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Atualizado às: 21 de novembro, 2007 - 10h57 GMT (08h57 Brasília)
 
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Goodbye! Hello!
 
Ivan Lessa
Eu me dou com 17 ingleses. Quer dizer, me dou no sentido de amizade sólida e íntima. Não ficamos apenas no "alô, tudo bem?". Absolutamente. Às vezes, paramos para comentar há quanto tempo não faz sol. Ou chuva.

Três deles já foram até minha casa, ou "flat", como dizem no linguajar pitoresco local. Desses 17, 9 se mandaram destas ilhas neste ano que vai chegando ao fim. Para não falar dos ingleses com quem tenho pouca intimidade e nem me passa pela cabeça tomar a indevida liberdade para perguntar por que motivo estão indo embora.

Os sogros de minha filha, por exemplo. Moravam em Winchester, sempre ficaram por lá, numa aldeia das mais sossegadas, fotogênicas e que, conforme queriam, tinha pouquíssima ou nenhuma novidade.

Pois não é que um dia abriram uma filial de uma casa de "comida rápida" (é, fast food), um casal de poloneses mais o filho se mudaram para a localidade, destituída, frise-se, de "lado bom" e "lado ruim", e foi o suficiente para o senhor e a senhora em questão (meus co-sogros, creio que se diz) pegarem do boné do melhor tweed e se mandarem rumo à Espanha e uma de suas cidades tranqüilas, que parece que ainda as há.

Nelas, conforme quer o rei Juan Carlos, calam a boca nas horas apropriadas.

Minha casa, minhas gentes

Voltando ao que interessa: eu, minha vida, sabores e dissabores. Minhas velhacarias. Talvez até meu racismo confesso, acusaria um inimigo.
A casa em que moro é distribuída em cinco flats. O meu fica no nosso segundo andar, que eles, os britânicos, em sua proverbial excentricidade, chamam de terceiro.

Até há bem uns cinco anos, todos os meus vizinhos, se assim os posso chamar (durante mais de década só nos cumprimentávamos com um movimento da cabeça e um murmúrio na escada ou na entrada), eram gentes locais. Ou descendentes de escoceses e irlandeses, o que já beira perigosamente o estrangeirismo. Eram quietos, pacíficos, não me chateavam nem uns aos outros.

Agora, só conheço os novos habitantes (no way que vou me rebaixar chamando-os de "vizinhos") pelo barulho e pelo aroma pungente de suas artes culinárias. Tenho uma pista, no entanto, quando, de manhã, 9 e meia, hora que, em geral, deixo minha residência (pois é, minha casa virou residência), o carteiro despeja na caixa geral de correspondência as cartas, revistas e promoções a nós cinco destinadas.

Lá, procurando os CDs ou DVDs que comprei online, dou de cara com as invisíveis mas audíveis e olorosos figuras que, por assim dizer, me cercam por baixo e por cima. Busco pistas em seus nomes. Fico na mesma. São tão estrangeiros a estas terras quanto eu. Só posso dar palpites.

Um é de origem chinesa a julgar pelo sobrenome e oriundo dos Estados Unidos, em vista dos remetentes. Outro, só pode ser da Índia, do Paquistão ou Bangladesh. Adivinharão eles minha origem? Preocupar-se-ão com isso? Estarei infringido alguma lei tocando no assunto? Mesmo levando em conta que estou e estamos numa ilha pequena e onde se vive cada vez mais de forma apertada?

Estarei passando escandalosamente demonstrando xenofobia, ainda mais por tabela, o que é ainda mais vergonhoso e condenável do que a desconfiança adquirida dos cidadãos locais? Meu auto-racismo é peculiar só a mim?

Não sei. Sei apenas que, quando aqui cheguei, há cerca de três décadas, eu me julgava o único estrangeiro. Como tal andava pelas ruas. Nunca tentaram me dar uma esmola. Talvez tenha sido o fato de eu nunca, nunca ter recorrido a qualquer dos benefícios sociais fartamente disponíveis a quem aqui se instala. Fiquei no clínico generalista gratuito e, em mais de vinte anos, nunca nem eu nem ninguém de minha família foi lá chatear.

Depois… Bem, depois é problema muito pessoal para expor aqui. Mais pessoal do que prevenção contra os outros estrangeiros que agora aqui arribam. O dono e os garçons dos restaurantes italianos ou indianos onde eu comia fugiam a qualquer classificação nacionalista, dada a internacional seriedade da cerimônia de sentar-se à mesa ou a ela servir. Está inscrito nas determinações humanísticas da ONU.

Tudo acabado

O ONS, o órgão britânico que lida com estatísticas, acaba de divulgar seus números mais recentes, ou seja, referentes ao ano de 2006. É, pois, oficial. O êxodo britânico continua. No ano em questão, 400 mil cidadãos deixaram estas ilhas de vez, ao que tudo indica. Por ordem de preferência, seguiram o rumo da Austrália e da Nova Zelândia (32%) ou França e Espanha (24%).

Nada dizem dos 44% restantes. Algo me diz que foram para os Estados Unidos ou para o Brasil. No último caso, peço que não os assaltem, por favor. São boa gente. As canalhices do império saíram na urina. Vamos procurar deixar uma boa impressão para não ficar apenas nessa piada de mau gosto que, durante anos, foi dar guarida a assaltante de trem.

Os Estados Unidos que se virem com a "inglesada". Quem manda botar aquela estátua na baía, logo em frente de Nuiórque, berrando que podem vir quente que a coisa lá tá fervendo.

O outro lado da moeda é quanta gente baixou por aqui no mesmo ano de 2006 – 591 mil é o que assegura o órgão estatístico. Complementando o dado com o fato de que muitos ficarão apenas um ano. Why? Espero que sejam os que coabitam (em termos já expostos) comigo. Ou melhor, em mim. Parece que a maior parte dos imigrantes, se assim se pode chamá-los, nada tem a ver com a Comunidade Européia. É Índia, Paquistão e Bangladesh.

Um outro dado oferecido pelas gentes estatísticas: nos próximos 25 anos, 10 milhões de pessoas chegarão aqui. A meu bairro, meu quarteirão, minha casa, não tenho dúvida. Não estarei mais aqui para recebê-los – bem ou mal. Espero que se divirtam.

Quanto ao êxodo, tende a aumentar. Cabe aqui a velha graça: o último a sair não precisa apagar a luz do aeroporto. Tem um imigrante recém-chegado especialmente encarregado da tarefa.

 
 
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