouco científicos, eu não comia, mas não comia mesmo. Nunca fui proibido de ir à praia ou ao cinema por minha determinada recusa. Limitavam-se ambos a me olharem um olhar que já previa um futuro sem muito sucesso, os ombros caídos, a derrota me espreitando a cada esquina.

Divago. Friso apenas que não comi o raio das verduras que tentaram me impingir. Talvez por isso, numa idade inferior à expectativa de vida do brasileiro médio (72,3 anos. Ah, nossa precisão!) tenha me encontrado de peito tomado, vista embaçada, pés pesados. O passado me condena, como atestam os maus filmes.

Mas eu ia dizendo…

Deixo, com certa relutância nostálgica, a mesa com meu pai e minha mãe e volto suprema sem graceza dos jornais britânicos. O amor pelo brócoli e como ele pode ser insuflado a partir do útero (feminino), feito afirmam agora os especialistas nessas coisas.

Deles, os úteros (femininos), entendo pouquíssimo. Sempre fiquei algo por fora, lá pelas suas imediações. As gravidinhas, se quiserem, que incutam o quanto quiserem em seus filhos e filhas o gosto pelas verduras.

Por mim, deveriam elas comer muita goiabada com queijo, pastel de palmito, xarope de groselha e outras iguarias. Isso sim seria um belo presente àqueles ainda por nascer, que, já no útero (feminino), distantíssimos das tensões com o Iraque, o enriquecimento nuclear no Irã e o aquecimento global, poderiam aproveitar mais sua breve estada no útero (feminino) antes de por aqui botarem os pés e começarem a pegar no pesado.

 
 
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